Criatividade

O que dizem as nossas juradas em Cannes?

Ana Cunha. Catarina Vasconcelos. Luciana Cani. Vão falar português no júri do 62.º Festival Internacional de Criatividade Cannes Lions, que começa este domingo, 21 de junho. Fazem-no a convite da MOP – Multimédia Outdoors, que representa os festivais de Cannes em Portugal.
Uma escolha que, enquadra o CEO da empresa de publicidade exterior, Vasco Perestrelo, é "um reflexo do peso que as mulheres já têm nesta área", algo – comenta – "curioso de observar nesta altura de discussão acesa sobre a igualdade entre géneros, no mundo do trabalho".

sexta-feira, 19 junho 2015 12:48
O que dizem as nossas juradas em Cannes?


A diretora executiva e criativa da AC Brand Design, Ana Cunha, reconhece que o mundo da criatividade ainda é "muito de homens", pelo que atribui significado à escolha de mulheres, embora entenda que a diferença "não se devia destacar". E nem lhe parece que haja diferenças de visão entre masculino e feminino: "Somos todos profissionais", resume, considerando que o que conta é a qualidade do conhecimento, a capacidade de saber avaliar a criatividade e originalidade dos trabalhos".

Já a diretora-geral da consultora LPM, Catarina Vasconcelos, admite que o facto de os representantes portugueses no júri serem mulheres possa proporcionar um olhar diferente: "Havia aquela ideia errada de que os homens conseguiam representar melhor as empresas, que inspiravam mais respeito, que conferiam maior grau de segurança e outras ideias do género. Mas não é verdade. A prova disso é que as mulheres têm vindo a conquistar cada vez mais lugares de liderança em muitos setores de atividade. Por mérito. E isso é o que realmente importa".

Por sua vez, a diretora criativa executiva da Leo Burnett Lisboa, Luciana Cani, aporta a este tópico o entendimento de que "é importante misturar pessoas com cultura e países diferentes" e a convicção de que "é preciso aumentar a diversidade para gerar discussões mais interessantes".

Com vasta experiência em júris de prémios internacionais, Luciana sustenta que Cannes é diferente: "Sempre será o Oscar da publicidade, mesmo que saibamos existirem pelo menos dois festivais tão ou até mais criteriosos que Cannes".

Vai ser jurada em Imprensa, categoria que enfrenta o desafio do crescente peso que o digital ganha nos orçamentos e no planeamento de meios: "Há tempos que nos perguntamos o que vai acontecer a esta categoria. Alguns dizem que é preciso reinventar o print. Mas a verdade é que, até ao ano passado, esta categoria e outdoor ainda foram as que tiveram mais inscrições". A reinvenção parece, aliás, estar a acontecer: "O Grand Prix do ano passado era um material de apoio da ideia. Ou seja, o grande prémio desta categoria não utilizava o meio print como peça principal de uma campanha. E isso pode ser uma tendência. Outra tendência pode ser agregar tecnologia e tentar criar interatividade num meio que, em princípio, não é interativo".

Olhando para a criatividade nacional nesta área, Luciana é de opinião de que não é onde o país é mais forte. E, falando pela Leo, confirma que no último ano não houve projetos que envolvessem print de um modo significativo. Mas, isso não a impede de desejar que Portugal traga de Cannes um Leão nessa categoria. Não será para a Leo, mas Luciana até gostava de saber que trabalhos nacionais estão inscritos para os "defender se for preciso".

Catarina Vasconcelos vai ser jurada em Relações Públicas, afinal a área em que desenvolve a sua carreira profissional. O convite encara-o como o reconhecimento de um trabalho de equipa: "A equipa LPM é excelente e os resultados obtidos comprovam-no de modo muito concreto e objetivo".

Reconhece que "julgar e pontuar os melhores dos melhores é sempre um desafio" mas parte com a certeza de que, em Portugal, a comunicação está ao nível do melhor que se faz lá fora. "Quando participei como jurada no Dubai Lynx tive a oportunidade de constatar algo muito interessante: na LPM temos uma carteira de clientes que muitas das grandes agências internacionais não conseguem igualar, quer ao nível do número, quer do valor das marcas. Trabalhamos diariamente em ambiente internacional: Coca-Cola, Bayer, Nike, Pfizer, McDonald's...", afirma, salientando que "é notável verificar que a comunicação é dos poucos setores em que as empresas portuguesas são líderes de mercado".

Ainda assim, esta não é uma categoria muito concorrida em Cannes, o que a diretora-geral da LPM atribui ao facto de ser relativamente recente num festival que, por definição, se destinava às agências de publicidade. Além disso, por tradição quem concorre a estes prémios são as marcas internacionais, que apresentam campanhas para várias categorias em simultâneo. Ora, em Portugal vive-se uma realidade distinta ao nível da comunicação, com as maiores agências do setor a serem empresas nacionais. "Talvez por estas razões ainda não tenham tido tanta capacidade e/ou apetência para participar neste concurso", admite.

Mas se, ainda assim, Portugal não traz mais Leões de Cannes, "não é por falta de capacidade profissional", até porque – sublinha – muitos projetos premiados internacionalmente integram profissionais portugueses.

Design, categoria em que a diretora executiva e criativa da AC Brand Design é jurada, também não é uma das que atrai mais inscrições portuguesas. Mas não por falta de qualidade do trabalho: "Trabalho não faltou. Houve muitos processos de branding e muito bom trabalho feito, quer por grandes agências, quer por pequenos ateliês, quer por designers individuais", diz Ana Cunha.

Há, além disso, muitos designers disponíveis. É que, diz, o paradigma está a mudar e se, antes, para ter visibilidade era preciso estar integrado numa grande agência, as redes sociais vieram permitir o culto do trabalho individual, com a divulgação online a abrir, por exemplo, caminho para que jovens designers portugueses trabalhem para clientes estrangeiros.

Mas temos design para ser premiado em Cannes? Ana responde positivamente, mas vai dizendo que este é um concurso em que se premeiam a criatividade e a originalidade, com a qualidade da execução a ser remetida para um segundo plano. Para o design há, ademais, concursos mais apelativos, com a designer a reiterar que o que se faz em Portugal tem qualidade internacional.

E é ao reconhecimento pelos seus trabalhos recentes de maior relevo – o branding da NOS e do Novo Banco – que atribui o convite para integrar o júri em Cannes. Uma oportunidade excelente, pelo networking com alguns dos melhores profissionais do mundo e pela inspiração que advirá do que se faz de melhor a nível global.

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