Media

TV comercial vai passar por grandes modificações, diz Paquete de Oliveira

José Paquete de Oliveira

Em jeito de balanço, para José Paquete de Oliveira, sociólogo e ex-Provedor da RTP, a SIC e a TVI “estabeleceram-se como importante e eficaz alternativa”. O sociólogo acha que, para o futuro, “o mercado global nos cenários gerais da economia, e sobretudo no segmento específico dos media, irá ‘revolucionar’ (o que já está a acontecer) o panorama dos media”.
quinta-feira, 06 outubro 2011 11:28


Briefing | Que balanço faz dos 19 anos de televisão privada em Portugal?
José Paquete de Oliveira | O surgimento da televisão privada, há 19 anos, para além de tudo o mais, assinalou o marco indispensável para a efectiva liberalização do espaço de livre opinião e livre concorrência que, numa democracia, deve estar garantido para a existência da liberdade de informação e da liberdade de empresas com diferentes objectivos. Além disso, as televisões privadas puseram fim a um monopólio de Estado, que não obstante o papel e importância da acção desenvolvida pela RTP, é sempre um dado positivo e de valor acrescentado para as democracias e os cidadãos. E nestes aspectos fundamentais, SIC e TVI foram decisivas. Por outro lado, vieram oferecer um leque de opções à escolha dos consumos por parte dos telespectadores muito mais vasto e diferenciado. Numa primeira fase, o papel da SIC foi decisivo para alterar o paradigma da informação televisiva, constituindo-se em contraste fortemente distinto que era marcado por um estigma de informação tida como “oficiosa” e institucional. Igualmente, no capítulo dos conteúdos (reportagem, entretenimento, etc.), SIC e TVI estabeleceram-se como importante e eficaz alternativa.

O que podia ser melhor?
É evidente que não cabe aqui uma análise mais pormenorizada deste percurso de dezanove anos, com transmutações gritantes, quer nas estratégias dessas estações, quer no panorama geral da televisão ao nível internacional e global. Aliás, julgo que este inquérito ao contar dezanove anos, está apenas a tomar em conta as estações, em sinal aberto, SIC e TVI, pois se introduzirmos a questão das televisões por cabo, este discurso terá de ser diferente. Como “antenas” comerciais, essas estações não ficaram alheias às condições e especificidades de uma forte concorrência comercial, entregue aos ditames do mercado e às reacções emocionais e frágeis de um público consumidor que, em televisão generalista, tem gostos e caprichos difíceis de padronizar relativamente à qualidade dos “produtos”. Assim por exemplo, e para não me alongar, a “entrega” excessiva às novelas (que tornam algumas dessas estações “monotemáticas”), e aos fenómenos de “bigbrotherização”, e à informação marcadamente especulativa e sem o enquadramento adequado, o papel destas estações poderia ter um escalão mais apreciável em patamares de qualidade e diversidade. Mas, neste ponto, até acho que a maior responsabilidade cabe aos consumidores. Contudo, é de salientar a “revolução” que provocaram numa informação sobre a sociedade mais transparente e nas novelas como contribuíram, de modo decisivo, e provavelmente sem a compensação ainda reconhecida, para a criação de um escol de actores e autores, de primeira grandeza.

Por onde passa o futuro da televisão privada?
Não sei se a primeira grande mudança terá de ser no conceito. Ou seja, fala-se de “televisão privada” em confronto (histórico) com “televisão pública”. No mercado aberto, o futuro da “televisão comercial” vai passar por grandes modificações, impostas pela mudança dos paradigmas na ordem da produção e distribuição dos “conteúdos”, pelos factores tecnológicos e pela fragmentação dos públicos e audiências. Também estes numa transformação enorme. Provavelmente, o mercado global nos cenários gerais da economia, e sobretudo no segmento específico dos media, irá “revolucionar” (o que já está a acontecer) o panorama dos media.

Há espaço para mais televisões privadas em sinal aberto?
Se há dezanove anos, no contexto de um mercado português, económica e financeiramente, já era uma temeridade, hoje, num contexto de crise económica e financeira, à escala nacional e internacional, em termos de rentabilidade a viver com o financiamento da publicidade, não parece haver espaço. Mas, em Portugal, parece que se criam media com outros fins, sem encarar prioritariamente o negócio comercial. Há outros fins como têm sido pródigos os exemplos no campo dos media. Seja como for, o mercado e a concorrência são livres, não é?

Fonte: Briefing

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