Entrevistas

O próximo desafio do CCP? A profissionalização, diz o Pedro

Com mais uma Semana Criativa de Lisboa já a rodar, Pedro Pires, presidente da direção do Clube de Criativos de Portugal, faz o balanço do caminho percorrido em 20 anos. Fala com orgulho dos degraus subidos até alcançar o estatuto de agregador da classe e entidade de referência quando o assunto são as indústrias criativas. Mas também fala com alguma desilusão da inexistência de pontes mais eficazes entre as ideias e a economia. Deixa a direção do clube ao fim de seis anos, com chave de ouro: a nova sede, no Mercado de Santa Clara.

terça, 15 maio 2018 12:43
O próximo desafio do CCP? A profissionalização, diz o Pedro

 

Briefing | Este ano, o CCP assinala 20 anos. Que balanço fazes, ainda que só estejas na direção há seis?

Pedro Pires |
O CCP é um bom exemplo de uma instituição que, ano após anos e graças ao trabalho voluntário das direções que se sucederem, conseguiu ir ganhando mais importância. É verdade que eu só tenho conhecimento direto dos últimos seis, mas estes 20 anos são a prova de que o clube começa a cumprir realmente o papel de agregação da classe, de referência para a classe. Mas isto ainda está a começar. Nos últimos anos, houve uma consolidação do papel do clube que é um indício do potencial que poderá ter no futuro.  E potencial tanto do ponto de vista da organização profissional, como do ponto de vista de cooperação com as diversas entidades, municipais e empresariais, ao nível das indústrias criativas.
Na verdade, há uma nova vida a nascer no clube. Ano após ano, tem vindo a ganhar importâncias, primeiro no panorama da comunicação e da publicidade em Portugal – era o festival onde as pessoas queriam colocar os trabalhos porque era o mais prestigiado –, e, mais recentemente, enquanto fenómeno cultural e profissional na cidade. Mas há muito caminho a percorrer, há muitas áreas que necessitam de mais seis ou doze anos. Porquê? Porque o clube é feito de voluntários, de pessoas que têm a sua vida, e de uma pequena estrutura a tempo inteiro, contando com colaboradores muito dedicados nos períodos do festival e dos rankings. Os passos que se dão estão bem delineados, mas não podem ser muito rápidos, porque não há estrutura que aguente isso. A memória da classe, o papel de consultor profissional, o aprofundar da sua importância enquanto entidade de referência a nível das áreas criativas, a relação com as escolas – tudo isto ainda é muito embrionário, ainda não está no seu potencial máximo. Mas o resto já está. As pessoas, quando querem informação sobre esta área, já vêm ao clube, as organizações que trabalham esta área já vêm diretamente ao clube. O grande desafio da próxima direção é esse, uma maior profissionalização.

Mas a classe já olha para o clube de uma forma agregadora?

Acima de tudo, as pessoas já olham para o clube como entidade agregadora do ponto de vista do espírito da classe. Há muita colaboração. Podemos dizer que toda a classe está a ter um papel aqui e ali nas atividades do clube – no festival, na semana criativa, na relação com o ADCE e com o D&AD. E isso é muito importante. Numa perspetiva mais emocional, é tão importante como pagar quotas. Ter essa disponibilidade para o clube é uma grande vitória, porque, quando chegámos, as coisas estavam, por assim dizer, menos entusiásticas.

Nos seis anos da atual direção, o clube e as indústrias criativas mudaram muito?

O clube, em si, mudou, porque se tornou multidisciplinar, o que é muito positivo. Em termos de trabalho, é muito engraçado: a Susana Albuquerque [diretora criativa da Uzina e ex-presidente do CCP] esteve a fazer a shortlist dos 20 anos e a verdade é que, quando olhamos para os anuários, há campanhas que podiam ter sido lançadas hoje. O clube já nasce num período em que a publicidade portuguesa dá sinais muito claros de modernidade e de contemporaneidade. O que se nota é a grande diferença com a entrada do digital, da ativação e da integração de meios. Há uma clara passagem da valorização do anúncio de imprensa, em 1998, para os videocases que hoje em dia fazem um projeto. Quando olhamos para os grandes prémios, isso é claro, comparando por exemplo o filme dos vinhos do Alentejo que ganhou no primeiro ano com o projeto que ganhou o ano passado [Vamos pôr o Sequeira no lugar certo]. Mas aquele filme podia ter sido feito hoje, é um clássico.

Uma das ambições do CCP era tornar Lisboa num hub criativo. Há condições para isso?

Estamos a tentar e acho que estamos a conseguir. O papel de programação e de agregação das indústrias criativas no Mercado de Santa Clara é um contributo, mas falta uma entidade com legitimidade para falar com todos os setores, com as instituições, com as marcas, com os fab lads, uma entidade que possa, no fundo, ser o pivô de todo o ecossistema criativo. Diria que, espontaneamente, Lisboa está a tornar-se um hub criativo. Mas gostaria de ver mais marcas portuguesas, novas marcas a ganhar poder, porque essa é a verdadeira prova da vitalidade de uma economia criativa. Ainda está tudo na lógica do entusiasmo das startups…

Economia criativa. Esses dois conceitos não parecem andar desencontrados?

Nos discursos não andam, mas na prática andam um bocadinho, porque parece que se espera que as pessoas façam tudo por elas próprias. Quem está a criar programas tem de entender que quem tem ideias é bom a ter ideias, não é bom a fazer outras coisas. Ainda não estão criados os vasos de comunicação necessários entre as diferentes áreas para que estes dois tipos de pessoas se encontrem e consigam, juntamente com investimento, criar condições para que este networking seja efetivo.

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na edição impressa da Briefing.

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terça, 15 maio 2018 12:55

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