Criatividade

A Mensagem do Futuro da Cláudia vem do “Planeta Tóquio”

Cláudia Cristóvão é head of Google Brand Studio para a Ásia-Pacífico e é do que chama “Planeta Tóquio” que envia a sua Mensagem do Futuro. Escreve sobre um futuro imperfeito, nesta iniciativa do Clube Criativos Portugal a que a Briefing se associa.

quarta-feira, 29 abril 2020 11:08
A Mensagem do Futuro da Cláudia vem do “Planeta Tóquio”

 

Começa com uma citação de “The Bells of Tokyo”, de Anna Sherman: “It’s because we last only for a blink that our lives matter so much.”

E continua:

“O Japão, estando no futuro em relação a quase todo o mundo, começou cedo: o primeiro caso de COVID-19 foi registado a 16 de Janeiro. Seguiu-se um surto relacionado com o fatídico navio de cruzeiro, o Diamond Princess. Algumas confusões e tragédias depois, passageiros e tripulação japoneses reentraram no país, alguns deles sem sequer serem testados. E a partir daí, muito pouco aconteceu: o mundo congelou, as economias começaram a cair como dominós, os números de contaminação e morte tornaram-se alarmantes a toda a volta – primeiro na direcção do Ocidente, depois na Austrália. E, no entanto, rodeados de vírus por todos os lados, como estamos de água, quase nada se passou.

Como em vários outros países, foram indivíduos e empresas que deram o mote de acção. Na Google, já habituados a trabalhar não só de casa, mas de qualquer lado e de qualquer fuso horário, transitámos para isso ser a regra e não a excepção já há um mês.

Trabalhar na companhia que possibilita este tipo de trabalho a grande parte do mundo é uma posição de privilégio – já tínhamos os sistemas, os procedimentos e sobretudo, caso raro no Japão, já havia uma cultura de output (trabalho feito) em vez de input (horas passadas no escritório). O que nunca tinha acontecido era trabalharmos assim, mais ou menos em todo o mundo, todos ao mesmo tempo.

Por outro lado, liderar uma equipa criativa é também um privilégio – nunca como agora foi necessário o nosso trabalho e a nossa colaboração para ajudar a socializar e compreender todas as maneiras como este momento – para muitos existencialmente e financeiramente terrível – pode ser feito menos difícil, ou até um ponto de viragem para algo melhor. O que está a acontecer, e o que se segue, vai ter de ser resolvido por pessoas muito diversas, com pontos de vista novos, e com ferramentas que nunca pensámos ter de usar.

Desta posição extremamente privilegiada, estamos a aprender o bom e o complicado desta viragem súbita. Quando a casa é o escritório, por vezes não de um mas de dois adultos (e para muitos também com crianças que aprendem online), torna-se de repente um outpost de várias microempresas em que alguém tem ao mesmo tempo de comprar legumes, passear o cão, fazer jantar e acordar às 4 da manhã para outra reunião. Ou pode ser uma prisão de solidão imensa, sobretudo numa cidade de apartamentos minúsculos que sempre contou com uma imparável vida pública.

Mas, felizmente, para muitos de nós, este é também um tempo de redescoberta de pequenos prazeres, de atenção à natureza, e de laços mais fortes com amigos e família.

A minha equipa é particularmente próxima e expansiva: todos os dias começamos com 15 minutos todos juntos e temos ajustado algumas regras de modo a resolver o que pode não ter funcionado bem na semana anterior. Temos uma Happy Hour todas as sextas, em que nos encontramos virtualmente ao fim do dia especificamente para não falar de trabalho ou de vírus. Um dos designers tem uma bebé recém-nascida, plácida e reconfortante. Outra criativa vai casar-se em breve – uma apreciação colectiva de alianças levou a um redesign completo. Sabemos quem tem cães e quem prefere gatos, quem tem filhos e quem se sente sozinho, quem está (ainda) noutros países e quem está (esperamos) só com uma constipação. Sabemos que embaixadas têm informação e que consulados já nem abrem. Sabemos que estamos todos, se não no mesmo barco, na mesma ilha, e que na cidade catastrófica isto não é, por incrível que pareça, o pior que já se viveu. E que Tóquio, confiante na sua cronologia única, relativa ao mundo, mas dissociada dele, vai ter a sua própria história deste momento. Para o bom e para o mau.

Com as escolas fechadas, a Primavera soalheira típica de flores de cerejeira, e muita gente a trabalhar de casa, a nossa trajectória como cidade sofreu uma pausa: números baixos, poucos testes e zero alarme. Durante todas estas semanas sentimos o fumo e o calor das chamas, mas duvidámos que queimassem mesmo – enquanto olhávamos a beleza efémera das sakura.

E quando já parecia que o tempo ia simplesmente continuar assim, numa linha paralela ao resto do mundo, foi subitamente anunciado o adiamento de Tóquio 2020 para Tóquio 2021 (mas com a confirmação que os jogos vão manter o branding de 2020, como se nada se tivesse passado). Passadas 24 horas, os números de contaminação, de mortes e de risco dispararam.

Na noite de 25 de Março, no futuro do resto do mundo, a governadora de Tóquio urgiu cautela, trabalho remoto e um fim-de-semana de lockdown. Um nevão inesperado invadiu os postais de sakura e cobriu a cidade num manto branco de quietude, expectante e silencioso. Finalmente entrámos no passado que tínhamos fintado. “

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