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Sabe-se que se deixou de ser novo quando escrevemos “sou do tempo em que”. Pois, eu sou do tempo das Rádios de autor e pertenço àquela geração de pessoas doentes pelos Media, que levam os jornalistas a sério e curtem os programas de informação.
Por isso, e porque trabalhei meia dúzia de anos nos estúdios da Sampaio
e Pina, senti o passamento do Rádio Clube e o despedimento dos seus 36
colaboradores, jornalistas em grande número.
Mas, para além dos aspectos pessoais, é na qualidade profissional de
consultor de Comunicação que escrevo estas linhas. Uma consultora de
Comunicação, como o seu nome indica, é uma instituição que pretende
fazer propagar ideias, iniciativas e argumentos para que estes atinjam
os seus destinatários, os públicos-alvo do nosso jargão.
Ora, a menos que se trabalhe para nichos de nichos, os Media constituem
os canais fundamentais para essa propagação. É através deles que nos
chegam os alertas e os estímulos, é com eles que estabelecemos relações
de cumplicidade baseadas nas matérias-primas que temos em comum – os
factos, os protagonistas, os documentos de interesse público, os
eventos, as campanhas.
Mesmo no tempo dos agregadores, a morte de um jornal, de uma rádio ou
de uma TV constitui sempre um prejuízo para a nossa vida em comum –
porque dela decorre a diminuição do valor essencial da pluralidade – e
um relativo estrangulamento da nossa actividade empresarial. Menos
Media significam menos oportunidades de comunicação, menos contactos,
menos públicos, menos canais.
Só os fanáticos é que se podem regozijar com o encerramento dos Media
que não controlam. Os profissionais da Comunicação como eu sabem que os
Media não se controlam e que se querem vivos. Para que se influenciem e
para que nos influenciem.
Penso ter deixado claro o quanto considero crítico para a Consultoria
de Comunicação e Relações Públicas o relacionamento entre os Media e as
empresas do nosso sector.
Por isso estranho que o exercício da ética, tantas vezes reclamado para
cenários difusos e inconcretizáveis, não seja considerado em situações
tão concretas como a que se viveu com o Rádio Clube.
Se há casos em que uma Consultora de Comunicação deve invocar o
estatuto de objecção de consciência para recusar um contrato ou uma
prestação de serviços é o do encerramento de um Meio e o do
despedimento de jornalistas e outros profissionais de Comunicação. De
facto, custar-me-ia ver colegas meus ou consultoras concorrentes
envolvidas na gestão mediática deste tipo de crises.
Porque não chega
estar sempre a chamar a ética. É preciso deixá-la entrar quando ela
precisamente nos bate à porta.
Luís Paixão Martins
Consultor de Comunicação
PS: A publicação deste artigo foi inicialmente proposta à Meios.
Foi-nos sugerida a publicação noutro jornal. Insistimos com o seguinte
argumento: “Porque o editorial da semana passada transmite a falsa
ideia de que existe algum preconceito da LPM em relação à Meios. Com o
envio e pedido de publicação do artigo essa falsa ideia fica desfeita".
Mais tarde, foi-nos dito que não havia espaço na edição seguinte e que
teríamos de esperar pela outra. Sem prejuízo de compreender os cuidados
da Meios para com os seus aliados e como o tema é de actualidade,
optámos por propor a sua publicação ao Briefing.
Sobre o fecho do Rádio Clube, post do jornalista Emídio Fernando.
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