Entrevistas

José Alberto Carvalho: “Não divulgo escutas ilegais”

jos_alberto_carvalho_p.jpg
Falar de serviço público de televisão e de rádio já não faz sentido, garante o director de Informação da RTP. José Alberto Carvalho prefere o termo serviço público de media, numa altura em que os media tradicionais estão a perder relevância. Não teme pela qualidade do jornalismo em Portugal, apesar das débeis condições financeiras dos grupos de comunicação, e recusa a publicação de escutas ilegais, mesmo aquelas que envolvem o Primeiro-ministro.
terça-feira, 15 dezembro 2009 07:57


FM | Se a televisão tradicional está a perder influência faz sentido pagar por um serviço público de televisão?
JAC
| A televisão tradicional está em declínio de influência, isso é uma evidência em todo o mundo. Colocam-se várias questões. Como assegurar a mesma missão numa paisagem e num cenário de comportamentos individuais e colectivos totalmente diferente do passado? No caso da RTP, como assegurar a missão de serviço público? Não tenho respostas cabais neste momento, mas tenho dificuldade em falar, hoje em dia, de um serviço público de rádio e/ou televisão. O serviço público terá de ser qualquer coisa como um serviço público de media, porque as pessoas comportam-se de maneiras completamente distintas do passado.

FM | Estamos perante o fim do primado da televisão?
JAC |
A influência da televisão vai continuar a manifestar-se de uma forma esmagadora nos grandes acontecimentos, nas grandes cerimónias e nos grandes eventos. A televisão tem uma força agregadora que não é substituível por nenhuma outra forma de comunicação. Falo de televisão enquanto sinónimo de vídeo, do poder da imagem em movimento, não necessariamente a televisão como nós nos habituámos a imaginá-la, um fluxo de programas de várias naturezas que surge numa caixa colocada estrategicamente em nossas casas. Isso eu tenho a certeza absoluta que está a mudar. Agora o poder do vídeo, enquanto agregador, é imenso e vai continuar…

FM | Acha que ainda faz sentido pagar uma taxa de televisão e de rádio?
JAC
| Acho curiosa essa interrogação porque, por exemplo, as pessoas pagam para verem televisão com publicidade em Portugal e pagam em todo o mundo. As pessoas querem ver mais televisão, pagam, subscrevem uma das plataformas de ipTV ou cabo ou satélite. Esses canais financiam-se das duas maneiras, através do fee, que é pago pelos clientes, e através da publicidade. Não sou dogmático, acho que essa discussão está permanentemente em aberto e deve estar permanentemente em aberto

FM | Mas há também os canais generalistas em sinal aberto…
JAC |
É verdade. Nesses canais encontramos 12 minutos de publicidade por hora e uma lógica de programação necessariamente distinta daquela que é oferecida pela RTP.

FM : As diferenças são assim tão significativas?
JAC :
A RTP é a estação que apresenta uma maior diversidade de géneros jornalísticos em antena. Não há debates em canal aberto. As pessoas, para verem debates nas televisões comerciais, têm de pagar para ter acesso ao cabo. O mesmo acontece com programa de grande entrevista de actualidade. Em cada dia, o universo RTP produz vinte e duas horas e meia de informação nos nossos canais.

FM | Mas a grelha da RTP e dos outros canais generalistas é muito semelhante ao longo do dia…
JAC:
Se alguns dos canais privados decidiram seguir algumas das lógicas e estratégias de programação da RTP em relação a isso eu não posso dizer nada a não ser constatar.

FM | Julga que as escutas que envolvem o Primeiro-Ministro no caso Face Oculta deveriam ser divulgadas?
JAC |
Se a decisão do poder judicial for considerar essas escutas como válidas, elas devem ser divulgadas, se a decisão do poder judicial for considerar essas escutas como ilegais ou não válidas elas não devem ser divulgadas.

FM | Mas compreende o interesse jornalístico das escutas…
JAC |
Os jornalistas não podem, num momento, invocar a defesa do estado de direito e do cumprimento das leis e, no momento seguinte, ignorar o cumprimento das leis e dizer: os agentes legais consideram isto ilegítimo e ilegal mas mesmo assim a gente pública. Isso seria uma esquizofrenia.

FM | Se tivesse tido acesso às escutas, publicava-as?
JAC
| Se elas forem ilegais, não. Se a publicação acontecer, como infelizmente provavelmente vai acontecer, haverá consequências políticas e eu não poderei e não quero ignorar as consequências políticas de uma coisa destas. Mas não farei nada no sentido de tomar a iniciativa de divulgar algo que o poder judicial considerou ilegal ou ilegítimo.

Leia a entrevista completa na edição impressa do Briefing de Dezembro, que chega hoje aos assinantes.

bt nl

Liga-te com o Coração

À Escolha do Consumidor

Edições Especiais

Assinatura Mensal
Edição MensalE-paper

Facebriefing

Melhores Briefing