Media

Na era das fake news, afirmar a qualidade e independência, diz Gonçalo Reis

"É necessário afirmar os valores e as práticas do jornalismo de qualidade e os seus valores de independência, diversidade, tolerância, moderação e inclusão". Palavras do presidente da RTP, Gonçalo Reis, na abertura da conferência que a estação organiza esta sexta-feira, em Lisboa, para debater "O futuro dos media – Jornalismo e serviço público na era digital".

sexta, 20 outubro 2017 12:55
Na era das fake news, afirmar a qualidade e independência, diz Gonçalo Reis

 

Gonçalo Reis entende viverem-se momentos desafiantes no setor, de alterações profundas, mas também de riscos e oportunidades. "Tudo está a mudar muito rápido", diz. "Há novos players, que disputam o caminho connosco, que não imaginávamos há alguns anos". Mas acredita que é precisamente nestas alturas – "em que proliferam as fake news, um ambiente de pós-verdade, ameaças de populismo", para além da proliferação de novos meios e plataformas – que se deve parar para pensar.

"É nestes momentos que vale a pena afirmar os valores dos media de qualidade", afirma. Altura também para assumir a RTP não apenas como produtor de conteúdos, mas como um agente ativo do setor, que deve promover a reflexão.

Apesar das alterações profundas nos hábitos de consumo de comunicação vividas nos últimos dez anos, "as grandes marcas de informação continuam a marcar a agenda mediática”, afirma o jornalista Manuel Falcão. Nota que existiram sempre formas de comunicação solitárias: hoje ver a informação no telemóvel, mas também ler um jornal. “Não penso que seja um problema”, observa. Aponta o caso do New York Times e do Washington Post como “casos exemplares” de como a tecnologia pode melhorar a diversificação, assim como o caso da HBO e de algumas produções da Netflix.

O professor de media no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa Gustavo Cardoso indica, a existência de “um campo para a regulação, para que Google, Netflix e Facebook não se tornem monopólios". Entende que, neste desafio, a televisão tem a vantagem de ser feita por ecrãs, mas que tem que perceber que comunicação é dar o que o público quer, mas também o que ele não procura. Considera que a TV tem grandes possibilidades de acompanhar a mudança. "As pessoas fazem browsing e zapping", sustenta.

 Já para o administrador da RTP Nuno Artur Silva, é urgente perceber que o mercado não traz diversidade: "Se a única procura for a do lucro, o que não der fica ausente do espaço mediático". Sugere, pois, a necessidade de haver especialistas que garantam a veracidade das notícias e de mecanismos para a defesa do jornalismo, designadamente financeiros.

“O jornalismo está condicionado pela pressão de fazer negócio”, motivo pelo qual proliferam o futebol, os fait divers e os escândalos, acrescenta. “A força das marcas é a comunidade que gera à volta dela. “Estamos a perder o hábito de ir à praça central”, diz, – com “consequências para o debate democrático”. Essa é, aliás, uma questão essencial, segundo o sociólogo francês especialista em Ciências da Comunicação, Dominique Wolton: passar da comunidade – que partilha os mesmos valores – à sociedade – heterogénea.

O administrador da RTP defende que o movimento atual mais interessante é a revalorização do papel do serviço público. Até porque, diz, percebeu-se que "a autoregulação não funciona". E ao serviço público cabe a defesa da diversidade nos media. “O bom jornalismo é sempre serviço público. É nos destaques, na prioridade dos meios que se faz a diferença entre serviço público e privado”, acrescenta.

O jornalista Manuel Falcão confirma: no último ano a RTP tem-se distinguido um pouco dos privados, a nível da diversidade dos telejornais, de alguma contenção na cobertura das catástrofes e na redução do tempo dos telejornais.

Questionado pelo moderador, o diretor adjunto de informação da RTP, André Macedo, sobre se, havendo operadores privados interessados nos direitos televisivos dos jogos de futebol, faz sentido a estação pública investir, Nuno Artur Silva afirma que sim, "porque quer ser a televisão de todos os portugueses".

Dominique Wolton refere que o custo é muito elevado. A sugestão é que poderia ser regulado. “O mercado não consegue fazer tudo. É a tirania da finança”, comenta.

Já Gustavo Cardoso acredita que o serviço público deve ser pensado enquanto o valor que cria e deixa a pergunta: "temos capacidade de, com as marcas que temos, competir com as marcas globais?"

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sexta, 20 outubro 2017 16:35

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