Comunicação

2017, o ano das mulheres? Bárbara responde a Marcelo

“O ano das mulheres”. Foi assim que Marcelo Lourenço intitulou o seu texto de balanço de 2017. Mas os argumentos do diretor criativo da Fuel mereceram resposta de uma mulher: Bárbara Novo, account executive na Tux&Gill, encontra-lhe “ângulos mortos”, apesar de reconhecer que é bem-intencionado. E, por isso, contra-argumenta.

sexta, 12 janeiro 2018 12:35
2017, o ano das mulheres? Bárbara responde a Marcelo

 

“Muito obrigada, menino.

Agradeço o texto e o reconhecimento de que em 2017 as mulheres tiveram um papel diferente, que se pronunciaram mais que nunca, e que foram ouvidas (a bem ou a mal) de forma sem precedentes. Tudo isto é verdade, e é da maior importância que, quer homens, quer mulheres, acordem para o facto de que o mundo não é só o que nos acontece. É muito maior, e tem muitas verdades difíceis de engolir. É importante olhar para o caminho percorrido e o que aconteceu de bom, como o Marcelo fez neste texto, tanto quanto é ver o que ainda falta.

Acredito que toda a gente tem preconceitos enraizados, uma perspetiva que confunde com a realidade por ignorância, e que essa ignorância não é uma falha. É humano. Também eu, um dia, me perguntei para que raio servia o feminismo, quando eu posso fazer o que eu quiser, tenho educação superior, sou financeiramente independente e posso votar ou ter propriedades. Todos somos ignorantes em relação ao que é a vida noutra pele, e isso é uma lição que às vezes demora uma vida a aprender, mas das mais louváveis. Porque só assim podemos questionar-nos, saber que não temos as respostas todas e não conhecemos todas as realidades, e abrir a mente. Ouvir. E reconhecer o quão pouco sabemos.

Dito isto, e no espírito que espero que todos tenhamos depois das lições de 2017 – de que é sempre possível aprender mais, melhorar atitudes e expandir consciências – gostava de chamar a atenção para alguns ângulos mortos neste texto bem-intencionado. Sem ordem particular:

  • A definição de Harvey Weinstein como um “canalha e um bully violador de mulheres” é gelo fino. É verdade, mas é uma verdade atrás da qual é muito fácil esconder que este é um problema insidioso e pervasivo em todos os ambientes, profissões e classes sociais. Não são “eles”, os monstros, contra “nós” os homens “normais”. Os homens (e mulheres) “normais” têm monstros dentro de si muito mais vezes do que a sociedade quer reconhecer, porque é uma verdade dolorosa de encarar. Mas os insultos e o outrage têm muitas vezes um efeito contrário. Em vez de se ver um problema enraizado e complexo, isola-se e simplifica-se. Diz-se que aquele cancro foi excisado quando, na verdade, está espalhado pelo corpo todo. Mas não queremos ver. Queremos pensar que está resolvido e demonizar as partes visíveis. É uma armadilha. O Obama ser eleito presidente não curou o racismo, tal como o Weinstein ser exposto não resolveu a opressão sexual das mulheres.
  • A idealização da mulher não é a mesma coisa que o empowerment. Um pedestal não é igualdade. Tem sido uma reação natural dos homens que se têm sensibilizado com o clima atual, os homens que querem ver mais e fazer melhor (e que louváveis são): cantar odes às mulheres, enlevá-las, dizer que são as melhores, e são tão mais capazes que nós homens, afinal. É o equivalente à culpa branca. Vem de um reconhecimento de um privilégio, o que é bom, mas não é produtivo e, na verdade, não é o objetivo. Se tudo correr bem, é uma fase. Não queremos que os filmes liderados por mulheres sejam considerados os melhores do ano se não o forem realmente. Queremos ter hipótese de fazê-los e aparecer neles e contar as nossas histórias. Queremos ter hipótese de fazer filmes (e livros, e arte, e publicidade) maus e bons, como tantos há feitos por homens. É um excelente indicador a maior presença delas na cultura, que é o reflexo da vida em sociedade, mas não chega ter séries sobre mulheres fortes e uma super heroína. Para que as mulheres não sejam uma tendência de 2017, mas sim que 2017 seja um passo real. Que se torne o novo normal e uma não-notícia haver personagens tridimensionais e filmes escritos por mulheres, a quem seja dada oportunidade de fazer tanto bom como mau, e serem julgadas pelo trabalho que fazem, e não pelo seu género, quer pela negativa quer pela positiva. A ideia da perfeição ou superioridade das mulheres coloca uma fasquia impossível e tem o efeito contrário de lhes permitir menos a falha, o erro, a inaptidão. Por isso é que uma mulher tem por regra que ser mais “perfeita” para chegar ao mesmo reconhecimento. Por isso é que quando um homem faz um filme mau ninguém diz “pois, os homens não têm jeito para isto” enquanto que elas a cada falha parecem arrastar todo um género atrás. As mulheres não são deusas a serem adoradas pelos homens. Somos só
  • A Fearless Girl foi um bom momento de 2017. Um bonito símbolo, bem planeado e executado e uma das raríssimas ações que veio da publicidade sem parecer apenas uma exploração do feminismo enquanto tendência. Foi pensada por mulheres, implementada sem ser para vender um produto, e com um racional poderoso por trás. Meses depois expôs-se que a empresa-mãe da firma de investimento que bancou a estátua não pratica igualdade salarial com mulheres e minorias étnicas. A Fearless Girl tornou-se mais um símbolo de que nem tudo é o que parece, e que o trabalho nunca acaba. Trouxe coisas boas, gerou awareness para questões importantes. Mas não chega. Não podemos ser cosméticos. Não podemos ser distraídos por coisas bonitas e achar que estamos a dar poder através do simbolismo. Especialmente quando vem de corporações e empresas, que não podemos deixar liderar o discurso social. Isto não é só política nem relações públicas, são as vidas das pessoas. Tem que se ter as conversas desconfortáveis, tem que se falar do que não é bonito nem educado. Tem que se falar de sexo. Tem que se falar da responsabilidade do controlo de natalidade, de direitos reprodutivos. Tem que se falar da ausência de mulheres nas hierarquias superiores de quase todas as áreas de trabalho. E no sistema em que vivemos tem, imperativamente, que se falar de dinheiro. Abertamente.
  • Aliados, homens que querem saber, considerem excluir do vosso discurso a expressão “enquanto pai de X filhas”. Não queremos sentir que só nos veem como pessoas porque a vida vos trouxe filhas. As mulheres existem fora da vossa vida e não teriam menos valor, menos problemas, menos silenciamento se vocês, em particular, não tivessem filhas. É aceitável que tê-las possa ter sido um gatilho para considerarem certas questões que antes não vos afetavam, porque todos nós temos gatilhos que nos fazem sair da nossa bolha, mas não é um motivo de orgulho. Pelo caminho, parem de dizer “ela é filha de alguém, mulher de alguém, irmã de alguém”, que é a outra face desta mesma moeda de pensamento falacioso e recheado de privilégio Ela já é alguém. Não é alguém porque é alguém a um homem. Caros homens sem filhas, por favor não esperem para as ter para nos ouvir e para reconhecer isto.
  • Por último, o diabo está nos detalhes. E tenho a certeza de que o Marcelo não gostou de ser tratado por menino no início deste texto. As mulheres da capa da Time, as vítimas de Weinstein, a Meryl Streep, a Gal Gadot, a Patty Jenkins, a Daenerys Targaryen, a Kristen Visbal e a Margaret Thatcher não são meninas. Não somos meninas. Produzimos, trabalhamos, sofremos, falamos e vivemos enquanto pessoas adultas, e as palavras importam. Não foi o ano da menina. Foi o ano da mulher.

Mesmo assim, obrigada Marcelo. Por ver, e sobretudo, por tentar. Agora, try harder”.

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

sexta, 12 janeiro 2018 13:10

bt nl

Assinatura Mensal
Edição MensalE-paper

Facebriefing

Melhores Briefing