Entrevistas

Saladas? O Nuno e a Vitacress querem que não sejam aborrecidas

Origem, inovação e conveniência são os eixos da Vitacress, que produz, por ano, cinco mil toneladas de saladas. O primeiro é – segundo o diretor de Marketing, Nuno Crispim – o mais importante: afinal é ali, no sudoeste alentejano, em Odemira, que estão as características peculiares responsáveis pela frescura das folhas. Os outros dois andam de mãos dadas: a empresa, que se afirma como 100% nacional, investe em agricultura biológica e em novas misturas, mas também em saladas-refeição, que são, aliás, o segmento que mais cresce. Tudo para que as saladas não sejam sinónimo de aborrecimento.

terça, 08 outubro 2019 11:57
Saladas? O Nuno e a Vitacress querem que não sejam aborrecidas

 

Briefing | A Vitacress está a desenvolver uma nova quinta, em Odeceixe. O que motivou a expansão?

Nuno Crispim | Surgiu da necessidade. Temos tido um crescimento muito significativo e estamos a rebentar pelas costuras, em termos de capacidade terra. É importante deixá-la descansar entre culturas, para isso é preciso espaço, quanto mais não seja para se conseguir manter a sustentabilidade.

Andámos à procura junto das nossas áreas de influência o que havia disponível… Não estamos a comprar a quinta, são espaços que alugamos com contratos muito longos e que depois adaptamos.

Referiu a sustentabilidade e, nesse âmbito, a empresa tem apostado na agricultura biológica. Quais as vantagens e desvantagens para uma empresa desta dimensão?

Na Vitacress, a agricultura biológica já representa duplo dígito, anda na casa dos 10/12%, mas tem crescimentos na casa dos 50%, ao ano. É, claramente, um tipo de agricultura em que os consumidores estão cada vez mais interessados.

Diria que a única desvantagem é que é dificílimo. Para dar uma ideia, depois de se plantar, não é possível colher 100% devido aos problemas de doenças, de todo o tipo de ordem... E as perdas em agricultura biológica podem andar nos 50/70%, e é isso que faz com que seja muito difícil. A apanha, geralmente, tem de ser manual, em vez de se usarem tratores, como fazemos noutro tipo de culturas.

É uma agricultura muito mais cuidada, com mais perdas, custos e mão de obra; no entanto, é parte da nossa responsabilidade social continuarmos a fomentá-la.

Temos uma nova tecnologia, que vai permitir que se consiga diminuir muito mais o desperdício e, com isso, aumentar a produção e reduzir os preços. É, sem dúvida, a maior aposta em termos de futuro.

Vale pouco mais de 10%, mas vamos triplicar a área dedicada a biológicos, nos próximos três ou quatro anos.

Além da aposta na tecnologia, como têm trabalhado a inovação, para responder às novas tendências de alimentação? 

A Vitacress tem dois ou três vetores de inovação. Um é o das misturas. O que mais vendemos são as saladas mistas com diferentes tipos de folhas; saem novidades todos os anos porque são introduzidos ingredientes especiais ou peculiares, como a salicórnia, a folha de mostarda, as acelgas, etc.. Dão-se a conhecer novos vegetais, para que comer salada não seja só uma grande seca e um aborrecimento.

Depois, tem-se entrado em novos segmentos. Há dois ou três anos, lançou-se as saladas já prontas – as saladas-refeição – com a gama "Minute". Este segmento já vale quase 20% da nossa faturação.

É o mais dinâmico do mercado, com um crescimento, este ano, na casa dos 90% - ano após ano duplica. Representa, também, uma área de grande investimento.

Investiu-se na fábrica para se conseguir produzir tudo aquilo que é pedido. Há uma sala dedicada para fazer este tipo de produtos, porque, há 60 anos que a Vitacress faz folhas; só há três anos é que se introduziram outros ingredientes, como o frango, o atum, o milho, os croûtons, as sementes. Foi disruptivo.

E o terceiro eixo é o dos biológicos versus orgânico. Como disse, vamos triplicar o espaço, nos próximos três anos, o que também é uma dificuldade, porque converter solo "normal" em solo para produção biológica demora três anos. Nesse tempo, cultiva-se em modo biológico, mas colhe-se e vende-se como se fosse convencional. Falamos de custos enormes e sem qualquer benefício, na prática.

Só ao fim de três anos de o solo estar a ser cultivado de forma orgânica, é que se pode dizer que o produto é orgânico e certificado.

No embalamento são gastos, por ano, 25 milhões de sacos. Têm alguma alternativa ao plástico?

Essa é uma questão que nos preocupa todos os dias.

O uso de plástico prende-se com o facto de a marca vender produtos lavados e prontos a consumir. Para dar segurança alimentar, em que a pessoa abre e pode comer de imediato, bem como ter alguma validade – não é extraordinária, os produtos têm entre os sete e os dez dias porque não são juntados conservantes –, não há, por parte da indústria, à data de hoje, alternativa. 

O que fazemos é reduzir ao máximo a espessura do plástico. É algo que não se vê, mas o saco que comprar hoje tem menos 30% de plástico que o comprado há dois anos.

Estamos sempre a trabalhar para reduzir a quantidade de plástico e encontrar alternativas. Elas existem, como o PLA e outras, mas ainda não estão num estádio de desenvolvimento à escala da empresa.

O consumidor pode não estar bem ciente e comprar uma embalagem de cartão, mas se é um produto que foi lavado, então esse cartão é plastificado e já não é reciclável. O nosso plástico é 100% reciclável, o que também não acontece com todos os plásticos que existem por aí.

Para já, e até haver uma melhor solução, é reduzir ao máximo e mantê-lo todo reciclável para, no fundo, conseguirmos gerir essa questão que muito nos preocupa; afinal, é a nossa cara.

Como se reinventa uma marca de alimentação com mais de 60 anos?

A empresa arranca em 1951, em Inglaterra, e a vender apenas vegetais. A vinda para Portugal prende-se com as dificuldades de cultivo, devido ao tempo. Nasce no País com a Quinta de Almancil [Loulé], que produzia agrião apenas para exportação. Era um centro de produção da empresa inglesa.

Depois, foi crescendo e, mais recentemente, há cerca de 15 anos, é que se começou a vender em Portugal com a marca Vitacress. A história Vitacress é recente, ainda assim temos vindo a apostar em novos segmentos, vegetais e tipos de cultura. Temos uma equipa de desenvolvimento de produto dedicada.

Apesar de o centro estar em Inglaterra, a operação portuguesa é completamente independente e desenvolvemos cá tudo, desde a escolha das sementes que vamos pôr no campo, à realização de testes para ver se certos vegetais se dão nos campos, a fazer as misturas e as combinações, a desenvolver o packaging e as artes, a colher, a lavar, a embalar, e a fazer chegar à distribuição moderna – o canal principal de venda.

Tudo é feito com 100% de autonomia e 100% local, com agrónomos, engenheiros alimentares e marketeers locais. Tudo local porque o negócio é muito diferente entre os vários países.

A marca Vitacress existe quase em exclusivo em Portugal e para os mercados onde se exporta alguma coisa – um dos vetores de crescimento para o futuro.

Quais os desafios que se impõem na comunicação de uma marca de alimentação?

Um dos principais desafios passa por ter uma marca tão jovem, com um awareness extraordinário, sendo que quase toda a gente conhece a marca Vitacress e associa a saladas, embora desconheçam que é uma empresa, há mais de 10 anos, 100% portuguesa. Pertence ao Grupo RAR, que adquiriu toda esta multinacional em 2008. Ainda há um certo desconhecimento de que somos portugueses e que os nossos produtos são cultivados no Alentejo – e um pouco no Algarve.

É um desafio na comunicação porque são atributos valorizados pelo consumidor, isto é, ele valoriza produtos que sejam nacionais. Trabalhamos para afirmar aquilo que a marca é, com transparência: uma insígnia nacional, uma empresa nacional e um produto nacional.

O outro desafio é a diferenciação, porque existe muita oferta deste tipo de produtos, nomeadamente das marcas de distribuição, e temos de explicar por que motivo os nossos são melhores e diferentes. Daí apostarmos em misturas diferenciadoras, com vegetais que não se encontram nos produtos da distribuição.

Finalmente, diria que, ainda assim, isto é um produto de nicho. Portugal é um dos países onde mais se consomem vegetais na Europa, no entanto, este mercado dos legumes lavados, embalados, prontos a consumir, é bastante nicho.

Aportamos conveniência, redução do desperdício, variedade, mas ainda é difícil fazer as pessoas transitar de um consumo mais tradicional de saladas.

O desafio é: vamos pôr o foco na salada e vamos transformá-la em algo interessante e diferente, além de nutritivo e natural.

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na edição impressa da Briefing.

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

bt nl

Assinatura Mensal
Edição MensalE-paper

Facebriefing

Melhores Briefing