Criatividade

Samba-se na Mensagem do Futuro da Carolina

O que será do samba depois da Covid-19? É esta a pergunta que norteia a Mensagem do Futuro que Carolina Valentim partilha com o Clube Criativos Portugal e a Briefing a partir de São Paulo. Coordenadora de Comunicação do Grupo Raízes, dedica-se a trabalhos de pesquisa e insights culturais utilizando a fotografia como ferramenta.

quinta-feira, 21 maio 2020 10:05
Samba-se na Mensagem do Futuro da Carolina

 

“O que será do samba depois da Covid-19?

Desde que começou a pandemia vi muitas mudanças acontecerem em São Paulo, cidade para a qual vim morar há cinco anos. Mas há duas mudanças que me têm atormentado particularmente e elas não estão a acontecer apenas no Brasil, vemo-las em todos os países. No entanto, sendo esta a minha casa, são mudanças que me levam para a pergunta que mais apreensão sobre o futuro me tem causado: o que será do samba depois da Covid-19?

Pode parecer uma pergunta irrelevante tendo em conta a tragédia que estamos a viver, mas na verdade sinto que o samba tem o poder extraordinário de ser um símbolo brasileiro de algo muito maior, algo que eu temo que a humanidade perca depois do novo coronavírus, que é “a arte do encontro”, como diria Vinicius de Moraes.

 Uma cidade sem vida

A primeira mudança que me tem atormentado é visível aos olhos: as cidades e as ruas vazias.

Quando começou o isolamento social em São Paulo eu estava em Cuba, a passar uns dias de férias. Para alguém que esteve 15 dias a viajar num país com pessoas naturalmente calorosas, chegar a uma cidade em isolamento social é especialmente perturbador, até porque eu moro num dos poucos bairros do centro de São Paulo que tem uma vida de rua muito agitada. O Largo da Igreja, onde antes os idosos se juntavam para jogarem às damas, está agora vazio. A feira de rua onde comprava fruta e legumes ao domingo já não ocupa as ruas. A roda de samba do largo já não alegra as minhas noites de sexta-feira. Já não ouço as gargalhadas e os brindes dos copos de cerveja que vinham do boteco (palavra brasileira para bar-restaurante) da esquina.

O curioso é recordar-me dos motivos que me fizeram mudar para este bairro: como lisboeta que sou, queria um bairro que fosse cheio de pequeno comércio e vida na rua. Um bairro que fosse o inverso daquilo que muitos dos bairros em São Paulo se estão a tornar: muito antes da Covid-19, alguns bairros da cidade já pareciam estar em isolamento social, tal é a falta de pequeno comércio e de pontos de encontro que existem para as pessoas na rua. Como no Brasil existe o problema da violência, a resposta das construtoras foi criar pequenas cidades dentro de condomínios. A proposta é que a pessoa consiga fazer tudo dentro do seu bunker – ginásio, manicure, churrasco, às vezes até tomar um café e comprar pão. Qual a consequência disto? Uma rua ainda mais perigosa, como é óbvio, pois não existe trânsito de pessoas, mas também algo que considero ser pior: uma cidade cheia de “não-lugares”, expressão criada pelo antropólogo francês Marc Augé para descrever lugares transitórios nos quais não se criam laços de afeto, algo tão importante para a nossa individualidade e para o colectivo. Uma rua de um bairro cheio de condomínios-bunker é um não-lugar, assim como um grande hipermercado, no qual as relações interpessoais são distantes.

De repente, a razão pela qual tinha mudado de bairro estava ali, e com isso a lembrança assustadora de que não é preciso Covid-19 para as cidades e o mundo caminharem naturalmente para uma dinâmica de isolamento. Isso já estava a acontecer em muitos dos bairros de São Paulo, mas de uma forma menos rígida.

Neste contexto, é preciso lembrarmo-nos de como o boteco da esquina, o largo da igreja, a feira de rua e o samba são importantes para as cidades e para as pessoas – eles mantêm vivos os encontros físicos num mundo que nos atira cada vez mais para os encontros virtuais. É fácil sucumbirmos à comodidade do online – poupa tempo e dinheiro – mas ele tira-nos a experiência física do encontro que é arrebatadora e acontece num plano sensível essencial para nos sentirmos vivos e mantermos a nossa humanidade. Ainda bem que existe tecnologia, pois neste momento só ela nos resta para mantermos os nossos laços afetivos, mas só o encontro físico e a proximidade são capazes de nos fazerem sentir com os cinco sentidos e trazer com isso a empatia. É fácil fecharmos os olhos ao que está distante, mas o que está próximo é incontornável.

A desconfiança do outro

A segunda mudança que me tem atormentado não é visível aos olhos, e talvez por isso ela seja ainda mais perigosa do que a primeira: a desconfiança que sentimos de todos os que estão à nossa volta, provocada pelo medo de sermos ‘infetados’, expressão que inclusive contribui para a construção desta desconfiança colectiva.

Li no Facebook de uma amiga de quem gosto muito um relato de uma situação que ela passou com um carteiro que tinha ido à casa dela para entregar uma encomenda. Quando o carteiro lhe emprestou a caneta para assinar a entrega, ela ficou absorvida pelo medo e hesitante entre aceitar ou ir buscar a própria caneta, e, nesse momento de hesitação, o carteiro disse-lhe “Pode ir buscar a sua, dona.”. Ela imediatamente saiu do “transe” de hesitação e olhou para cima, para o carteiro, e pela primeira vez olhou com atenção para a pessoa que tinha à sua frente e reparou que ela não tinha nem máscara nem álcool gel. Rapidamente se sentiu culpada, aceitou a caneta, e perguntou se não lhe tinham dado máscaras no trabalho nem álcool gel, para ver se o poderia ajudar.

Eu acho o relato desta minha amiga, além de corajoso, pois decidiu abrir-se e falar sobre uma fragilidade e um sentimento de culpa, muito interessante como metáfora do que estamos a viver. O medo apoderou-se de nós de tal forma que muitas vezes não conseguimos olhar para quem está à nossa volta como um ser humano, mas sim como um potencial inimigo no sentido que qualquer um nos pode transmitir o vírus e ‘infetar-nos’. Eu mesma no sábado fui ao supermercado e, ao ver uma mulher desgovernada sem máscara vir rapidamente na minha direção, levantei o pacote de cogumelos e pu-lo em frente à cara como uma trincheira de guerra, com medo que ela tossisse para cima de mim. Depois desta situação tragi-cómica lembrei-me que cogumelos não são trincheira nem eu preciso de uma, pois não estamos em guerra, ainda que o clima mundial facilmente nos ponha com esse sentimento de desconfiança de tudo e todos. O inimigo é invisível e por isso pode estar em qualquer um e em qualquer lugar.

O problema dos inimigos invisíveis é que eles facilmente abrem alas para se instalarem sistemas autoritários. Lembremo-nos por exemplo do livro “1984”, de George Orwell. Um sistema autoritário é mantido pelo “Grande Irmão”, que supervisiona todos os cidadãos e instala o medo contra o inimigo Emmanuel Goldstein, que ninguém sabe se é real pois só o vêm em imagens mostradas pelo partido do poder.

Não estou com isto a dizer que não existe inimigo – a Covid-19 existe e medidas precisam ser tomadas para se salvaguardar a vida, como por exemplo ficar em casa – mas o que não podemos permitir é que se instalem medidas autoritárias como a vigilância da população através da localização dos nossos telemóveis, que já está a acontecer em muitos países, inclusive no Brasil.

Contra inimigos invisíveis a resposta não deve ser o autoritarismo, que apenas reconhece algumas formas de vida como legítimas, mas sim a tomada de consciência e a empatia. Essas não se alcançam com a desconfiança do outro, mas sim com a confiança e o amor por todas as formas de vida.

 Não deixemos o samba morrer!

As rodas de samba no Brasil acontecem muitas vezes em largos e juntam não só os moradores daquele bairro, que muitas vezes se conhecem, como também pessoas de outros bairros, que são desconhecidas. Por ter sido criado no morro por ex-escravos que foram trazidos de África para o Brasil pelos portugueses, o samba é também, desde sempre, uma manifestação de resistência contra regimes opressores e autoritários que não respeitam o diferente.

Porque o samba sempre proporcionou o encontro físico entre todas as formas de vida e sempre fez poesia contra regimes autoritários, eu digo: não deixemos o samba morrer! Não só o samba como género musical, que esse espero que tenha vida longa nas minhas noites de sexta-feira, mas o samba dentro de cada um de nós. O nosso lado que valoriza os encontros humanos no seu plano físico e também valoriza a liberdade e a confiança no outro.

Eu lembro-me até hoje da minha primeira roda de samba. Foi na Praça São Salvador no Rio de Janeiro, em 2013. Marcou-me não só pela música, que tem o poder trascendental de nos deixar leves e felizes mesmo no nosso pior dia, mas também por me ter juntado a pessoas tão diferentes num momento de troca íntimo apesar de acontecer num espaço público e entre desconhecidos.

Por isso eu pergunto-me: o que será do samba depois da Covid-19? Só ele nos deixa espaço para reparar em quem está à nossa frente e para amar a vida, amar os encontros. Amar até mesmo o desconhecido.”

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

bt nl

À Escolha do Consumidor

Assinatura Mensal
Edição MensalE-paper

Facebriefing

Melhores Briefing