Entrevistas

O que quer o André para o DN: ou somos um restaurante de qualidade ou um snack-bar

O que quer André Macedo para o DNReaproximar o título dos leitores, trazê-lo de volta à matriz editorial, devolvê-lo à relevância. É esta a prioridade da direção de André Macedo para o Diário de Notícias. Há que estabilizar vendas, mas a prioridade, essa, é fazer bom jornalismo, jornalismo coerente: "Ou somos um restaurante de qualidade ou um snack-bar, os dois ao mesmo tempo não dá", resume, em entrevista ao Briefing.

sexta-feira, 23 janeiro 2015 12:45
O que quer o André para o DN: ou somos um restaurante de qualidade ou um snack-bar

Briefing | Assume a direção num momento de difícil conjuntura para a imprensa. O contexto não o fez pensar duas vezes antes de aceitar?

André Macedo | Pensei mais do que duas vezes, mas não pela conjuntura difícil, como diz, ou melhor, não apenas por isso, mas para poder pensar com algum detalhe no caminho que esta direção e estes jornalistas do Diário de Notícias terão de percorrer para se reaproximar dos leitores. Será uma luta difícil. Portanto, quando a administração me fez o convite, foi isso que me preocupou. Seríamos capazes de suster a queda e depois, o mais depressa possível, começar a crescer em banca e no digital? Há um lado editorial, a urgência em trazer o jornal de volta à sua matriz de qualidade, o que significa trabalhar diariamente os factos, ser exigente com os jornalistas, não ceder ao facilitismo, ao cansaço, à pressão externa das fontes. Isso é o que estamos a fazer agora, embora sem estarmos isentos de erros. Mas há outro lado relevante nesta equação: o DN só voltará à relevância que já teve se o projeto jornalístico tiver a necessária correspondência na gestão do negócio, ou seja, investimento que nos permita chegar aos leitores de forma global. Isto não pode ser uma espécie de pesca à linha, leitor a leitor, e sei que a administração sabe isto perfeitamente. Estamos nisto juntos.

Briefing | A mudança de direção no DN, tal como no JN, decorre das alterações na estrutura acionista. Qual o "mandato" que recebeu?

AM | Foram muitos diretos comigo: fazer do DN um jornal de qualidade. Isto é, um jornal que olha para toda a concorrência sem preconceitos, mas que percebe onde deve e não deve estar, o que deve e não deve dar porque não interessa. Não me deram nenhuma meta de vendas, não faria sentido, apesar de esse ser um aspeto relevante para todos. Não há dia que passe em que eu não olhe para os números e os analise à procura de um caminho: tenho-os aqui na parede à minha frente, pendurados na parede. Já fiz o mesmo, com êxito, no Diário Económico. Quando deixei de ser diretor do DE o jornal vendia o dobro do que vende hoje e nunca parou de subir em banca naqueles quase quatro anos. Não foi um trabalho meu, foi da equipa inteira, que grande equipa. No i não tive, não tivemos, esse tempo, infelizmente. Um ano não dá para nada. Já no Dinheiro Vivo a progressão também é demonstrável nos números que conseguimos. Aqui no DN, embora numa conjuntura mais difícil porque o jornal caiu muito nos últimos anos e perdeu identidade, acredito que vai ser possível chegar a um equilíbrio que passa pelo papel, mas também pelo digital. Passa por vendas em banca, no sentido de estancar a queda, mas também por receitas de publicidade e, em 2015, por mais assinaturas digitais. Seremos capazes? Veremos. Mas pode ter a certeza que, quando um dia eu sair do DN, esta direção sair do DN, este jornal será seguramente mais profissional, terá rotinas de trabalho mais adequadas às exigências e ao que aspira ser, será mais jornal do que é hoje.

Briefing | Entra, além disso, no rescaldo de um processo de rescisões que suscitou polémica. Sentiu o impacto desse ambiente? Repercute-se na sua missão/função?

AM | Um despedimento coletivo é sempre uma brutalidade e esta equipa sofreu dois nos últimos anos. Mas era preciso adequar os custos às receitas, embora esse trabalho ainda hoje não esteja totalmente feito. Por outro lado, vai ser preciso trabalhar mais as receitas e ganhar mais dinheiro, mantendo os custos sempre controlados. A redação recebeu-nos muito bem e, em regra, revelou absoluta disponibilidade para olhar para o mundo de forma diferente. Na verdade, sinto-me em casa e isso não era líquido, não é em nenhuma redação. Os jornalistas não são fáceis de convencer, faz parte da nossa natureza. Mas ainda assim têm sido dias intensos para todos, às vezes excessivamente intensos, porque, além da remodelação editorial em curso e do aniversário (fazemos 150 anos a 29 de dezembro, dia de anos da minha filha mais nova), a atualidade noticiosa também tem sido mais exigente do que nunca. Desde que aqui estou já tive de dizer por duas vezes aquela célebre frase: "Parem as máquinas!" É um momento complexo a que temos dado uma resposta, julgo, adequada. A redação é boa, tem qualidade, sentido de exigência e disponibilidade. E mais: sabem que eu não estou aqui para ganhar amigos ou fazer o mais fácil. Quem quer amigos não aceita ser diretor de jornal. Dizer "não" é, neste caso, fundamental para manter ou corrigir o rumo. Estamos a bater no ferro enquanto ele está quente, espero que já se note, terá de notar-se mais. Fizemos 15% do que nos espera.

Briefing | Assim sendo, qual a sua estratégia para o DN?

AM | Estabilizar as vendas em banca e fazer do DN um jornal essencial no digital, isto é, na web e no mobile, já em 2105. Na base isto implica fazer um jornal como deve ser: independente, rigoroso, próximo das pessoas, interessante, inteligente e com a profundidade possível. Um jornal com mundo, não um jornal deslumbrado e parolo. Um jornal culto, bem escrito, com boas fotografias, com exemplos de novas narrativas na web, com vídeos de qualidade, boa infografia. E mais: um jornal onde os jornalistas se sintam bem. Um jornal de combate, quando é preciso. Falta dizer uma coisa, talvez a mais importante: esta direção acredita que o DN deveria ser o jornal da língua portuguesa. A ligação a Angola, a Moçambique, ao Brasil e a Cabo Verde... São essenciais. Ainda não demos esse passo, custa dinheiro, mas espero que seja possível dar e depressa, porque essa será uma das nossas razões de ser e um fator de diferenciação jornalística. Sem isso, ficaremos coxos.

Briefing | Tendo em conta que vende pouco mais de 15 mil exemplares por dia, aumentar as vendas é a prioridade?

AM | Eu diria que a prioridade é fazer bom jornalismo, acreditando que o bom jornalismo tem espaço comercial no nosso país, embora limitado. Eu acho que tem, sei que tem, o Expresso demonstra-o todas as semanas. Não tenho vontade e perfil para fazer um jornal popular. São escolhas que se fazem na carreira, eu fui fazendo as minhas. O risco de falhar existe, penso nele, sei que é difícil, sei que é como escalar uma montanha, mas a noção concreta dos problemas leva-me a procurar soluções, não a desesperar.

Briefing | Além das vendas, os jornais vivem de publicidade. Ainda que seja um pelouro da direção comercial, está a equacionar alguma abordagem integrada neste domínio?

AM | A direção comercial, liderada pelo Luis Ferreira, é essencial e está também ela envolvida e motivada. Há aqui uma oportunidade, espero que a saibamos todos aproveitar. Acabámos com a página de anúncios de prostituição com fotografias. Os acionistas perderam dinheiro, mas ganhámos caráter. Foi uma boa troca, foi uma prova de vida, um compromisso com a seriedade. Vamos agora trabalhar em formatos e possibilidades que alarguem a oferta comercial que existe. Os anunciantes são essenciais, se não nos apoiarem, agora e mais à frente, se não responderem a este desafio, um dia eles próprios não terão interlocutores credíveis e as suas empresas serão muito, mas muito penalizadas por isso.

Briefing | E quanto ao digital? Uma das estratégias da imprensa, nacional e internacional, tem sido fechar conteúdos. É por aí que irá o DN?

AM | Já fechámos a opinião. Os conteúdos do jornal em papel também são privilégio de quem paga. Não acredito em jornalismo grátis. Ou melhor: não é o nosso campeonato. Os leitores terão de perceber que se querem ler o Ferreira Fernandes, o Pedro Marques Lopes, o Sérgio Figueiredo, entre todos os outros que temos, terão de pagar. É pouco dinheiro para tanto trabalho. Um euro, menos até na versão e-paper, não é excessivo. Ainda assim vamos reforçar a qualidade editorial. Vamos melhorar a nossa oferta. Dar mais exclusivos, mas furos, mais reflexão, mais cachas. Na verdade, se reparar, isso já está a acontecer mais todas as semanas. Desde que aqui estamos não passou uma única semana sem que não tenha havido alguma melhoria. Não fizemos uma revolução, seria estúpido e desrespeitoso, mas estamos a fazer uma mudança tranquila, sólida e constante. Veja as Artes, veja o Portugal, o Desporto, olhe para última página, leia o Mundo, visite o site. E veja a política, onde teremos de melhorar mais.

Briefing | Com o Observador, o Expresso Diário e o Económico à Uma, estamos a assistir ao emergir de novos formatos na imprensa. São formatos que "ameaçam" um diário generalista como o DN?

AM | A maior ameaça é o desinteresse dos leitores. O resto é concorrência.

Briefing | Os leitores do fim-de-semana são diferentes e jornais como o Público já tentaram formatos para os captar. Podemos esperar mudanças nos conteúdos?

AM | Já mudámos muito o jornal ao fim-de-semana e vamos continuar a mexer no corpo do jornal, mas também nas revistas e nos suplementos. A Notícias Magazine é dirigida por uma jornalista que sabe o que está a fazer, a Catarina Carvalho, e que está integrada, bem integrada nesta equipa. Vamos mexer na revista, claro. A Sílvia Oliveira, diretora do Dinheiro Vivo, está a acompanhar este caminho. Vamos olhar para a direção de Media &TV também e para o trabalho que está a ser feito. A ideia é simples: tem de haver coerência no jornalismo que oferecemos. Ou somos um restaurante de qualidade ou um snack-bar, os dois ao mesmo tempo não dá. Lembra-se do Tavares Rico? Um dia fizeram o Tavares Pobre no andar de cima e deu no que deu... O DN no papel, seja papel de jornal ou de revista, e até o DN Digital terá de ter uma identidade coerente sempre, mas sempre de qualidade. O nosso público é exigente e é para ele que trabalhamos, não para o ego deste ou daquele, para este ou aquele lóbi.

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segunda-feira, 26 janeiro 2015 09:43

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