Criatividade

Cannes será sempre Cannes? Cinco criativos dizem o que pensam

A organização de Cannes Lions anunciou mudanças no festival para 2018, muito por via da decisão da Publicis de não participar. Mas será que as mudanças são profundas ou de fachada? Será que a criatividade sai mesmo beneficiada e que este é um regresso à essência? Responde quem por lá andou e já ganhou prémios: Marcelo Lourenço, da Fuel, Judite Mota, da Y&R, Paulo Pinto, da Havas, Edson Athayde, da FCB. Responde ainda João Gomes, da 004, que não tem leões no portefólio mas também andou pela Riviera Francesa.

terça, 21 novembro 2017 12:28
Cannes será sempre Cannes? Cinco criativos dizem o que pensam

 

Marcelo Lourenço, codiretor criativo da Fuel

 

 Cannes será sempre Cannes? Cinco criativos dizem o que pensam

“Não acho que as mudanças nas regras do Festival de Cannes não vão mudar drasticamente o festival.
Algumas são meramente económicas, mexem mais no negócio do festival do que no negócio da criatividade.
Como por exemplo, a decisão de reduzir o número de dias e as categorias do festival.  Uma decisão motivada pelo boicote do grupo Publicis em 2018 e pela ameaça de boicotar o festival lançada pela WPP. WPP e Publicis por acaso têm alguma razão: o festival estava mesmo crescendo pra todos os lados, inventando novas categorias supostamente para acomodar os trabalhos que não caberiam em nenhuma das categorias existentes e , claro, dobrando, triplicando até o número de inscrições.
Limitar o número de leões por campanha – uma campanha agora só pode ser inscrita em apenas seis categorias – também me parece outra medida do tipo “acho que exageramos no passado” com agências levando pra casa 15, 20 leões com a mesma ideia. Eu, pessoalmente, acho meio injusto: uma boa ideia pode ganhar quantos leões quiser.
O que realmente muda as regras do jogo são as novas regras de separar as premiações para campanhas criadas para causas sociais e as campanhas feitas para clientes que pagam. Acho isso bem justo. Não que as campanhas feitas em regime pro bono para causas meritórias não devam ganhar leões – pelo contrário. Só que aquela campanha feita para mudar o mundo deveria ser feita por gente que realmente quer mudar o mundo e não só porque quer ganhar leões em Cannes. E assim, quem sabe, voltemos a ver em 2018 aquelas grandes e memoráveis campanhas da Nike, da Volkswagen e da Levis a brilhar nos palcos do festival.

 

Judite Mota, CCO da Y&R Lisbon

 Cannes será sempre Cannes? Cinco criativos dizem o que pensam

“As mudanças anunciadas pela organização do Festival de Cannes são o resultado da pressão da indústria. Quando a Publicis anunciou ainda durante o festival deste ano que vai retirar-se por um ano e o Presidente da WPP refere em entrevistas que o Festival está a ficar demasiado caro para as agências nos moldes em que está organizado atualmente, era fácil perceber que alguma coisa iria mudar.
O foco na criatividade vinha a perder-se há alguns anos, mas este ano foi realmente notório. A multiplicação das categorias, das cerimónias, dos eventos paralelos não relacionados com criatividade, a presença de cada vez mais delegados (não criativos) inflacionando os preços, estavam a mudar a face do festival. Considero as alterações positivas sobretudo na eliminação de categorias e na limitação no número de inscrições da mesma peça, bem como nas novas iniciativas para jovens criativos. Também acho positivo que o nível de exigência aumente, tornando ainda mais difícil ganhar um prémio. O Festival de Cannes ainda é a referência. Vamos ver o que acontece no próximo ano”.

 

Paulo Pinto, diretor criativo da Havas WW

 Cannes será sempre Cannes? Cinco criativos dizem o que pensam

“As mudanças anunciadas para a edição de 2018 são boas notícias.
Em primeiro lugar é bom que a organização do festival não tenha enterrado a cabeça na areia e fingido que estava tudo bem.
No momento em que a nossa indústria se depara com tantos desafios e tantas incertezas é bom ver que o festival que nos representa soube fazer aquilo que todos nesta indústria temos que fazer: avaliar, ouvir e mudar.
Quanto às mudanças em si há vários pontos que me parecem muito positivos: menos categorias e um limite no número de leões que um trabalho pode receber (6 leões no máximo). Isto quer dizer que vai ser mais difícil ganhar leões e isso é bom, só mesmo os melhores conseguirão lá chegar: os leões vão valer mais.
A redução de 8 dias de festival para apenas 5 obrigará a organização a uma escolha mais criteriosa dos convidados para fazer apresentações elevando certamente a qualidade dos seminários e dos workshops.
A promessa de que haverá um aumento substancial de conteúdos disponibilizados em streaming é também uma ótima notícia: o festival vai chegar a mais pessoas, mesmo aquelas que não têm a sorte de poder deslocar-se para Cannes.
Por último a disponibilização de um elevado número de free passes para jovens criativos é um sinal importante de que a indústria tem que apostar na renovação e investir no futuro: ir a Cannes não deve ser um prémio de final de carreira, mas sim um momento de formação e injeção de entusiasmo naqueles que terão por missão continuar a levar esta indústria para a frente.
Estas mudanças vêm confirmar que as notícias que em 2017 anunciavam a morte do festival de Cannes se tratavam, afinal, de um exagero publicitário”.

 


Edson Athayde, CEO e CCO da FCB Lisboa

 

 Cannes será sempre Cannes? Cinco criativos dizem o que pensam

“Como dizia o poeta, o mundo é composto de mudança. No caso, Cannes precisava levar um abanão. O modelo que existia refletia a verdade de uma indústria que não parou de se transformar na última década. Sou um eterno otimista, creio que o que vem será melhor do que o que foi. Nem tudo será perfeito. Mas nada na vida é, certo?"

 

João Gomes de Almeida, diretor criativo da 004

 Cannes será sempre Cannes? Cinco criativos dizem o que pensam

“Cannes é o espelho das agências, logo, os problemas do festival são em grande medida os mesmos problemas das agências. Por outras palavras, a crise que Cannes enfrenta não é uma crise que diga respeito exclusivamente ao festival, é acima de tudo uma crise de uma indústria que se depara dia após dia com fortes dificuldades em se reinventar perante um mundo em acelerada transformação digital.
Se virmos as coisas com atenção, percebemos que o cenário é mais ou menos este: pela primeira vez em muitos anos a maioria das agências estão mais atrasadas e obsoletas do que as próprias empresas donas das marcas para as quais publicitam os produtos ou serviços. Hoje, em grande medida, o cliente é mais tech e evoluído do que o publicitário. Obviamente que isto retira um valor imenso ao nosso mercado. Lá fora, como cá dentro, urge uma renovação geracional na liderança criativa das grandes agências.
Cannes não evoluiu positivamente porque as agências também não o fizeram. O festival foi crescendo em delegados, patrocinadores e categorias, mas na sua base manteve-se exatamente igual. O mundo mudou muito lá fora, mas na Riviera Francesa parece que tudo está mais ou menos igual. Este é o lado alarmante.
No entanto, estas transformações agora operadas pela organização de Cannes são muito positivas. O festival colocou novamente o foco na criatividade, o que é positivo. Limitou as inscrições do mesmo trabalho em várias categorias, o que vai democratizar o festival. Diminui o custo para os delegados, o que poderá atrair uma nova geração de talentos ao festival. Diminuiu o número de dias, o que também me parece positivo. Certamente que estas medidas irão relançar Cannes.
Cannes é Cannes e, mesmo com todos os defeitos que tem, continua a ser o maior e melhor festival de publicidade do mundo. Obviamente que continuarão a existir outros festivais de elite que lhe irão fazer frente, como o One Show, o Clio, o D&AD e o próprio Lisbon International Advertising Festival. Mas essa concorrência é boa, no sentido em que obriga a organização de Cannes a evoluir.
O que deveria preocupar verdadeiramente Cannes não são os outros festivais de publicidade, mas antes os grandes eventos de tecnologia. Este ano, o Web Summit trouxe a Lisboa a Susan Credle (FCB) e o Sir John Hegarthy (BBH), entre outros. Umas semanas antes o DMEXCO, em Colónia, tinha leva ao palco o Bob Greenberg (R/GA) e o Eco Moliterno (Accenture Interactive). O SXSW, que em março decorrerá novamente em Austin, já está a preparar grandes conferências na área do marketing e também prémios de "Interactive" – aliás, há muitos que publicitários que já começam a preterir Cannes em função deste evento. Em suma, as coisas estão a mudar e num mundo em que a comunicação é cada vez mais inovação, Cannes terá que fazer um grande esforço para não perder o comboio da inovação. A publicidade é cada vez mais Data e AI e cada vez menos imprensas de página dupla com boas ilustrações. Temos todos que aprender a viver com isso”. 

 

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terça, 21 novembro 2017 12:45

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