O ano de 2026 será marcado pelo momento em que deixaremos de tratar a transformação digital como um tema isolado, para passarmos a colocá-la no lugar certo: o de pilar estratégico do negócio.
Para que as marcas se tornem mais inteligentes e impactem mais nos seus negócios, esta disciplina deixará de ser um projeto, um departamento ou uma iniciativa para se tornar na forma natural como as empresas pensam, operam e competem.
A partir do próximo ano, as empresas entrarão numa nova fase da transformação digital que não se mede em ferramentas, mas sim em visão, inteligência e capacidade humana. O futuro dos negócios será moldado por cinco grandes acelerações que, juntas, vão redefinir como pensamos, criamos, nos relacionamos e lideramos. Estas forças não surgirão isoladas. Pelo contrário, combinam-se, alimentam-se mutuamente e exigem novas formas de agir. E o grande desafio das organizações será saber orquestrá-las de forma estratégica.
A primeira grande aceleração, e talvez a mais determinante, será a consolidação da Inteligência Artificial (IA) generativa como motor criativo e operacional das empresas. Deixarão de existir fronteiras claras entre criação humana e criação assistida por IA. A tecnologia passará de automatizadora a cocriadora, capaz de gerar conceitos, produtos, campanhas, conteúdos e até protótipos de modelos de negócio a uma velocidade impossível para qualquer equipa sem este apoio.
Nos próximos anos, a IA será a força que liberta o talento humano para o que verdadeiramente cria valor: pensamento crítico, visão integradora e capacidade de interpretar o que as máquinas produzem. A automação será apenas o início – a aceleração estará na criatividade ampliada.
Mas esta evolução da IA só revelará o seu poder total quando conectada ao segundo grande movimento: o surgimento de plataformas omnicanal inteligentes. Estamos a passar de canais alinhados para ecossistemas vivos, auto-otimizados e aprendentes. As marcas deixarão de simplesmente “estar” nos canais digitais e passarão a “ser” relevantes em cada ponto de contacto – com mensagens, experiências e recomendações ajustadas em tempo real. Este novo omnicanal é o que permitirá que a IA generativa deixe o backoffice e passe para a linha da frente da experiência do cliente, transformando intenção em ação, dados em relação e interação em conversão.
Esta dinâmica impulsiona um terceiro movimento inevitável que é a democratização da inovação através de plataformas low-code e no-code. A partir de 2026, a inovação deixará de ser uma função e tornar-se-á uma competência transversal.
Equipas de negócio do marketing, operações, vendas e produto, ganharão autonomia para desenvolver soluções rápidas sem depender dos ciclos longos do IT. Assim, a velocidade que a IA imprime à criação exige que as empresas possam testar, iterar e corrigir quase em tempo real, e só o low-code/no-code dará às equipas esse poder. As estruturas mais rígidas vão simplesmente ficar para trás.
Do anterior resulta um quarto fenómeno: o avanço da economia da personalização total. Não estamos a falar da personalização tradicional, mas antes de experiências adaptativas, onde produtos, serviços e conteúdos se moldam ao comportamento, ao contexto e, cada vez mais, à emoção de cada indivíduo. A tecnologia deixará de perguntar “quem é o cliente?” e passará a perguntar “quem é esta pessoa, neste momento?”. As marcas que conseguirem responder a esta pergunta serão impossíveis de substituir, porque a relação deixará de ser transacional e passará a ser profundamente humana e emocional.
E é precisamente aqui que entra a quinta aceleração, e aquela que, no final, determinará quem vence: a evolução do talento digital. O impacto das quatro primeiras acelerações dependerá totalmente da capacidade humana de as interpretar, liderar e transformar em valor.
O talento dos próximos anos precisará dominar novas linguagens (dados, IA, automação), mas também competências que nenhuma máquina substituirá: pensamento crítico, criatividade aumentada, empatia, adaptabilidade e liderança de mudança. A tecnologia permitirá fazer mais, mas só as pessoas certas permitirão fazer melhor.
Entre 2026, estas cinco forças vão operar como peças cruciais de um mesmo mecanismo onde a IA generativa alimentará a criatividade, as plataformas inteligentes converterão essa criatividade em experiências relevantes, o low-code/no-code acelerará a execução, a personalização total reforçará o vínculo com o cliente e, finalmente, o talento preparado será o que dará sentido, direção e propósito a tudo isto.
Cátia Simões, EU Digital Transformation Lead na Viatris

