Entrevistas

A (anti)celebração chega amanhã ao CCP

A (anti)celebração chega amanhã ao CCPUma celebração e uma anti celebração. É o que se propõe ser a V Semana Criativa de Lisboa, integrada no XIX Festival do CCP e marcada para 17 a 21 de maio. Pedro Pires, o presidente do clube, justifica a aparente contradição.

terça, 16 maio 2017 12:58
A (anti)celebração chega amanhã ao CCP

Briefing | Como chegam ao tema "e depois do algoritmo"?

Pedro Pires | A revolução tecnológica e a velocidade a que as mudanças por ela provocadas acontecem estão a ter um enorme impacto no exercício da criatividade.
Novos formatos, novas mecânicas que provocam alterações na estrutura das narrativas publicitárias e de branding, novos meios e novas formas de estes meios chegarem às pessoas.
E em face de tudo isto uma grande excitação, mas também uma grande angústia que não é só geracional, e não está presente apenas nos criativos que cá andam há mais tempo, mas que afeta todos de forma idêntica.
A acrescentar a tudo isto temos o "dark side" desta nova realidade, o condicionamento, a bolha informativa, as verdades alternativas, a desinformação.
São todas estas novas realidades que tornam pertinente a nossa opção temática deste ano. Explorar o impacto, refletir e evoluir com base nessa reflexão.

Briefing | Estamos perante uma "ode" à criatividade humana, por oposição à apologia da tecnologia?

PP | Não, nada disso. Estamos perante um exercício de questionamento e reflexão não preconceituosa. A tecnologia é criada pelo homem, não tem vida própria, ainda...ou terá, mas, se calhar, nós não sabemos...
Esta é uma era em que assistimos a muitas mudanças que afetam o exercício da criatividade comercial. Não é só a questão tecnológica, é a questão demográfica, é a questão social pública e virtual.

Briefing | A ideia conta sempre mais?

PP | Sim. Ao longo dos tempos acho que isso está provado. Em qualquer área. A questão tecnológica não afeta as grandes narrativas da humanidade (e as pequenas) naquilo que é a sua essência – altera-as profundamente e de alguma forma parece haver uma tendência para as superficializar, mas a verdade é que, depois de se normalizar a adoção de uma nova tecnologia, a diferenciação qualitativa dá-se sempre pela qualidade da ideia, da história, da narrativa, da qualidade intrínseca das coisas.

Briefing | E a tecnologia? Retira liberdade ao processo criativo?

PP | Não de forma alguma, acrescenta liberdade de forma exponencial, seja do ponto de vista da pura possibilidade de criação, como da capacidade produtiva.
A tecnologia permite aos criativos e aos artistas de hoje expressarem-se de formas nunca antes imaginadas e isso é muito positivo.
O problema é o tal lado negro da tecnologia, que tenta parametrizar, condicionar, normalizar de forma a salvaguardar o sistema acima de qualquer outra importância. Aí, sim, a criatividade está em perigo. Na verdade, se olharmos para a organização da administração pública ou para qualquer sistema que exige grande definição protocolar isso acontece. É contra a liberdade que essa normalização retira, contrária e paradoxal face ao ilimitado universo de possibilidades criativas, que temos que lutar.

Briefing| Para onde caminha a criatividade nesta era em que o marketing recorre cada vez mais a ferramentas tecnológicas?

PP | Para se adaptar a essas ferramentas e continuar a criar histórias. As ferramentas tecnológicas são sistemas e não ideias. Há um limite para o número de contactos ou de formas em que eu posso aparecer a uma determinada pessoa. Não há limites para a imaginação.

Briefing | E, neste contexto de inovação, precisam as marcas de ser mais humanas? É uma contradição real ou só aparente?

PP | Toda esta tendência da humanização das marcas tem tantos anos como a história da publicidade. Para mim é um não tema. As marcas existem para as pessoas as usarem. Para mim qualquer tipo de branding ou comunicação que não obedeça a um princípio de diálogo entre uma entidade coletiva – a marca – e uma entidade individual – o consumidor – e não tente com ele estabelecer um verdadeiro diálogo e uma verdadeira troca de ideias e conteúdo está errado.

Briefing | É por isso que este festival é, ao mesmo tempo, uma celebração e uma anti celebração?

PP | É, porque existe um lado luminoso e um lado negro na questão tecnológica. E é verdade que temos que estar com atenção e debater os dois.

Briefing | Que contributos haverá para debater o tema?

PP | Estamos a fechar o painel de oradores e teremos novidades em breve. Mas podemos desde já adiantar que vamos contar com a presença de Emanuele Coccia, professor associado da École des Haute Études en Sciences Sociales e autor de vários livros e de farto pensamento sobre as questões filosóficas, existenciais e práticas da publicidade e da criatividade. Isto no âmbito da curadoria da tecnologia do nosso curador João Fernandes. Promete também uma mesa redonda com alguns convidados como o António Guerreiro, jornalista do Público, já confirmado, e outros nomes que divulgaremos em breve.

Briefing | E como será repercutido nas exposições dos curadores?

PP | Cada curador está a interpretar o tema de diferentes perspetivas e creio que vamos ter um dos anos mais ricos de sempre em termos de exposições. Podemos adiantar que a exposição de arte, do curador Marco Dias, se chamará Algo Rítmico e que conta com alguns artistas convidados, como Joaquim Albergaria, Dupla Marco Dias e José Sousa, Heitor Alvelos, Anselmo Canha e Gonçalo Santos, Renato Filipe Cardoso e José Carlos Mendes.
As curadorias de Ilustração, Fotografia e Filme, dos curadores Jorge Silva, Pedro Ferreira e José Pedro Sousa, respetivamente, em breve irão comunicar os nomes dos seus convidados, mas prometem mais um ano de uma fantástica mostra de Ilustração com 33 ilustradores convidados e uma exposição de fotografia e filme a não perder.
Ricardo Henriques – Curador para as Letras este ano realizou um convite a designers e artistas visuais para criarem peças de comunicação da "velhinha escola", feitas da forma mais manual possível, peças sem qualquer medição de cliques, com pouca interatividade e sem códigos complexos por trás. A exposição Letras: "Clientes que gostaram deste produto também gostaram de" conta com as seguintes duplas convidadas: André Pereira e Ruben Rodrigues; Ricardo Gaspar e Susana Carvalhinhos; Ana Simões e Ana Magalhães; André Beato e Pedro Campiche; Ricardo Passaporte e Tiago Albuquerque.

Briefing | A semana criativa culmina com os prémios. Quais as expectativas?

PP | De crescimento, na sequência dos últimos anos. De quantidade e qualidade. Creio que o último ano teve mais investimento e se verificou uma maior aposta em produção e mesmo em ousadia. Esperemos que os prémios reflitam e confirmem esta perceção.

fs@brie

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sexta, 19 maio 2017 12:38

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