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O "Jornalismo de Causas" tem uma missão. O Renato explica-a

quinta, 21 abril 2016 12:53   Renato Teixeira, fundador do projeto Jornalismo de Causas

Renato Teixeira, fundador do projeto Jornalismo de Causas"Que meio de comunicação pode hoje, por exemplo, investigar seriamente os crimes do governo angolano? Quantos jornalistas foram enviados para acompanhar o conflito israelo-palestiniano sem ter o ponto de vista de Israel?". São estas as questões que explicam a motivação de Renato Teixeira criar um projeto de produção de conteúdos cujo objetivo é divulgar e promover a realização de reportagens financiadas pelos leitores. Chama-se "Jornalismo de Causas" e a missão é, precisamente, a hegemonia do "jornalismo de causas".

Briefing | O que motivou a criação de um projeto de jornalismo de causas?

Renato Teixeira | O "Jornalismo de Causas" nasceu da convicção de boa parte da produção jornalística que existe atualmente se afastou quer do registo da reportagem quer dos acontecimentos onde se verificam injustiças gritantes. Exemplo disso é a ausência de reportagens em zonas de conflito, onde os meios de comunicação, esvaziados de verbas pelas administrações, não têm sido capazes de fazer a devida cobertura, sobretudo para o mercado português. O resultado desse esvaziamento, que se reflete também nos recursos humanos, leva a que as redações ou comprem feito ou façam mal, sem o devido aprofundamento. Esse vazio teve também, em alguns casos, motivações políticas. Que meio de comunicação pode hoje, por exemplo, investigar seriamente os crimes do governo angolano? Quantos jornalistas foram enviados para acompanhar o conflito israelo-palestiniano sem ter o ponto de vista de Israel? Quantos ainda relataram com a profundidade que se exige em democracia os conflitos do Afeganistão, do Iraque, da Líbia ou da Síria sem ser "embedded" com os exércitos das potências beligerantes? Em suma, a grande motivação do "jornalismo de causas" é, paradoxalmente, a hegemonia do "jornalismo de causas", mas sempre com o plano inclinado de modo a favorecer os mais fortes em cada uma das matérias abordadas. A grande diferença é que, ao contrário desse jornalismo, que colonizou o mercado a gritar imparcialidade na mesma proporção em que tomava partido, aqui não se usam máscaras, permitindo ao leitor saber, sem jogos de espelhos, quais os óculos escolhidos para abordar cada uma das questões que venham a ser abordadas.

Briefing | Em que consiste este projeto? E quais os objetivos?

RT | Este projeto tem duas apostas centrais. Uma editorial, quebrando o agenda setting dos interesses instalados, outro, ancorado nesse e fundamental para que tal seja possível, passa por convencer os leitores que a única alternativa para terem este tipo de informação é serem eles a garantir o financiamento. Não há independência possível numa cobertura do conflito israelo-palestiniano se o jornalista for ao território financiado pela Embaixada de Israel, como já aconteceu com o então diretor do Público José Manuel Fernandes. Assim, ao garantir uma rede de leitores e de mecenas capazes de financiar o projeto, desenhamos os objetivos em função das verbas recolhidas. Depois do projeto piloto, inteiramente financiado pelos leitores, na Palestina, o objetivo agora passa por fazer uma abordagem à questão dos refugiados, tentando enviar uma equipa às fronteiras onde a Europa se entrincheirou como já não acontecia desde a segunda guerra mundial. Queremos voltar também à Palestina para um período mais longo, de modo a poder reportar a realidade da ocupação no dia-a-dia. Qualquer um dos dois projetos terá início assim que as verbas sejam suficientes para os levar a cabo.

Briefing | Como surge a ideia de pôr os leitores a financiar as reportagens?

RT | Os leitores foram os grandes entusiastas, os principais responsáveis pelo projeto. Eu já tinha feito reportagens no Irão, Líbano, Palestina, Mauritânia, para meios como a Visão, a Antena 1 ou o jornal i. Todos em regime de freelance e todos muito mal pagos. Mal pagos ao ponto de ter, paulatinamente, abrandado a atividade. Algumas das pessoas que gostavam de ler as minhas reportagens foram questionando a razão desse abrandamento. Posto que a grande razão foi financeira alguns começaram a questionar, "e porque não tentas lançar uma recolha pública, em regime de crowdfunding ou algo equivalente"? Como me entusiasmava a ideia de poder fazer reportagem sem constrangimentos editoriais o projeto avançou, e foi surpreendente a facilidade com que se conseguiu juntar o valor necessário para a reportagem piloto.

Briefing | De que forma é feito este financiamento? E de que forma é aplicado?

RT | O financiamento é feito por coleta pública. O tema é escolhido e posteriormente aplicado na reportagem que foi anunciada. Começámos pela ocupação israelita, na Palestina, agora, dentro de poucos dias, lançaremos a campanha para ir recolher as histórias que os refugiados trazem e que tão poucas vezes ocupam o lugar que permite que a opinião pública compreenda porque fogem aquelas pessoas.

Briefing | Os leitores podem escolher os temas que querem financiar?

RT | Os leitores podem sugerir temas, e financiar apenas aqueles que tenham interesse. Consoante o projeto e a sua identificação com eles o seu entusiasmo pode ou não ser convertido em apoio financeiro, pelo que em nenhuma circunstância financiará um tema com o qual não esteja de acordo. A proposta dos temas, no entanto, é feita pela equipa do Jornalismo de Causas.

Briefing | Mas sendo o projeto financiado pelos leitores, como mantêm uma atividade jornalística independente?

RT | Estamos a dar os primeiros passos, pelo que não temos ainda condições para manter ninguém dedicado ao projeto a tempo inteiro. É um sonho chegar aí, mas para tal é preciso alargar a rede de leitores\financiadores ou eventuais mecenas, com quem estamos a negociar futuras parcerias.

Briefing | As reportagens serão publicadas em que suporte?

RT | As reportagens são inicialmente publicadas online, no wordpress do projeto, em regime de copyleft, sendo que posteriormente à publicação quem queira pode publicar sem qualquer custo, tendo apenas que citar a fonte e, naturalmente, a lógica de financiamento do projeto. Os meios que queiram publicar têm a garantia de publicar algo com qualidade e aprofundamento e o projeto ganha amplitude e mais financiadores com essa multiplicação.

Briefing | De de que forma os jornalistas são remunerados?

RT | É um objetivo mas por agora os jornalistas não são remunerados. Até que o projeto tenha outros meios as verbas são exclusivamente dedicadas aos custos de operação nas reportagens que formos levando a cabo.

Briefing | Qual o balanço de financiamento já recolhido?

RT | É muito animador. Já recebemos financiamento de leitores em Portugal, Espanha, Brasil, Cabo Verde, Angola e Moçambique. Ponderamos passar a publicar também em versões bilingues para entrar no mercado inglês e, eventualmente, francês. Os valores recolhidos e gastos nas reportagens são públicos e apresentados aos leitores. A primeira reportagem custou cerca de 1000 euros, tendo a recolha de fundos sido superior. A margem que sobre a um projeto soma-se à recolha destinada ao projeto seguinte.

Briefing | Quais as iniciativas previstas para a recolha de financiamento?

RT | Além do regime proposto têm chegado sugestões muito interessantes. Audio-livros, transformação em publicação digital para vender na Amazon, entre outras ideias que estamos a estudar para diversificar as fontes de financiamento.

Briefing | Quais as expetativas para este ano?

RT | Para este ano queremos financiar o segundo projeto integralmente, enviando um ou dois jornalistas para as fronteiras da Macedónia, Turquia, Hungria ou Grécia, quatro dos pontos mais problemáticos da dita "crise dos refugiados". Queremos ainda começar uma recolha de maior amplitude para ter, por um período mais longo, uma equipa na Palestina, reportando, como já disse, o quotidiano da ocupação no dia-a-dia das pessoas que a vivem.

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Modificado em quinta, 21 abril 2016 16:33


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