Criatividade

#ALENTEDE… Mário Patrocínio ou a paixão pela arte de contar histórias

Mário Patrocínio, realizador e fundador da Bro, com o irmão Pedro, partilha os passos que deu até chegar à realização. O que o inspira e o motiva. Diz que podia ter sido tudo, mas que é na arte de contar histórias que se sente todos os dias apaixonado.

sexta, 01 junho 2018 12:53
#ALENTEDE… Mário Patrocínio ou a paixão pela arte de contar histórias

 

Em miúdo, Mário sonhava fazer filmes. Ou melhor, sonhava viver aventuras que só se viviam nos filmes. Até que aos oito anos foi morar para o Japão, com os pais. E, de facto, “foi como entrar num filme,” pois deparou-se com “um mundo que nunca tinha imaginado existir”. Mas os passos que foi dando encaminharam-no para a Economia e só no fim da faculdade voltaria a despertar de novo para as artes. Fez então o curso de ator e de coach de atores. E foi ficando cada vez mais claro o que queria fazer: que tinha que realizar, que tinha que contar histórias, que tinha uma visão própria e que queria liderar projetos e fazer os seus próprios projetos.
Mas a imersão no mundo da realização propriamente dita começou através da fotografia e das viagens: “Tive a sorte de ter um pai apaixonado pela fotografia que desde cedo me levou a acompanhá-lo nessas andanças, de câmara na mão”.

“Caracterizar um lugar, a vida de algum personagem é construir uma sequência de frames que revelam um olhar, uma visão sobre um ‘objeto’ de estudo. Um conjunto de fotografias ordenados numa determinada maneira contam uma história, se mudarmos a ordem tudo pode mudar”, conta. Talvez por isso – diz – tenha começado pela realidade, pelo documentário: “Acho que sempre existiu dentro de mim uma grande vontade de tentar entender os outros, as suas histórias, os seus porquês. Outra coisa que acredito estar na origem do meu processo de contar histórias tem a ver com a experiência que tive no Japão. A realidade era tão distante da dos meus colegas de escola que, quando lhes contava as aventuras do Japão, sentia que estava, a cada história contada, a escrever uma aventura ou um episódio num país que, na época, era verdadeiramente do futuro, quando comparado com Portugal”.

Os passos neste caminho consolidaram-se. Mário Patrocínio e o irmão Pedro fundaram uma produtora em nome próprio – a Bro. Filmam para cinema e filmam para publicidade, com a principal diferença a residir no tempo, sobretudo no tempo, e em tudo o que ter tempo permite. De uma disciplina para a outra, porém, tudo se pode transportar: “Tudo o que vivemos fica dentro de nós e independentemente das áreas em que trabalhamos transportamos esse conhecimento e adaptamo-lo, criando novas possibilidades. Viver é a melhor disciplina de aprendizagem para qualquer realidade e os meios – a publicidade, o cinema e o documentário – cruzam-se para mim sem preconceito. Tudo me permite aprender e crescer. Do documentário consegui trazer a capacidade de contar histórias de seres humanos inspiradores, daí os branded contents serem uma área de que gosto muito e com a qual me identifico bastante. Neste tipo de conteúdo a marca não está tão presente enquanto objeto de desejo ou de venda, mas está a dar-nos a conhecer algo que pode ser transformador, o que nos leva a gostar mais da marca e a querer saber mais sobre o que esta fará no futuro”. E trabalhar na publicidade mais clássica?  Ensina a relativizar tudo, a desapegar; “o produto final não é nosso e existe uma última palavra sobre cada projeto que está nas mãos do cliente e nós temos de a aceitar. Ser profissional desta área é também isso. Do ponto de vista técnico, a publicidade permite-me trabalhar com ‘brinquedos’ caros e ter um ritmo de treino de técnicas muito grande. Esta área dá-me a oportunidade também de testar formas de contar histórias e conseguir conhecer gente criativa com a qual acabo também por aprender”.

Mas, se na publicidade o produto final não é de quem o cria, isso não significa que a realização não faça a diferença: “O realizador define um caminho possível, uma visão de como contar uma determinada história, mas para que isso aconteça é essencial trabalhar em estreita parceria com os criativos e com o cliente. Idealmente esse processo vira uma parceria para todos, uma parceria em que nos alimentamos criativamente em prol de um sonho que queremos construir naquele momento específico. Das experiências que tenho tido, quando essa sintonia acontece, o resultado final chega mais longe do que o que o próprio cliente havia imaginado. Isto não significa que estamos sempre de acordo, muitas vezes debatemo-nos com dúvidas e estamos em lados opostos, mas, através do processo de comunicação aberto e sincero, colocando sempre o produto final como o mais importante, conseguimo-nos superar”.

“Complexo – Universo Paralelo” foi o primeiro documentário que fez. Em plena crise, numa altura onde para qualquer lado que se virava ouvia sempre “isso é impossível”, “não há dinheiro”, “não vai dar”. Continuou assim quando começou a trabalhar com marcas. E, diz, “ainda bem que assim foi”, pois deu-lhe a oportunidade de criar novas soluções, novas formas de encarar um desafio. “E a verdade é que o caminho me tem mostrado que com um bom plano, muita persistência, trabalho árduo, equipa altamente motivada e um cronograma minucioso, de missão em missão um projeto impossível vira realidade”. A Bro é a prova disso: “Sonhamos construir algo diferente e único, em que exista uma forma de estar mais descontraída, jovem, sincera, apaixonada, que crie laços humanos reais de mútuo respeito pelos valores humanos, onde o brio é fundamental e o profissionalismo essencial. Queremos conectar com o mundo e criar relações sustentáveis, em que todos os intervenientes no processo de um trabalho saiam a ganhar”.

Um realizador é…

Um líder, deve inspirar quem o rodeia e pensar sempre pela sua própria cabeça. Deve saber estar e respeitar os processos, saber escolher bem quem o rodeia, pois, os filmes não se fazem sozinhos, são parcerias entre muitos profissionais. Por vezes, mais do que falar, um realizador deve saber escutar, deve saber fazer as perguntas certas nos momentos certos e ter uma grande capacidade de adaptação, adaptar-se rapidamente a qualquer situação retirando dela o melhor que for possível. Gosto de trabalhar com pessoas que gostam de trabalhar, que têm brio no que fazem, que sorriem perante os desafios, que estão comigo para somar e acrescentar valor a tudo o que estivermos a fazer em conjunto. Pessoas que entendem que somos uma equipa e todos somos importantes para concretizar um objetivo final.

Se não fosse realizador seria…

O bom de se ser realizador é que podemos ser tudo. Cada filme faz-me estudar mais de alguma profissão concreta…construímos personagens, as suas vidas, construímos lugares, criamos uma visão. Podia ter sido tudo. Mas é na arte de contar histórias que me sinto todos os dias apaixonado.

Antes de começar um filme…

Antes de começar um filme estou tranquilo, focado no objetivo, com um plano bem traçado, mas deixando margem para os momentos mágicos que parecem inesperados, mas que, na verdade, são esperados. 

O local favorito para filmar

A Natureza na sua pureza, seja mar, montanha, lagos e rios, seja em qualquer estação é o lugar mais belo e inspirador para se filmar.

A hora favorita para filmar

O nascer do dia… Mas também no pôr do sol.

Um filme é eficaz quando…

Depende da perspetiva. Em publicidade um filme ser eficaz reflete-se num fortalecimento da marca e do produto, que no final leve a melhores resultados em termos de valor real para o cliente. Mas, falando num sentido mais abrangente, para mim um filme ser realmente eficaz significa chegar ao coração do espectador. Um filme que permite uma reflexão, que nos deixa margem para encaixarmos nele um pouco de nós. Um filme que inspira e nos faz querermos ser melhores.

Primeiro filme publicitário que lhe ficou na memória

 Acho que é aquele do chocolate de natal com um avô e uma menina.

Campanha internacional que gostava de ter realizado

 “Nature is speaking”, “The game before the game: beats by Dre”, “A-Z Inner voice”.

De onde vem a inspiração

Da gratidão profunda por estar aqui. Por ter vivido tudo o que já vivi. Por hoje entender que o mais importante é sempre o presente e é a cada dia que posso fazer a diferença. Olho para trás e parece um filme já com muitas vidas. A vida, com tudo o que tem, inspira-me. O silêncio e a natureza do silêncio transportam-me para uma paz que me inspiram e me motivam a querer continuar a aprender com todas as experiências que vou tendo no dia a dia. Viver consciente no presente é o que mais me inspira.

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