Entrevistas

A Sair da Casca há 20 anos

Nathalie Ballan, sócia fundadora da Sair da CascaA sustentabilidade não é a cereja no topo do bolo. São palavras de Natlhalie Ballan, sócia fundadora da Sair da Casca, consultora especializada em desenvolvimento sustentável. Em entrevista ao Briefing, explica a razão de ser destas palavras, a propósito dos 20 anos da consultora que é sustainability expert no Rock in Rio Lisboa 2014.

quarta-feira, 28 maio 2014 12:03
A Sair da Casca há 20 anos

Briefing | Qual a razão de ser de uma consultora em desenvolvimento sustentável?

Nathalie Ballan | A Sair da Casca nasceu da convicção de que as empresas são um formidável motor de mudança e que uma atuação socialmente responsável cria um círculo virtuoso, positivo para a sociedade e para o negócio. Somos uma empresa "militante" que reúne pessoas que partilham esta convicção e um forte sentido de missão. A visão de um desenvolvimento sustentável, que promove a equidade social e a proteção ambiental é aliciante, entusiasmante quer a nível pessoal, quer a nível profissional.

Briefing | O que oferece de inovador e diferenciador às empresas/marcas?

NB | A oportunidade de inventar, de se renovar e de melhorar: à medida que se vão resolvendo ou atenuando alguns problemas, surgem outros desafios. O nosso nível de exigência e de consciência vai crescendo e as empresas têm de pensar em modos de gestão adaptados, em novos produtos e serviços, cada vez com menos impactos negativos e mais impactos positivos.

Briefing | O que dizem estes 20 anos de existência? A sustentabilidade (ainda) é uma moda ou já é uma atitude assumida pelas empresas/marcas?

NB | A ambição ligada à sustentabilidade nunca foi uma moda. É uma necessidade, uma urgência que nasceu de uma constatação básica: num planeta finito, com recursos limitados, como vamos viver quando tivermos 9 mil milhões de habitantes, como viver hoje sem prejudicar o futuro das próximas gerações. A palavra "sustentabilidade" é que esteve na moda, hoje já faz parte do vocabulário corrente, até é um pouco desgastada e é tao abrangente que acaba por ser pouco concreta.

Há quem tente "evitá-la" e fale mais concretamente de desenvolvimento económico, pobreza, educação, biodiversidade, emprego, eficiência no uso dos recursos, entre outros. Estes temas são centrais, quer a nível político, quer, obviamente, para as empresas e todos os cidadãos. O que é relevante para a sociedade é relevante para as marcas e as empresas, que não vivem isoladas.

Briefing | Que mais-valias aporta a sustentabilidade às empresas/marcas?

NB | A licença para operar, a capacidade de antecipar e gerir riscos, de inovar, atrair e reter colaboradores, ter a confiança das comunidades, poupar nos recursos, etc. e no final, de perdurar e se desenvolver. Não consigo dissociar o que chama "sustentabilidade" da gestão "tout court" e neste caso, de uma boa gestão.

Briefing |E do ponto de vista da comunicação, comunicar a sustentabilidade é uma obrigação ou mais do que isso?

NB | Simplificando, a comunicação do desempenho em termos sociais e ambientais, não é uma obrigação legal mas é uma consequência lógica para quem assume um compromisso em matéria de desenvolvimento sustentável. Conhecer este desempenho não interessa apenas à empresa mas também a todas as suas partes interessadas, que devem poder consultar esta informação com facilidade. Quem assume o compromisso sem fazer este esforço de transparência corre um grande risco e não é credível.

A empresa pode ir mais longe e achar que deve comunicar as suas práticas, contribuir para sensibilizar os seus públicos, partilhar bons exemplos para influenciar os seus parceiros, clientes e até concorrentes. Esta comunicação é mais proactiva e pode ter uma abrangência e um impacto a nível de uma comunidade ou da sociedade em geral. É uma decisão estratégica da empresa saber se quer posicionar-se desta forma. Existem muitas empresas com boa performance em matéria social e ambiental, mas que dão pouca visibilidade ao seu contributo e impactos para a sociedade.

Briefing | E como percecionam os consumidores a comunicação responsável?

NB | Não sei se os consumidores percecionam a comunicação responsável. Partem do princípio que as marcas e as empresas nas quais eles confiam devem ter uma comunicação que respeita as pessoas. É um requisito de base. Podem é percecionar mal a comunicação "irresponsável".

Briefing | Que balanço destes 20 anos?

NB | A cultura mudou, fala-se muito de sustentabilidade, desenvolvimento sustentável, nas empresas, nas escolas e universidades, no setor social. A primeira mudança, a do discurso e da consciencialização, já aconteceu. As pessoas são cada vez mais empenhadas em reciclar, comprar produtos locais, na adesão a movimentos mais "verdes" ou sociais, a solidariedade, aumenta (um dos poucos efeitos positivos da crise). No momento da compra, os critérios de sustentabilidade ainda são prioritários. Do lado das empresas, muitas transformaram as suas práticas de produção, a comunicação é muito mais transparente, o investimento na comunidade aumentou igualmente, mas poucas ainda modificaram substancialmente o seu modelo económico.

Briefing | E que projetos?

NB | São centenas... prefiro ver cada projeto como mais um contributo para a educação e transformação de comportamentos. Graças aos nossos clientes, e aos projetos que ajudamos a desenvolver para eles, conseguimos ter indiretamente impactos e mudar perceções, criar uma cultura de sustentabilidade, transformar algumas realidades.
Projetos para o futuro: não chegaremos a um mundo mais sustentável sem uma transformação das pessoas. Não é apenas uma questão de conhecimento e awareness. Por isso queremos reforçar o nosso contributo para projetos educativos, alavancando iniciativas que levam as gerações mais novas a desenvolver projetos de empreendedorismo social a serem atores e líderes nas suas comunidades, a serem consumidores mais exigentes e sensíveis aos modos de produção dos bens e serviços que adquirem. Podemos transmitir também esta cultura dentro das empresas e encorajar os seus colaboradores a liderar iniciativas com impactos sociais ou ambientais, fazer sugestões para a inovação em produtos ou serviços mais sustentáveis. Vamos continuar a incentivar as empresas a comunicar as suas práticas, para dar o exemplo, reforçar a ideia de que a sustentabilidade não é a cereja no topo do bolo mas sim a condição para um futuro aceitável.

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

sexta-feira, 30 maio 2014 10:30

bt nl

O Outdoor Honesto

À Escolha do Consumidor

Edições Especiais

Assinatura Mensal
Edição MensalE-paper

Facebriefing