Entrevistas

Verificar antes de partilhar: a visão de Fernando Esteves sobre as fake news

Prefere o termo desinformação a fake news e criou um jornal com o intuito de ser uma “espécie de Google da verdade”. Através do Polígrafo, Fernando Esteves entrou numa luta contra a informação falsa, e fala da forma como este inimigo das notícias pode afetar a sociedade, sobretudo, no momento em que o mundo atravessa uma pandemia. Torna-se também inevitável a referência às redes sociais, uma vez que são um terreno fértil para o crescimento e a propagação da desinformação.

quinta-feira, 25 junho 2020 12:38
Verificar antes de partilhar: a visão de Fernando Esteves sobre as fake news

 

Briefing | Estamos a passar por uma pandemia. O vírus também contagiou a informação à qual as pessoas têm acesso?

Fernando Esteves | Sim. Estamos perante, provavelmente, a maior praga de sempre de desinformação da história da Humanidade. Nunca como hoje circularam tantas informações falsas, nomeadamente, nas redes sociais. Muitas vezes, acabam por contaminar mesmo os media mainstream, os grandes outlets informativos, que, por terem tantas vezes pouco tempo para investigar, acabam por se deixar contagiar por informações não verificadas que provêm das redes sociais. O problema das redes sociais é exatamente esse: informações que são publicadas sem qualquer tipo de verificação, do ponto de vista metodológico, e sem triagem jornalística. Isso é um grande perigo, porque 60% da informação que as pessoas estão a consumir, hoje, sobre a pandemia da Covid-19 provém das redes socias. O ser humano está formatado para acreditar, há estudos que o comprovam. As pessoas, perante uma informação que lhes chega nas redes socias, em princípio, acreditam nela e o gesto seguinte à crença é a partilha. As pessoas estão a partilhar, até à exaustão, conteúdos que são falsos, são conspirativos e que em nada servem para informar da forma devida.

De que forma pode a desinformação, num momento como este, afetar a sociedade?

Pode afetar a sociedade de uma forma decisiva, porque estamos a passar por um período absolutamente crucial das nossas vidas. Eu costumo dizer aos jornalistas do Polígrafo que, daqui a 20 anos, quando olharem para trás nas suas carreiras, provavelmente, vão identificar este momento como o mais marcante e, provavelmente, nós, enquanto cidadãos, também iremos identifica-lo como um dos mais críticos que vivemos. Sendo este um período tão crítico, era importante que a informação fosse o mais rigorosa possível, para nos ajudar a tomar as melhores decisões no dia a dia. Infelizmente, esta praga da desinformação, que tem varrido as redes sociais de um lado ao outro do mundo, não tem ajudado. Pelo contrário, tem prejudicado imenso, tem semeado a ignorância, a conspiração e a incapacidade para compreender o mundo em que vivemos, e isso é uma catástrofe. A mentira circula a uma velocidade muito superior à verdade. O Mark Twain já dizia que “mais depressa uma mentira dá a volta ao mundo do que a verdade calça as botas para ir apanha-la”. E isto tem acontecido neste fenómeno da Covid-19, sem dúvida alguma.

Comparando, por exemplo, a altura das eleições ao momento atual, o que mexe mais com as fake news: a política ou a saúde?

A política e a saúde são duas áreas de excelência para os produtores de desinformação. Eu prefiro não utilizar o termo fake news, porque, de facto, uma fake news é uma não existência. Uma notícia, para ser notícia, tem de ser verdadeira, portanto, uma fake news não é nada, e é importante que isso se perceba. Em relação à pergunta propriamente dita, quer a política, quer a saúde são áreas apetitosas – digamos assim – para os produtores de desinformação. A política porque molda consciências, comportamentos, sentido de voto e acaba por condicionar os destinos de um país, de uma câmara municipal de uma cidade, etc.. Existem interesses opostos, como é evidente, e a política, na área das legislativas, foi muito avaliada pelo Polígrafo, houve muito desinformação. O Polígrafo, como sabe, teve um programa diário de televisão, na SIC, onde todos os dias nunca nos faltou material. Existem produtores profissionais de desinformação que ganham dinheiro a propagar mentiras. As mentiras geram muito mais tráfego do que a verdade, e o tráfego, na Internet, traduz-se em dinheiro e em publicidade. Portanto, há muitas pessoas sem escrúpulos, atualmente, que ganham pequenas fortunas a espalhar mentiras. Isso aconteceu muito na altura das legislativas e está a acontecer agora muito também com a Covid-19, como já acontecia com outras temáticas da saúde. Há movimentos muito fortes nas redes sociais, por exemplo, os movimentos anti vacinas são uma das maiores pragas que existem nas redes sociais.
Eu diria que a saúde e a política são, claramente, as duas áreas que mais desinformação geram, em todo o mundo, dependendo dos momentos: a saúde, numa lógica de continuidade, com picos nos momentos em que existem pandemias, e a política também na mesma lógica, com picos nos momentos eleitorais.    

Numa perspetiva a longo prazo, considera que este fenómeno terá tendência a aumentar ou a diminuir? Porquê?

Penso que a desinformação terá tendência para aumentar, claro, porque as redes socias vieram para ficar e os mecanismos cerebrais que levam à partilha não vão alterar-se, de um momento para o outro. A minha esperança é que decorram aqui dois fenómenos em paralelo: por um lado, que a literacia mediática se eleve. É fundamental as pessoas perceberem, cada vez mais, a sociedade e o mundo em que vivemos, e ganharem os meios e os instrumentos para perceberem as informações com que estão a ser impactados. Isso é um processo nuclear que a própria Comissão Europeia já diagnosticou e uma área na qual está a investir muitos milhões, junto de todos os governos. Por outro lado, um processo paralelo de conceber instrumentos tecnológicos, no domínio da inteligência artificial, que nos permitam detetar mais rapidamente a origem de uma falsidade e limitar a sua partilha. Porque, de facto, a partilha em massa é que faz toda a diferença. Já estão a ser estudados uma série de mecanismos, no mundo inteiro. Já existem alguns robots que permitem detetar, quase em tempo real, falsidades que são disseminadas na rede e tem sido possível travá-las, embora ainda não com a rapidez com que pretendemos.  

O Polígrafo nasceu há cerca de um ano e meio. Que balanço faz deste período?

É um balanço extremamente positivo. O Polígrafo ganhou o seu lugar no ecossistema mediático português. É um jornal totalmente diferente de todos os outros e penso que essa é a natureza do seu sucesso. Por um lado, o facto de ser manifestamente diferente e, por outro, o facto de ter conquistado, por mérito próprio, um capital de confiança brutal por parte dos seus leitores, com quem tem uma relação muito cúmplice. Nós fazemos muito do nosso trabalho a pedido, a solicitação dos nossos leitores. Quando lancei o jornal disse que gostaria que fosse uma espécie de Google da verdade, ou seja, gostaria que as pessoas quando tivessem dúvidas sobre um assunto qualquer, em vez de digitarem no google, que nos procurassem e que nos enviassem um e-mail e nós faríamos esse trabalho por elas. E isso, efetivamente, tem acontecido. Todas as semanas recebemos centenas se não mesmo milhares de mensagens de leitores a pedir-nos para verificarmos informações. Infelizmente, não conseguimos satisfazer todos os pedidos, mas, na medida das nossas possibilidades, temos tentado contribuir para ter uma sociedade mais aberta, mais transparente e mais frequentável. Julgo que temos, por isso, cumprido o nosso papel.

 

OITO CONSELHOS CONTRA A DESINFORMAÇÃO

  1. Saber os básicos sobre a doença é meio caminho andado para descartar algumas das publicações falsas que circulam nas redes. Devem consultar fontes de informação seguras, nomeadamente, os sites da Direção-Geral da Saúde (DGS) ou da OMS, ou os jornais de referência, que têm meios de verificação de informação rigorosos e profissionais.

  2. Devem afastar-se das teorias da conspiração. Elas circulam de forma profusa, apontam culpas para esta pandemia, arranjam bodes expiatórios. Na realidade, não há uma pessoa, um grupo, um partido, ou um país que seja responsável pela Covid-19. As epidemias podem ter um enorme número de causas e nenhuma delas tem motivações políticas. É o caso, obviamente, desta e, no entanto, existem tantos utilizadores do Facebook, do Twitter, e até do Instagram que partilham as teses mais mirabolantes.

  3. Verifiquem as imagens e os vídeos e confirmem os números que são apresentados. O “ver para crer” pode não se aplicar às redes socias, porque, em situações de crise, muitas imagens publicadas são descontextualizadas e enganadoras: podem ser vídeos e fotografias antigas que estão a ser identificadas como atuais, ou até imagens que não têm qualquer relação com a epidemia, mas que surgem associadas à Covid-19.

  4. Não partilhar métodos alternativos de prevenção e de cura. Podem pensar que estão a ajudar os outros, mas, na verdade, estão a colaborar na dispersão de informação errada.

  5. Devem manter-se a par das descobertas sobre o vírus e, para isso, devem consultar a informação mais rigorosa sobre o assunto.

  6. Devem questionar-se: ‘quem criou esta publicação?’, confirmar em que sites está publicada a informação e se é uma página fidedigna. A origem de informação é dos principais fatores a ter em conta, na luta contra as fake news. É necessário procurar secções ‘sobre nós’, investigar o autor do texto e, se for anónimo, procurar outras fontes para confirmar informação. É também importante observar-se o link, muitas das páginas fraudulentas apresentam links estranhos e que, em alguns casos, nada têm a ver com o que se está a ler.

  7. Tentar perceber que mensagem está a ser passada. Se é uma informação que não se consegue encontrar em mais lugar nenhum é, provavelmente, mentira. É necessário procurar o mesmo assunto numa outra fonte e dar primazia aos meios de comunicação oficiais.

  8. Devem interrogar-se porque é que aquela publicação com que estão a ser impactadas foi criada. Depois de perceber a origem e a razão da mensagem, é importante perceber a motivação: podemos estar perante um conteúdo patrocinado, em que o autor foi pago, ou pode ser um conteúdo com motivações políticas. É preciso ter isso em consideração antes de fazer uma partilha.

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quinta-feira, 25 junho 2020 16:28

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