Entrevistas

O design português anda pela Ásia. A culpa é deles

O design português anda pela Ásia. A culpa é deles Foi na cidade de Malaca, na Malásia, que partiu a inspiração de Sérgio Alves (à esquerda) e Henrique Nascimento (à direita). É que os designers descobriram que na língua malaia há "uma mão cheia" de palavras portuguesas que ainda hoje são utilizadas. Uma descoberta que levou ao desenvolvimento da exposição "World Within Words – A Language Manipulation", onde o design procura celebrar o encontro entre duas culturas.

quinta, 06 abril 2017 12:47
O design português anda pela Ásia. A culpa é deles

Briefing | Como surge a exposição "World Within Words"?

Sérgio Alves | A exposição surge pelo desafio de Winston Ling Wei, diretor da AddonLife, que numa viagem à Europa se cruzou comigo. Nessa altura, existiu um fascínio, por parte dele, dos métodos, muitas vezes pouco comuns, que usávamos nos processos de design. Tendo ficado no ar uma possível proposta para se experimentar na Malásia um projeto com a mesma atitude. Essa proposta surgiu duas semanas depois desse encontro.

Briefing | Qual a inspiração?

Henrique Nascimento | Por curiosidade, começámos a pesquisa do projeto investigando que ligações existiam entre Portugal e a Malásia. Imediatamente apareceu a cidade de Malaca, que foi um importante porto comercial português no início da sua expansão marítima, e que ainda preserva alguma cultura portuguesa desses tempos. Mas o que nos fascinou foi descobrir que a língua malay tem uma mão cheia de palavras portuguesas, e que ainda hoje usam no seu dia a dia sem saber que as palavras provêm do português. Por exemplo, a palavra balde diz-se "baldi", Igreja diz-me "gereja", e mesa "meja". Foi este fascínio de perceber que muitas vezes quando falamos de globalização, estamos errados em pensar que apenas hoje existem processos de aculturação entre culturas diferentes, mas que estes processos sempre existiram quando se deu um encontro cultural. E que dessa maneira, o nosso projeto seria também isso, um encontro entre duas culturas, tenho ficado definido que a língua seria a matriz desse encontro.

Briefing | Mas porquê a opção de investigar a cultura e a língua malaica?

HN | Para nós era importante fundirmo-nos com a cultura local, no final de contas é esse ingrediente que faz o projeto único, e diferente de um projeto europeu. Não queríamos fazer algo que fosse indiferente estar em Portugal ou na Malásia, queríamos fazer algo que fosse um acrescentar europeu do que já existe na Malásia. E assim sendo, uma positiva troca de informação e influências. Aqui, What Life Equip, que foi o mecenas do projeto, foi um ator importante em nos ligar aos agentes locais, para termos a melhor adaptação possível à realidade local.

Briefing | Em que se traduz a exposição?

SA | Numa celebração do encontro entre duas culturas. No sentido em que já não é nas distâncias que se colocam os grandes desafios à comunicação entre culturas, mas sim nas ferramentas que duas culturas diferentes têm para comunicar. E principalmente que novas ferramentas podem ser pensadas e criadas para uma saudável troca cultural existir. Assim, a exposição "World Within Words" é o resultado de um método onde a manipulação da linguagem, com vista à criação de uma nova linguagem é usado em design. Mistura-se palavras, significados, procura-se novos sentidos e termos. E este processo de criar uma língua nova é depois a base para se criar em design, seja para criar um objeto como para criar uma linguagem bidimensional.

Briefing | Nesta intervenção, que função assume o design?

SA | O design é a ferramenta que utilizamos para fazer tudo acontecer. O design tem esse sentido, de ser o instigador para algo novo ser criado, mas também nos dota de todas as ferramentas para poder comunicar essa transformação. Aqui também é interessante compreender que existe atualmente uma transformação na perceção do que é o trabalho do designer. Que em muitos países começa a ter uma vertente mais social e individual ao invés de estar sempre subordinado a um briefing feito pelo um cliente ou empresa.

Briefing | Como foi intervir artisticamente num país pouco ativo no sector da cultura?

SA | Foi muito desafiador. Sentimos muitas vezes a pressão de culturas diferentes têm visões diferentes sobre conceitos básicos. Para nós estávamos a fazer design, mas para os Malaios estávamos muito mais no campo da arte. Aqui a nossa posição em deixar vincado que estávamos a trabalhar sobre uma base de design foi importante para não perdermos o rumo do projeto.

Briefing | Como tem sido a reação dos visitantes? Qual o balanço?

HN | Muito positiva, infelizmente viemos embora da Malásia no próprio dia da inauguração, o que fez com que só tivéssemos a perceção da reação por imagens e depoimentos online. Mas o que chegou até nós foi muito positivo.

Briefing | O projeto esteve patente na Malásia e vai percorrer toda a Ásia. Há previsão de a levar a outras geografias? E de aplicar o conceito a outras culturas?

HN | Esta exposição foi um ponto de partida, e não um fim em si mesmo. A ideia era compreender e desenvolver um método que depois pudesse ser replicado e utilizado noutros locais e até com mais intervenientes. E é exatamente isso que está a acontecer, estamos neste momento a trabalhar com o mesmo conceito para chegar a outros locais na Ásia. A exposição não será a mesma, mas o formato que foi utilizado será usado como ferramenta para novos pontos de partida, e outros tipos de design, como design de produto, por exemplo.

Briefing | O que esta exposição internacional representa para o design português?

HN | Acho que aqui o que sentimos é que existe uma perceção do design europeu muito forte quando estamos muito longe da Europa. E que não percecionamos muito bem quando estamos dentro da Europa, porque temos a tendência em nos fazer dividir por países. Mas a verdade é que estas exposições são também uma oportunidade para vermos a coisas de uma perspetiva mais abrangente, onde a questão da identidade europeia é importante para nos fazermos representar.

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