Ideias Na Ásia

Nuno Pestana Teixeira Senior Art Director TBWA SingaporeNeste último ano, ouvi falar de inúmeros criativos que estão a pensar aventurar-se para a Ásia. É, sem dúvida, um sítio fantástico para viver. Viagens inesquecíveis, óptima qualidade de vida e uma experiência inigualável.

No que toca à publicidade, é certamente um entusiasmaste canto do mundo, mas se estiverem a pensar em experimentar o oriente, aqui estão algumas coisas que devem saber:

Na Ásia não se faz mais trabalho do que em Portugal.
Na Ásia, tal como em Portugal, são muitas as histórias de ideias que morrem antes de nascer. As razões, porém, são distintas. Em Portugal, muitas vezes os clientes não têm tempo para realizar grande ideia. Na Ásia, o problema é o oposto: os processos são extremamente lentos. Enquanto em Portugal as agências se queixam dos prazos curtíssimos de que dispõem para trabalhar num projecto, por estes lados as hierarquias dentro dos escritórios das marcas são tão complexas, que por vezes 6 meses depois de uma ideia nascer, ainda não chegou aos olhos do Director de Marketing que realmente tem o poder de dizer sim ou não.

A Ásia é, por vezes, demasiado multi-cultural.
Diversidade é, normalmente, uma característica positiva. Mas numa região com países economicamente tão diferentes, os “Hubs” acabam por fazer campanhas regionais, e aos outros países cabe só a tarefa de adaptação. Isto resulta em campanhas que têm de agradar a tudo e todos. Isto não é fácil: o que é engraçado no Japão é ofensivo na Indonésia. O que é emocional na Malásia é lamechas em Singapura. O que é sexy nos países mais ocidentais não pode passar nos países de população Muçulmana. O resultado muitas vezes tem de agradar ao mínimo denominador comum. E isto dificulta bastante a criação de bom trabalho.

Na Ásia acredita-se em fantasmas.
Há uns meses atrás, uns criativos das Filipinas vieram cá trabalhar numa campanha. No primeiro dia, faltaram completamente ao trabalho porque, segundo eles, o quarto de hotel onde dormiram estava assombrado por um fantasma. True story. Em Portugal, chamamos “fantasmas” às campanhas desenvolvidas com um único intuito: agradar a 20 pessoas, em Junho, no sul de França. Na Ásia, este tipo de fantasmas assombra a nossa indústria ainda mais do que os espectros assombram os hotéis. John Hegarty disse, há umas semanas atrás, que a Ásia nunca vai ser uma potência mundial da nossa indústria até cortar seriamente em “scam advertising”. E a verdade é que, por estes lados, as agências repudiam à partida lutar por uma grande ideia (pelas razões que mencionei antes), optando ao invés por pequenas (e falsas) tentativas de trazer qualquer estatueta para casa. E na maior parte das vezes vêm de mãos a abanar.

A Ásia é um bom sítio para trabalhar.
Nem tudo são problemas. A verdade é que, apesar de tudo, trata-se de um mercado que cresce todos os dias. Aqui, a crise económica sentiu-se mais nas notícias do que nas carteiras. Neste continente há dinheiro, não só nos salários, como nos orçamentos de marketing das marcas. “O cliente quer uma borla” é algo que se ouve menos por aqui. Se uma ideia é vendida com sucesso e apreciada, é produzida com qualidade. Outra vantagem é a riqueza cultural desta região, e tudo o que se pode aprender aqui trabalhando. Cada país é absolutamente distinto do seu vizinho, com cultura, arte, religião, costumes, idioma e insights próprios.

Somando este crescimento económico e esta diversidade de culturas, o resultado é o maior benefício que senti desde que para aqui vim: as pessoas. Um autêntico melting pot, na Ásia vão trabalhar com pessoas interessantes, brilhantes, competentes, internacionais, de horizontes abertos e com histórias fantásticas.

Concluindo, não quero desencorajar os meus compatriotas criativos nas suas potenciais aventuras asiáticas. Há muito para aprender, criar e produzir aqui. Apenas espero que estes pontos ajudem os próximos aventureiros a saberem o que os espera, para que desta forma consigam ultrapassar os desafios e começar imediatamente a ter todo o sucesso que procuram.

Quarta-feira, 09 Julho 2014 10:44


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