Entrevistas

O português que inventou a Hipstelvetica

José Filipe GomesNa semana de lançamento, no Behance, foi o projeto tipográfico mais apreciado em Espanha e o quinto em todo o mundo. Tem sido publicada em blogs e sites de design de todo o mundo, com especial ênfase no país vizinho e na América do Sul, mas também por ingleses, russos e japoneses.

quarta-feira, 27 novembro 2013 09:52
O português que inventou a Hipstelvetica

Tudo isto acontece por causa da Hipstelvetica, uma fonte que é uma espécie de "Helvetica para hipsters". O seu criador, o português José Filipe Gomes, que vive atualmente em Barcelona, conta ao Briefing como é que tudo aconteceu.

Briefing | Porque é que criou a Hipstelvetica?

José Filipe Gomes | Há muito tempo que tinha a intenção de criar uma fonte. Queria explorar um processo criativo que me era estranho e obrigar a cabeça a pensar de outra forma. Criar uma fonte é um processo longo e complexo. No caso da Hipstelvetica, por ser uma família de fontes display, nem sequer tem letras minúsculas, mas mesmo assim demorei cerca de 4 meses a desenvolvê-la, desde o conceito até à criação dos ficheiros propriamente ditos. Este é um tipo de projeto diferente daqueles que habitualmente faço profissionalmente, em que tudo acontece muito mais depressa e envolve muito mais pessoas.

Briefing | Que ambições é que tem para o projeto?

JFG | Na verdade, a ambição que tinha inicialmente era apenas explorar este processo de criação e aprender sobre tipografia, que considero uma disciplina muito importante para qualquer designer gráfico ou diretor de arte. Depois publiquei a fonte e disponibilizei-a para download gratuito e o feedback recebido foi completamente inesperado. Se soubesse que iria correr tão bem talvez a tivesse posto à venda :)

Briefing | Onde é que se inspirou?

JFG | A fonte parte do desenho original da Helvetica, que é conhecida de todos e provavelmente a fonte mais bem desenhada e construída da História. Basta ver a quantidade de marcas que a usam nos seus logótipos, nos seus diversos pesos e estilos, para perceber a importância que a Helvetica tem. O objetivo era fazer um mashup deste clássico da tipografia com as novas tendências que se têm visto em fontes mais experimentais que têm surgido um pouco por todo o mundo. Aqui em Espanha os blogs e os sites têm chamado à Hipstelvetica "Helvetica para hipsters", mas o nome Hipstelvetica na verdade tem a ver com este lado mais experimental e menos explorado, de fugir ao mainstream, que está muito associado à cultura hipster.

Briefing | Como é que esta nova fonte tem sido recebida?

JFG | Na verdade, melhor do que alguma vez esperei. Em 3 semanas, o projeto no Behance tem quase 10.000 views e já ultrapassou os 6000 downloads. Na primeira semana era o projeto tipográfico mais apreciado em Espanha e 5º no mundo inteiro, no Behance, que tem 1 milhão de utilizadores. Tem sido publicada em blogs e sites de design de todo o mundo, com especial ênfase aqui em Espanha e na América do Sul, mas também ingleses, russos, japoneses, etc. Recebi vários e-mails de pessoas que utilizaram a fonte nos seus trabalhos. Essa é uma experiência que raramente um designer ou um publicitário consegue ter: ver alguém pegar no nosso trabalho e criar uma coisa nova a partir dele. No fundo, criar uma fonte ou família de fontes é dar uma ferramenta de trabalho a pessoas que fazem o mesmo que eu. É fantástico.

Briefing | Qual tem sido o seu percurso profissional?

JFG | Sou criativo e diretor de arte há 8 anos. Nasci e cresci em Lisboa, e foi também em Lisboa que estudei e comecei a trabalhar em agências de publicidade. Em 2010 vim para Barcelona trabalhar na Ogilvy e depois fui para a Jung von Matt em Hamburgo. Acabei por voltar para a Ogilvy Barcelona e em 2012 regressei a Portugal, para uma experiência frustrante a nível profissional. Mudei-me pela 3ª vez para Barcelona recentemente e atualmente trabalho como freelancer.

Briefing | Viver em Espanha é uma opção recente? Tenciona voltar a Portugal?

JFG | Como disse, mudei-me recentemente para Barcelona, apesar de ser a terceira vez que vivo aqui. De momento voltar a Portugal não está nos meus planos, especialmente depois da experiência que tive no último ano. Sinto que o mercado não é capaz de absorver o talento, que existe em grande quantidade, mas que inevitavelmente acaba por sair do país, porque não há oportunidades. E não falo de oportunidades de trabalho. Há falta de oportunidades criativas, de furar e fazer diferente, de elevar a fasquia. É disso que vive um criativo, é isso que procuramos. E como se tem visto nos últimos anos, os portugueses brilham ao mais alto nível, mas têm de sair do país para isso acontecer. Em Portugal está-se sempre à procura do erro, do motivo para não fazer. Acho que é uma questão genética que nos afeta a todos, mesmo aos que querem fazer alguma coisa e arriscar. É triste e penso que as agências portuguesas deviam reflectir sobre este assunto. Muitos culparão a crise e a falta de dinheiro, mas se houver vontade dos envolvidos, acredito que é possível sair do dejá vu e da mediocridade.

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

sexta-feira, 29 novembro 2013 10:15

bt nl

2050.Briefing

O Outdoor Honesto

À Escolha do Consumidor

Edições Especiais

Assinatura Mensal
Edição MensalE-paper

Facebriefing