Entrevistas

Judite de Sousa na 1ª pessoa

Judite de Sousa na 1ª pessoaAs redes sociais são fontes de informação para o jornalismo mas também "contaminaram a informação, do meu ponto de vista" e hoje "há mais comunicação mas menos proximidade em termos de relações humanas e de relações sociais", afirma Judite de Sousa, subdiretora de informação da TVI. Em entrevista ao Briefing, diz que gostaria de ver José Sócrates na TVI "porque teria possibilidades de ter melhores audiências". Sobre a RTP afirma que a manteria "tal como está".

segunda-feira, 14 outubro 2013 11:53
Judite de Sousa na 1ª pessoa

Briefing | O que é que a levou a escrever o livro "Álvaro, Eugénio e Ana", uma investigação à vida privada do Álvaro Cunhal?

Judite de Sousa | A circunstância de ter sido convidada para fazer uma palestra na minha condição de antiga entrevistadora de Álvaro Cunhal, no Pátio da Galé, no âmbito da exposição comemorativa do centenário do seu nascimento. Visitei a exposição, que tinha centenas de fotografias e retratos e os desenhos da prisão, e eu retive fixei a minha atenção nas quatro ou cinco fotografias que havia de Álvaro Cunhal com a filha e achei que essa história dele com a filha, com a mãe da filha, ou seja, o outro lado do político – o pai, o irmão, o homem de paixões, que gostava de mulheres – valia a pena ser contada em televisão. Assim nasceu a reportagem televisiva e depois a editora Objectiva entendeu que a história era interessante para ser contada em livro.

Briefing | Teve dificuldades em arranjar fontes? Normalmente o mundo o ligado ao PCP é sempre de difícil acesso...

JS | Tive a colaboração do Partido Comunista Português, dentro dos condicionalismos que eles próprios impõem a eles próprios, considerando que a reserva da intimidade é um valor muito importante que eles preservam. Não são pessoas que exponham a sua vida privada, íntima, mas, apesar de tudo, contei com a colaboração da parte deles e contei muito com a colaboração da família Meneses de Vasconcelos, do Estoril, com a avó dos dois primeiros filhos da Ana Cunhal, que nasceram da relação dela com o Rodrigo Meneses de Vasconcelos. Portanto, a avó paterna colaborou muito comigo.

Briefing | O que é que recorda das entrevistas com o Álvaro Cunhal?

JS | Entrevistei-o cerca de 10 vezes – ele dava normalmente uma a duas entrevistas por ano, à semelhança dos outros líderes partidários – mas eram entrevistas muito políticas, partidárias, muito marcadas pela conjuntura que se vivia em Portugal e na Europa. Ele foi líder do PCP no período do fim da Guerra Fria, da queda do Muro de Berlim, da implosão da União Soviética. É um período muito rico em termos históricos e portanto as entrevistas com o Álvaro Cunhal de certa forma refletiam, em termos de questionário, o que estava a acontecer na Europa de Leste, na antiga União Soviética e, internamente, o que estava a acontecer em resultado das lutas ferozes que existiam entre o PCP, o PS e o PSD. Eram entrevistas muito marcadamente políticas.

Briefing | Nesse aspeto terá melhores recordações de Mário Soares, por exemplo, ou outro líder partidário?

JS | Não. Ao nível da entrevista política as que foram com os diferente líderes partidários nos últimos 20/30 anos foram quase todas marcadamente políticas.

Briefing | E esse registo mantém-se hoje?

JS | Mantém-se esse registo. Se eu entrevistar o Pedro Passos Coelho será uma entrevista marcada pela troika, pelos impostos, pelos salários, pelos cortes e não se vai falar da mulher, nem da filha, nem de Massamá, nem do pai que é pneumologista.

Briefing | Descobrir o outro lado dos políticos é um tipo de entrevistas que teria interesse para si?

JS | Sim seria interessante.

Briefing | Nunca pensou ter um programa desses? Ou não há políticos disponíveis para esse tipo de programas?

JS | Não tenho a certeza que os nossos políticos tenham uma abertura suficiente para falarem da sua vida pessoal, mais íntima. Não tenho a certeza que elas tenham essa superioridade intelectual que encontramos noutros políticos, nomeadamente americanos. Recordo que foi numa entrevista televisiva que o George W. Bush assumiu que tinha sido alcoólico. Não creio que na Europa exista alguém com este tipo de perfil. Tenho a ideia que o Sarkozy, sempre que foi interrogado sobre a sua relação com Carla Bruni, reagiu muito mal, até deixou a entrevista a meio. Há uma grande diferença entre os políticos europeus e norte-americanos a esse nível.

Briefing | Como é que avalia o estado do jornalismo em Portugal?

JS | Acho que é um jornalismo que oscila o sério e o comercial. Temos informação séria, sobretudo no que diz respeito às questões de natureza política e económica, e depois temos um jornalismo mais voltado para o social, para alguns escândalos, que hoje em dia não têm a dimensão de outros que existiram no passado, mas acho que hoje em dia a crise acabou por influenciar todos os sectores da nossa vida económica e pública e os jornalistas, mesmo que isso não lhes seja verbalizado, sentem que têm de produzir informação que seja vendável e desse ponto de vista a crise fez com o que o jornalismo se tenha mercantilizado, o que é mau para o jornalismo, para a profissão mas é uma contingência da crise e dos tempos que vivemos.

Briefing | Mas acha que há possibilidades de sair dessa situação ou isso é uma inevitabilidade no atual contexto de crise?

JS | No atual contexto acho que é inevitável. As empresas de comunicação social estão a viver uma crise profunda porque as receitas publicitárias caíram a pique, porque as empresas têm cada vez mais dificuldades financeiras, porque algumas delas estão muito endividadas, porque as pessoas sentem que os seus postos de trabalho estão em risco e portanto, quando assim é, em que é que se pensa? Em sobreviver, em resistir, em passar nos meio dos pingos da chuva e em não criar ondas porque isso pode significar perder o posto de trabalho e esta é uma realidade cruel, mas é a realidade.

Briefing | Há novas tendências no universo dos media: o cidadão-repórter, o fim do gatekeeper, o jornalista-ativista. Vieram para ficar ou são fenómenos passageiros?

JS | O jornalismo tal como nós o entendemos durante muitas dezenas de anos está hoje em dia fortemente influenciado pelas redes sociais, pela informação que circula no Facebook, nos Twitters. Portanto, surgiram novos dados, novas realidades comunicacionais que têm de ser valorizadas, que têm de ser consideradas e que se acabam por constituir em fontes de informação, para o bem ou para o mal, mas é impossível hoje pensarmos a comunicação e o jornalismo sem a informação e os conteúdos que recebemos através das redes sociais. É uma nova realidade que todos nós estamos a conhecer e a vivenciar e que, de certa forma, alterou a forma de comunicarmos uns com os outros.

Briefing | Também diversificou fontes...

JS | Sim e também contaminou a informação, mais negativa do que positivamente, do meu ponto de vista. Todos nós estamos muito mais expostos e simultaneamente mais afastados uns dos outros. Ou seja, há mais comunicação mas menos proximidade em termos de relações humanas e de relações sociais. Hoje as pessoas comunicam muito menos cara a cara e preferem comunicar e exprimir os seus sentimentos no Facebook.

Briefing | Como é que pensa que vai ser o modelo de financiamento das televisões generalistas numa altura em que o espectador tem à sua disposição várias soluções que lhe permitem, por exemplo, ignorar a publicidade?

JS | Têm sido encontradas novas formas de financiamento. Hoje a televisão generalista está cheia de programas que são sustentados financeiramente através das chamadas telefónicas – ganham os operadores e ganham as televisões. Praticamente todos os dias há programas que estão apoiados financeiramente nessa linha de receitas. Os gestores são chamados a desenvolver toda a sua criatividade no sentido de encontrarem fontes de financiamento alternativas, a reduzir custos, de forma a produzirem conteúdos de uma forma o mais económica possível. Quanto à televisão generalista em si mesmo, ela está em declínio já há alguns na maioria dos países da Europa Ocidental e em Portugal esse fenómeno é já evidente pois a totalidade dos canais do cabo ultrapassa, em muito, diariamente, o canal generalista mais visto.

Obviamente que isso significa que uma parte considerável de receitas publicitárias está a ser canalizada para o cabo e por isso é que as televisões generalistas anteciparam, e bem, isso ao terem criado canais no cabo. Elas estão simultaneamente no cabo e em sinal aberto e é desta osmose que resulta a sobrevivência dos grandes grupos de comunicação ao nível da televisão.

Briefing | Está quase há três anos na TVI. Qual o balanço que faz da sua presença na estação e de ter saído da RTP?

JS | Acho que foi uma das decisões mais acertadas da minha vida pois decidi deixar a RTP um mês antes da entrada do FMI em Portugal. Ou seja, se o FMI tivesse entrado não em abril mas em maio, provavelmente a administração da TVI não me teria convidado porque as circunstâncias alteraram-se radicalmente e a partir do momento em que tivemos de pedir ajuda financeira e ficámos dependentes do exterior as empresas reposicionaram-se, reavaliaram opções de contratação e portanto acho que tive uma premonição ao intuir que era a altura certa para deixar a RTP, com muita pena minha pois mais de metade da minha vida ficou lá mas acho que foi uma atitude acertada pelo que se veio a verificar na RTP, que foi, entretanto, sempre a cair e porque tive a oportunidade de, numa fase da minha vida em que dificilmente alguém é contratado, ter sido contratada e concretizar o sonho, que eu alimentava, de trabalhar numa televisão privada. Queria provar a mim mesma que era capaz de produzir e criar valor numa empresa privada da mesma forma que o tinha feito na RTP e decorridos estes dois anos e meio creio que pelo menos esse teste eu já o passei.

Briefing | Quais são os trunfos da informação da TVI em relação à concorrência?

JS | Temos um jornal muito competitivo às 13H00 e às 20H00. Somos, há vários meses consecutivos, líderes nos dois horários, perdemos umas vezes para a SIC mas julgo que as coisas estão mais ou menos equilibradas e temos conseguido manter a liderança. Orgulho-me, e este é um sentimento partilhado pela Direção de Informação no seu conjunto, de termos conseguido, em dois anos triplicado a audiência da TVI24. Quando chegámos ela tinha 0.5/0.6 de audiência e estamos com quase dois. Fizemos contratações muito importantes ao nível de comentadores – trouxemos para a estação Luís Marques Mendes, Medina Carreira, Manuela Ferreira Leite, Paulo Rangel, Francisco Assis, Fernando Rosas, entre muitos outros – que vieram enriquecer a nossa antena com os seus comentários e análise. Isso acabou por recolocar a TVI24 como um canal de notícias que passou a ser obrigatório ver, o que não acontecia.

Briefing | Se fosse colocada a possibilidade de ter José Sócrates ser comentador na TVI aceitaria?

JS | Não é uma decisão que dependa de mim. Esse nível de decisão está no diretor de informação, não está nos diretores adjuntos. Mas confesso-lhe que não me desagradaria ver José Sócrates na TVI porque acho que teria possibilidades de ter melhores audiências do que as que tem na RTP.

Briefing | Que espaço de informação é que gostaria de vir a criar?

JS | Não espero vir a criar nada pois já fiz tudo aquilo que havia a fazer no jornalismo. Cheguei a uma fase da minha vida profissional em que o fundamental é ter inteligência e o bom senso para saber manter. Isto é um pouco como quando se faz uma dieta e se chega ao peso que queremos e depois temos de o saber manter. Se eu tiver que fazer esta analogia com a minha vida profissional estou nessa fase, a de manter o peso. Ou seja, fiz e faço reportagens, entrevistas e debates, fiz dezenas de noites eleitorais, fui enviada especial e testemunha profissional de grandes acontecimentos que marcaram a história dos séculos XX e XXI e portanto o grande desafio que coloco a mim própria é "manter o peso".

Briefing | O ministro Poiares Maduro quer que a RTP esteja sob a tutela de um órgão genuinamente independente. O que pensa desta ideia?

JS | Não percebi o que ele quis dizer. Acho que ele tem de esclarecer o que é que significa a gestão por parte de uma entidade independente. Isso significa o quê? Que a administração deixa de ser nomeada pelo Governo e a gestão da empresa é entregue à Assembleia da República, por exemplo? É uma afirmação demasiadamente ambígua para ser decifrável e acho que ele tem de ser mais explícito. Tenho dúvidas que ele saiba exatamente o que fazer com a RTP.

Briefing | Se estivesse no lugar dele, o que faria da RTP?

JS | Manteria a RTP tal como está. Procuraria dar-lhe mais músculo ao nível da informação e dos programas mas acho que ela não se deve afastar dos modelos existentes na Europa e que são de sucesso ao nível das televisões públicas. Acho que todos os Governos em Portugal têm a tentação, quando chegam ao poder, de querer mexer na RTP como se ela fosse a coisa mais importante para os portugueses e para o País. A coisa mais importante para os portugueses e para o País não é, certamente, a RTP mas todos os poderes têm a tentação de querer deixar uma marca na estação e normalmente os seguintes fazem sempre pior que os antecessores. Portanto, o fogo está inventado, não vale a pena pegarmos em duas pedras e tentar inventá-lo pois isso já foi feito na pré-História e devemos olhar para os modelos francês, alemão e também o espanhol – apesar de ter graves problemas de financiamento - e devemos ter uma RTP que, obviamente tem condicionalismos que as televisões privadas não têm, mas isso faz parte das regras do jogo, mas que não exige uma revolução. Acho que os sucessivos Governos têm sempre a tentação de quererem ser revolucionários em relação à RTP e normalmente essas tentativas acabam por fracassar e deixar a empresa cada vez mais frágil.

 

 

terça-feira, 15 outubro 2013 13:23

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