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A rádio é importante (ponto).

 A rádio é importante (ponto).Este ano, a propósito do Dia Mundial da Rádio, decidi pensar sobre a razão pela qual a rádio é (ou continua a ser) importante. Porque é que a rádio é importante? Por tudo. Porque é, simplesmente, a rádio.

sexta-feira, 13 fevereiro 2015 12:22

Quem me acompanha e lê os artigos que aqui publico sabe que sou uma apaixonada e defensora do meio. Mesmo quando posso parecer uma conservadora empedernida, por força de tantas outras coisas, ou que divago e faço ficção científica quando falo do futuro que, na maior parte das vezes, é o presente, o princípio é a rádio. Independente desta ou outras ilações, sou da rádio. Da que nos fala ao ouvido, que nos surpreende e faz a concorrência estremecer. Também sou pela alternativa e erudição, tantas vezes perdidas em projectos que não saem do papel, os que são nados mortos e outros tantos, algures num éter que ninguém ouve.

A maioria, essa grande maioria, pensa que ouvir rádio é fácil. Que é só ouvir. Mas, ouvir, não é apenas sentir os sons pelo ouvido. Ouvir, no sentido da percepção, implica atenção e, essa, é cada vez mais difícil de conquistar. É para esses que tantos - mais ou menos felizes, contrariados ou resignados - fazem rádio. A rádio da bonomia, do modelo testado. Eu gostava que a radio fosse diferente. Mas não é. É uma rádio que, mais do que arte, é negócio. Uma rádio de ouvintes pouco exigentes. E é, também, para estes ouvintes que vamos trabalhando, até ao dia que uma certa imensa minoria, que ouve rádio porque gosta de ter alguém com algo interessante para dizer, se transforme numa imensa maioria. Que o faça todo o dia, todos os dias, e não apenas nas manhãs da grande notoriedade. Que aumente o volume da rádio para que esta deixe de ser um ruído de fundo. Nada me deixa mais triste do que pensar nos que estão do lado de cá, empenhados em fazer algo para quem está do lado de lá e que os considera, tão somente, ruído de fundo. Algo que toca para preencher o vazio.

Porque é que a rádio é importante?

Apesar de tudo, ainda pertenço a uma geração que cresceu a ouvir música na rádio. A gravar programas e a trocar mixtapes as quais, algures, teriam jingles e excertos de promos ou indicativos das nossas estações de rádio preferidas. Também sou da geração MTV, mas não era a mesma coisa. Tenho muitos amigos que, durante anos, falavam comigo fazendo referência ao vídeo e, depois, à música. Ouviam rádio de forma instrumental, para obter o que a televisão não lhes dava e, sem saberem, deixavam-se seduzir por esse lado mais emocional que, ainda hoje, nenhum outro meio ou sistema de comunicação consegue imitar.

A rádio é um elemento estrutural e estruturante nas nossas sociedades, presente na vida das pessoas de forma gratuita e, sem interrupções, organiza e acompanha os nossos dias enquanto desempenhamos outras actividades. O lado mais discreto da rádio - embora actualmente bastante devassada por força da digitalização, das ferramentas digitais e da cultura visual que estas vieram consolidar - é simultaneamente um dos segredos do seu sucesso. Porque mesmo quando aparentemente conhecemos o Pedro ou a Joana, porque vemos as suas fotografias e vídeos espalhados nos sites de redes sociais, quando nos falam, são apenas uma voz intimista que se liga a nós de forma indelével. Esse lado mais discreto tem sido, igualmente, o que tem permitido à rádio evoluir tão rapidamente no contexto digital, numa simbiose perfeita com a Internet e o paradigma digital, criando uma projecção como nunca teve e complementando, para aqueles que o queiram, a sua mensagem tão fugaz.

Numa sociedade tão imediata e visual, a rádio ainda é o meio que mais estimula a nossa imaginação, que estabelece a ligação, única, entre indivíduos, criando uma ideia de consciência colectiva. Por isso - também por isso - não raras vezes se destaca o lado mais democrático da rádio, pelo seu potencial para estimular a cidadania e participação democrática. É o meio da proximidade, aquele que mais facilmente nos liga a uma comunidade pela sua grande capacidade de articulação social e que, no momento actual, faz a ligação entre os formatos mediáticos tradicionais e a comunicação digital pelo fenómeno de credibilidade, presença e companhia que lhe está associado, bem como pela sua penetração social.

Na verdade, o digital pode ser acusado de ter roubado magia à rádio, mas não é por isso que esta deixa de ser importante. Pelo contrário, o segredo agora é saber como manter a rádio relevante na intensidade dos ecrãs dos mais variados dispositivos sem perder a faísca. Um certo je ne sais quoi que nos faz sempre voltar à rádio.

segunda-feira, 16 fevereiro 2015 10:50

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