Criatividade

A Ana envia uma Mensagem do Futuro a partir Nova Iorque

Ana Magalhães é diretora criativa na VMLY&R Nova Iorque e é a partir de lá que envia uma Mensagem do Futuro sobre um presente onde há lugar para séries e videojogos, mas também para uma reflexão sobre a criatividade no terreno. Responde assim a uma iniciativa do Clube Criativos Portugal, a que a Briefing se associa.

segunda-feira, 04 maio 2020 12:21
A Ana envia uma Mensagem do Futuro a partir Nova Iorque

 

“Desde que a pandemia começou, há uma série de televisão e um filme que não me saem da cabeça. E não, o filme não é o Contágio, que tive a terrível ideia de ver há duas semanas, na altura ainda no 12º dia de quarentena. O filme é perturbador, em particular quando se vive nos Estados Unidos e é mesmo tudo igual. Nos comunicados à população e nos hospitais ​pop-up​, tudo se repete: as siglas das organizações envolvidas, os uniformes dos que trabalham para combater o vírus, os logos em fundo. De repente, já não sei se estou no Amazon Prime ou a ver a CNN.

Mas voltando à tal série e ao filme.

Lembro-me de, ​num artigo​ de um amigo que vive na China, ler que uma das coisas que mais iríamos fazer durante estes dias de clausura seria olhar pela janela. Da nossa janela não há muito para ver. Vivemos no quarto andar de uma rua pacata de Williamsburg e o único ​perk​ da nossa vista é o topo do Empire State Building lá ao fundo.

Quem visitou Nova Iorque sabe que volta e meia mudam a cores das luzes do Empire e vai piscando consoante a efeméride. Verde e vermelho para o Natal, verde para assinalar o St. Patrick’s Day, azul e laranja no início da época dos Knicks ou as cores da bandeira no Dia dos Veteranos de Guerra.

No domingo passado, o Empire estava piscar como uma sirene de ambulância. Uma luz vermelha e branca ia rodando e atravessando o céu noturno da cidade, visível a quilómetros de distância, qual canhão de luz do Batman. Tinham decidido assim homenagear os profissionais de saúde, que arduamente trabalhavam nas últimas semanas, e a intenção era boa, mas a visão era desconcertante. No Twitter começaram a chover reações e num par de dias foi encontrada alternativa, o que não impediu que nessa primeira noite adormecesse com a angústia daquela imagem que tão bem assinalava o estado de emergência em que nos encontramos.

A sirene sobre os céus de Nova Iorque fez-me ansiar que o mundo voltasse a ser como antes. E fez-me recordar a adaptação para televisão do romance Handmaid’s Tale, da Margaret Atwood. A juntar ao encerramento das fronteiras e às imagens do cordão militar em torno de New Rochelle, uma das primeiras zonas do Estado de Nova Iorque a ser fortemente afetada pelo vírus, fez-me pensar em como, à semelhança da série, o mundo é frágil e pode mudar muito rapidamente. Antes de Gilead, a June ia todos os dias ao escritório onde trabalhava como editora, tinha uma conta no banco, ia almoçar ou jantar fora, circulava livremente, dentro e fora do seu país. E, de um dia para o outro, tudo mudou e tardava a ser como era. Não sugiro de modo algum que, como a Offred, nos revoltemos e creio que obedecer às regras nos vai ajudar a sair mais rapidamente desta, receando, no entanto, que a nossa liberdade possa não vir a ser a mesma. Mas como ela, com frequência tenho ​flashbacks​, e saudades do mundo de há três ou quatro semanas.

Para ter menos saudades de tudo o que fazia antes, vou tentando encontrar novas ocupações. Aprendi a fazer pão (a grande ​trend​ da quarentena), fiz ​lives​ no Instagram a fazer pi​ñ​atas, assisti a aulas de pilates ​online​, aprendi a mexer no Adobe Dimension e, quando mais nenhuma atividade me ocorria, liguei a Playstation do Samuel. Passei uma tarde de domingo a jogar um jogo e ao fim de três dias já o tinha terminado. Quem me conhece sabe que não sou nada de jogos, exceto se forem de tabuleiro ou de papel e caneta tipo nomes-países-cidades.

O Inside (a ironia do nome!) é um jogo de puzzles e plataformas, muito bem desenhado e que recomendo, sobre um miúdo que tenta navegar um mundo surreal onde são feitas experiências científicas com humanos. Com apenas 2.5D, e longe da interação social e das possibilidades ilimitadas dos mais famosos jogos de ​role-playing​ como o World of Warcraft RPG ou Grand Theft Auto RPG, o Inside foi o suficiente para me sentir imersa noutro mundo por umas horas.

Há um par de anos li ​um artigo​ no The Guardian sobre o papel que o gaming poderia ocupar num mundo pós-trabalho, em que um número crescente de pessoas verão os seus empregos tomados por máquinas e terão dificuldade em manter-se ocupadas. No final dessa tarde, de comando na mão, voltou-me à memória esse artigo e também o Ready Player One. Para quem não viu este filme do Steven Spielberg de 2018, o enredo passa-se em 2044 e os protagonistas fogem à sua realidade através do OASIS, um jogo de realidade virtual. Não sendo um filme genial, dá uma boa tarde de entretenimento e, anos depois de o ver, deu-me que pensar. Num mundo em quarentena, acelerámos para 2044 e provavelmente vamos passar cada vez mais tempo nos OASIS, onde podemos continuar a sair à rua, ver os nossos amigos e até assaltar bancos em Los Angeles, perdão, Los Santos.

P.S.: Se calhar era para ter falado de criatividade, mas acho que hoje a criatividade não está nos escritórios (até porque eles estão vazios), mas no terreno. Não está nos que redesenharam e separaram os arcos do logo do McDonald’s para “gerar awareness” para o distanciamento social, mas nos que arranjam maneira de um ventilador dar para quatro pessoas, nos que transformaram as suas destilarias para produzir gel desinfetante e nos que imprimem máscaras 3D em casa. Importa pouco dizer, importa muito fazer. E a única coisa que posso fazer é ficar em casa.”

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