Entrevistas

De Young Lions para Young Lions: Mostrem ao mundo o que é ser português

À terceira foi de vez: o ano passado, ganharam Ouro em Cannes, nos Young Lions. Rita Almeida e Diogo Vasques partilham que o prémio foi fruto da convicção de que “quem quer faz acontecer”. Mas lamentam que (ainda) não traga um salto na carreira, ao contrário do que acontece com os jovens publicitários. Aos portugueses que concorrem este ano deixam um conselho: vão para ganhar, arrisquem, não tenham medo de levar o “desenrascanço” nacional até ao Palais.

quarta, 05 junho 2019 12:35
De Young Lions para Young Lions: Mostrem ao mundo o que é ser português

 

Briefing | Com que perspetivas partiram, o ano passado, para Cannes, depois de terem ganho a competição nacional?

Rita Almeida | Honestamente, o ano passado, sendo a terceira vez que nos qualificávamos para a final em Cannes, sentimos uma certa pressão adicional para sair de lá com o prémio. No primeiro e no segundo ano, afinámos estratégias e formas de trabalhar para, no ano seguinte, trazermos o leão para Portugal. Ainda assim, enquanto dupla e amigos, tentámos sempre tirar partido do “caminho”, aprender e divertimo-nos ao máximo a fazer uma coisa de que gostamos.

Diogo Vasques | Era a nossa terceira ida a Cannes e, se na primeira vez que ganhámos a competição nacional dos Young Lions o objetivo de ir ao festival uma vez na vida estava cumprido, nos anos seguintes a motivação era outra e passava por ter uma nova oportunidade de competir pelo Ouro na fase final. Acho que é algo natural, queremos sempre fazer melhor e superarmo-nos. Mais do que a pressão, até diria que existia principalmente uma vontade acrescida de provar que tínhamos o que era preciso para triunfar lá fora contra duplas de mercados com um nível de exigência e competitividade ainda maiores que o nosso.

Que ambiente encontraram em Cannes? Sentiram muitas diferenças face aos concorrentes de outros países?

RA | O ambiente de Cannes é uma coisa completamente à parte, só compreendida por quem vai ao festival. Tem uma vibe incrível, as pessoas são incríveis e para nós é absolutamente brutal estarmos perto dos maiores génios da publicidade, que tiveram aquelas ideias que aplaudimos toda a vida.

O grande catch da competição Young Lions é exatamente esse. São uma série de equipas, de culturas diferentes, backgrounds diferentes, indústrias diferentes, a resolver o mesmo briefing, a pensar sobre o mesmo problema de várias perspetivas. É essa a magia do jogo... as diferenças.

DV | Mesmo sendo a terceira vez que íamos ao festival e, apesar de já nem tudo ser novidade, a verdade é que é inevitável chegarmos ao primeiro dia ao Palais e pensarmos “Vai ser uma semana incrível". Costumo dizer que Cannes Lions é uma espécie de Glastonbury para publicitários e marketeers. Há vários “palcos", mil e uma coisas a acontecer. Desde talks a seminários com estrelas da indústria da publicidade e do marketing, mas também do entretenimento e do desporto, festas e sol patrocinados cada vez mais pelos gigantes tecnológicos como a Google ou o Facebook. Mas no fim do dia e acima de tudo, Cannes Lions é uma enorme celebração à criatividade nas suas mais diversas formas.

Em relação à competição Young Lions em concreto, o que vimos foi uma enorme diversidade ao nível das ideias apresentadas, com todos os participantes a utilizarem de forma inteligente as marcas para que trabalham enquanto profissionais para responderem ao briefing. Acho que o que possivelmente nos diferenciava dos outros concorrentes, mais do que o background, era a experiência acumulada das participações anteriores e o que aprendemos com os erros que identificámos e tentámos evitar o ano passado. Além disso, obviamente que também não somos os mesmos profissionais que éramos em 2015, quando participámos na primeira vez ainda éramos ambos trainees na Microsoft, os anos de carreira trouxeram com eles mais maturidade e uma bagagem adicional.

Houve obstáculos a superar? Quais?

 RA | Há sempre obstáculos a superar. Diria que os decisivos são tempo, ideia e capacidade de ser sucinto.

O desafio principal é, sem dúvida, ter uma boa ideia que 1) seja simples e 2) responda de forma natural ao briefing que nos é passado. Há que não complicar e pensar no cliente final. Qual o impacto que a ideia vai ter? É eficiente ou apenas uma ideia gira?

Gerir o tempo é a chave para uma boa performance e isto mistura-se com a dificuldade que muitas vezes temos em ser sucintos/objetivos na execução e explicação de uma ideia. 48 horas para pensar e executar é, sem dúvida, um tempo curto. Há que ser esperto a utilizar cada minuto. A verdade é que... se o júri demora mais de um minuto a perceber a ideia, se temos dificuldade em explicá-la, então há que pensar noutra coisa. Ser o mais natural e orgânico possível é a chave.

DV | Passa muito pelo que a Rita referiu. Acrescentaria só que trabalhar em equipa, especialmente em dupla, em contextos de grande pressão e com timings apertados, é sempre um desafio e torna-se crucial evitar que os egos se sobreponham ao espírito da competição e ao foco no objetivo. Eu e a Rita temos a sorte de já nos conhecermos há algum tempo e, apesar de termos as nossas divergências criativas e traços de personalidade, que por vezes chocam, a verdade é que no final somos capazes de ultrapassar tudo isso e colocar o melhor de cada um no trabalho que entregamos. Acima de tudo, existe uma confiança e respeito mútuo muito grandes entre nós.

Ganharam Ouro. O que significou esse prémio?

RA | Uma felicidade imensa. Uma realização pessoal e, enquanto dupla, brutal. Há muito tempo que queríamos isto e serviu para provarmos a nós próprios que somos capazes daquilo que queremos ser capazes. Quem quer faz acontecer, certo?

DV | Agora que olho para as coisas com um ano de distância acho que acima de tudo foi o culminar de um ciclo ao nível da carreira. Acho que acabou, pelo menos para mim, por ser um marco que atesta a minha evolução ao longo destes quatro anos e a capacidade de aprender com os erros.

Além disso, enquanto dupla, como disse a Rita, também foi muito recompensador alcançarmos juntos um objetivo que já almejávamos há algum tempo.

De que forma impulsionou a vossa carreira?

RA | A nível profissional, a verdade é que, no mercado português, pelo menos no que diz respeito à categoria de marketing, ainda existe um grande desconhecimento relativamente ao festival e ao que significa este prémio. Em agência, ganhar um prémio destes significa necessariamente um “salto” na carreira. Em marketing não é bem assim. Obviamente que tivemos visibilidade dentro das empresas em que trabalhávamos na altura e alguma visibilidade no mercado, mas isso não influenciou diretamente os nossos próximos passos a nível profissional. Diríamos que o impacto surgiu mais ao nível de pensarmos que existe um mundo de oportunidades e que temos capacidade para ir atrás delas, fazendo valer o nosso talento e capacidade de pensar e ser críticos.

 DV | A esse nível, a minha experiência foi muito semelhante à da Rita. É lógico que a distinção tem algum reconhecimento no meio, mas não tem o mesmo impacto que tem para um jovem publicitário em início de carreira. Efetivamente, o maior impulso é mesmo interiorizarmos que, ainda que existam fatores que não controlamos, os verdadeiros limites daquilo que podemos atingir são os que colocámos a nós próprios. 

Um ano depois, esse efeito ainda se sente?

RA | Um ano depois, continuamos a acreditar que com trabalho, esforço e fazendo aquilo que se gosta e aquilo em que se acredita, conseguimos o que quisermos. Vamos voltar este ano a Cannes e aproveitar o que de melhor este festival tem para nos dar. Este ano vai ser mais uma espécie de “retiro criativo”, repensar a carreira e reforçar a dose de força criativa para mais um ano.

DV | No sentido do que descrevi na questão anterior, sim. Todos nós temos momentos em que duvidamos de nós próprios e em que questionamos se estamos no caminho certo, é nesses momentos que nos devemos lembrar daquilo que já alcançámos e pormos em perspetiva as coisas. O sucesso passado não é garantia de sucesso no futuro, mas serve para nos lembrarmos de que se conseguimos uma vez, só dependemos de nós para voltarmos a triunfar.

E que conselho deixam às duplas que vão representar Portugal este ano?

 RA | Qualquer competição tem um propósito: ganhar. É por isso que lhe chamamos competição e não podemos ser hipócritas quanto a isso. Se ganhamos em Portugal, isso atesta o nosso valor e capacidade para nos fazermos valer numa competição internacional. Acho que a chave, pelo menos para nós (e alinhada com a nossa filosofia de vida), está em aproveitar o caminho. Tirar partido da oportunidade brutal que é competir em Cannes, perceber a maneira incrível como o cérebro humano funciona e nas coisas incríveis que a criatividade nos traz, tanto na vida como no trabalho. Por isso: foco no prémio, claro, mas “have fun while doing it”, porque isso reflete-se no resultado final.

DV | Não tenham receio de arriscar, de não ser consensuais. O risco de falhar é maior, mas o potencial de serem recompensados por isso também o é. Se possível, tentem mostrar um pouco do que é pensar português. Se os dinamarqueses “exportaram” o hygge porque é que, por exemplo, um júri internacional não há de compreender o que é a nossa filosofia do ‘desenrascanço’? Temos as nossas eternas contradições e eternos defeitos, mas acredito realmente que o mundo tinha uma outra coisa para aprender com a nossa forma de levar a vida.

Falo pelo que tenho visto na categoria de Marketing nos anos em que participámos, as ideias vencedoras foram quase sempre aquelas que souberam pegar num insight local e transformá-lo em algo que pode ser escalável e com que qualquer consumidor em qualquer ponto de globo se conseguiria relacionar.

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quarta, 05 junho 2019 12:41

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