Entrevistas

"Estamos a fazer história". Álvaro Covões não tem dúvidas

"Estamos a fazer história". Álvaro Covões não tem dúvidasNasceu virado para o mundo e tem cumprido esse desígnio: o NOS Alive, cuja 11.ª edição começa amanhã, é reputado entre os melhores festivais internacionais. O seu promotor, Álvaro Covões, acredita mesmo que está a fazer história. O que não percebe é que não se dê valor aos promotores de espetáculos, tal como (ainda) não se dá valor ao papel dos conteúdos na promoção do país como destino turístico. 

quarta, 05 julho 2017 13:16
"Estamos a fazer história". Álvaro Covões não tem dúvidas

E um conteúdo pode ser um jogo de futebol, da seleção, por exemplo. Daí que não conceba que não exista um pacote turístico associado ao melhor jogador do mundo.

Briefing | Esta foi a primeira vez que o NOS Alive esgotou e com antecedência. A que atribui este facto?

Álvaro Covões | O ano passado também esgotámos. Quando o festival começou, havia um dia ainda com bilhetes, mas que esgotámos no próprio dia. Este ano, esgotámos com três meses de antecedência.

É o culminar de um trabalho feito pelos organizadores de festivais que permitiu atingir o patamar dos grandes festivais internacionais, como Coachella, onde com meses de antecedência já não há bilhetes. Em Portugal, passa-se um fenómeno muito curioso. Os festivais têm uma notoriedade acima dos concertos, mas os concertos esgotam mais facilmente. Penso que ainda existe algum sofisma de pessoas que gostam de música, mas acham que ir a um festival é confuso, que são muitas horas. É a minha interpretação. Acho que já ultrapassámos isso, mas havia algum preconceito em relação aos festivais. O que se tem provado é que são boas experiências, muitas vezes até pelo convívio. Num concerto, chegamos, assistimos e vamos embora, enquanto num festival não, circulamos de palco em palco, frequentamos a zona de alimentação, encontramos amigos, reencontramos pessoas, é quase um ponto de encontro.

Briefing | E mesmo nos chamados anos da crise os bilhetes vendem-se bem, quer para concertos, quer para festivais...

AC | Para já temos de definir o que é a crise, porque a crise não é igual para toda a gente. Lembro-me que, no início deste século, havia uma classe pujante de gestores e de profissionais liberais que tinha rendimentos que hoje não têm e, à sexta-feira, assistíamos a uma debandada, iam para o Alentejo, mas também para Paris, Londres, Madrid. Mas, quando há uma crise, a cidade move-se em grupo. É todo um bloco que desce, o que significa que aqueles que gastavam um determinante montante a viajar passaram a ficar na cidade. Mas isso não quer dizer que tenham perdido a totalidade dos rendimentos, pelo que continuam a ir aos restaurantes, a espetáculos. Outra explicação é que, cada vez mais, a música ao vivo faz parte do cabaz mínimo de necessidades dos portugueses, para lá das necessidades básicas, claro. As pessoas, quando vão a um concerto, é para se libertarem, é uma terapia.

Briefing | Portanto, não é difícil atrair público.

AC | Quando se tem um bom produto, é mais fácil vender. Há nomes que basta anunciar para as pessoas correrem à bilheteira, mas há outros que é preciso fazer uma campanha gigantesca para convencer as pessoas a comprar. Não é porque sejam maus, têm é um nível de notoriedade menor.

Briefing | E também é mais fácil ter um bom cartaz.

AC | Para ter um cartaz melhor, é preciso investimento. Foi a aposta que fizemos no NOS Alive, que foi desenhado, em primeiro lugar, para ser um festival internacional. E conseguimos. Temos sido considerados pela imprensa internacional como um dos melhores festivais do mundo, já não é da Europa, é do mundo. Isso reflete-se na vinda de público estrangeiro, que vem aos milhares, que se desloca de propósito a Portugal, mas também nos artistas que querem participar no festival. Isso é bom para o País. Haver eventos que, de facto, sejam uma referência internacional qualifica o destino Portugal.

Briefing | Este ano, há menos estrangeiros. Porquê?

AC | Para nós, não são menos. Como o festival, esgotou, vêm os que conseguiram comprar bilhete. Mesmo assim, 21 mil é uma barbaridade. Há festivais que nem 20 mil pessoas têm... Se chegarem todos de avião, se calhar estamos a falar de 140 aviões. Só por causa de um festival. Isto só é comparável com o Euro 2004. E são 21 mil identificados, porque se passaram por Portugal, compraram bilhete e agora regressam não temos maneira de os identificar. E quantos eventos é que trazem 20 mil pessoas de fora? Muito poucos. Mesmo os jogos da Champions, com o Porto, Benfica ou Sporting, trazem quatro, cinco mil pessoas.

Briefing | Isso significa que a música pode também promover o destino Portugal?

AC | Sim, só há duas tipologias de eventos públicos que movimentam os portugueses de norte a sul e estrangeiros – o desporto e a música. São eventos fundamentais para a valorização de um destino. Lisboa e Porto são duas cidades com clubes de projeção internacional que são estruturantes para a valorização do destino. No turismo, ainda andamos a dormir, temos preconceitos com o futebol. Mesmo quando fomos campeões da Europa. Não podemos ter o melhor jogador do mundo, que joga de borla na seleção nacional, e os bilhetes serem vendidos através de uma cadeia de distribuição com 50% de desconto. Nem sequer um pacote turístico fazemos. É uma oportunidade que estamos a perder.

Quando comecei a falar da importância da música no turismo, diziam-me que o que era relevante era o golfe, o hipismo e os desportos náuticos, na época desportos só acessíveis a elites económicas. Claro que são importantes. Aliás, uma falha que temos no turismo é estarmos a descurar o segmento de luxo. Não temos oferta, não temos um hotel de seis estrelas nem em Lisboa nem no Porto. Mas a música também é importante.

Briefing | Foi isso que o motivou a entrar na Associação Turismo de Lisboa?

AC | Os portugueses têm um defeito muito grande que é criticarem muito, mas ficarem sentados no sofá. Ora, quem critica deve agir. Eu entendo que se pode melhorar, estamos a trabalhar bem, mas pode-se fazer melhor. E para isso é preciso participar, só assim é que se muda uma sociedade. Uma vez perguntaram-me porque estava ali se não ia ganhar nada e eu respondi que esperava vir a ganhar muito, porque se se conseguir melhorar a qualidade do turismo, vou ganhar. Ofereço um produto e quantos mais turistas vierem a Portugal mais espetáculos se fazem. Ganhamos todos.

Briefing | Trata-se de levar os conteúdos ao turismo. Como se consegue isso?

AC | Como nós fazemos. Temos duas tipologias de destinos: temos os destinos que as pessoas querem conhecer e depois temos os destinos que oferecem conteúdos que ajudam a tomar a decisão de visitar. Sem ser a primeira vez, em que queremos conhecer a cidade, porque é que vamos a Madrid? Para ver um jogo, uma exposição de Picasso ou a ARCO... Há sempre um conteúdo associado.

Os conteúdos são fundamentais. Estamos a crescer a dois dígitos, tanto em Lisboa, como no Porto, e isso significa que os conteúdos tradicionais estão esgotados. Falo do Oceanário, do Castelo de São Jorge, da Torre de Belém, do Mosteiro dos Jerónimos, dos pasteis de Belém. O grande desafio, e é para isso que tenho alertado, é proporcionar mais conteúdos, porque, se não o fizermos, os turistas vão sair daqui com uma má experiência. Precisamos urgentemente de mais conteúdos, devíamos ter permanentemente exposições como a da Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda.

Uma das coisas de que não se fala é da grande falha de equipamentos. Em Lisboa e no Porto já se devia ter investido em galerias de exposições temporárias. O Estado é proprietário de uma quantidade de edifícios que estão fechados e que a iniciativa privada poderia utilizar. Não podemos querer que o Estado faça tudo, mas pode ser o elemento facilitador. Ainda existe muito esta linha que separa a sociedade civil do Estado. Há uma máquina que trava.

Briefing | Em que medida é que a falta de equipamentos é um travão?

AC | Recentemente, vi uma declaração interessante da Câmara do Porto a dizer que a cidade não está interessada em receber a Eurovisão. Quando a questão é a montante: o porto tem algum equipamento para receber o festival? Não, não tem. Então a questão de estar interessado ou não nem se põe. Já defendi, junto do presidente de câmara anterior e do atual, que a cidade devia ter uma estrutura semelhante ao Meo Arena, porque há um conjunto de eventos que não conseguem ir ao Porto, o que significa menos conteúdos para o turismo.

Briefing | Concorreu à privatização do então Atlântico, que perdeu, e é sabido que havia um projeto em nome próprio. Essa intenção mantém-se?

AC | Mantém-se, sim. Os equipamentos de Lisboa, neste momento, têm uma taxa de ocupação muito acima do expectável, pelo que começa a haver necessidade de mais espaços para eventos. Se a Eurovisão for para o Meo Arena isso significa que durante dois meses não haverá mais oferta naquele espaço e a cidade deixa de receber os conteúdos que normalmente oferece. Lisboa precisa de um espaço alternativo, não da mesma dimensão, mas precisa. Nós temos planos para avançar com um projeto que vai suprir o gap entre o Coliseu e o Meo Arena. Já temos espaço. Não podemos correr o risco de perder conteúdos.

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na edição impressa da Briefing.

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

segunda, 10 julho 2017 12:07

bt nl

Assinatura Mensal
Edição MensalE-paper

Facebriefing

Melhores Briefing