A Arruada sopra dez velas

A Arruada, agência no setor da música que desenvolve estratégias com artistas ao nível do management, booking, produção e comunicação, celebra dez anos de atividade. A Briefing falou com o fundador, Pedro Trigueiro, sobre o balanço do trabalho desenvolvido e quais os planos para o futuro da agência que – diz – se destaca pela utilidade.

A Arruada sopra dez velas

Briefing | Como surgiu a ideia de criar a Arruada?

Pedro Trigueiro | Foi um misto de empreendedorismo aventureiro, arrogância de gosto e uma consequência natural de um caminho pessoal, pelo facto de estar ligado desde cedo à música. Comecei como músico de garagem, consumidor compulsivo de música (gravada ou ao vivo), passei pelo jornalismo musical, entrei numa editora multinacional (Universal), no departamento de Promoção e Marketing. Todos os fatores levavam a que ainda faltassem partes do processo de 360º sobre o que é isso da música. Faltava management, agenciamento, produção de espetáculos. Faltava encontrar um gancho para efetivar esse processo e os Buraka Som Sistema terão sido esse leitmotiv para sair da multinacional e abraçar o management deste “bulldozer”.

Em que difere a Arruada das outras empresas do setor?

O princípio da utilidade. Os lucros são fatores decisivos, até mesmo para crescimento da equipa (somos oito, no momento) mas, além da componente financeira, é preciso perceber se somos úteis ao desenvolvimento da carreira de um artista ou de um festival. Temos uma estrutura que providencia vários tipos de serviços (management, agenciamento, produção e assessoria) e, com essas armas, percebermos, em conjunto com os artistas, se as forças unidas poderão ou não fazer a diferença.

Qual o balanço que faz dos últimos dez anos de trabalho?

É interessante como nunca conseguimos atingir o planalto. A evolução é constante, os desafios sucedem-se. A indústria da música é um camaleão por natureza. Uma estratégia digital em janeiro de 2024 estará quase de certeza ultrapassada em julho de 2024. É uma indústria que “não chora” o subsídio, que tem muito empreendedorismo na internacionalização, que tem muito presente que os ordenados médios não nos permitem uma bilhética alta. Esse permanente estado de alerta sobre o que está acontecer é um desafio muito demolidor e viciante.

Como é que a nomeação para prémios, como os Grammy Latinos, tem impulsionado o seu trabalho?

É um dano colateral. A produção executiva de um álbum está subjacente a quem trabalha management de artistas. Não dá para dissociar. Estaremos lá sempre na sala quanto mais não seja para sermos mais um par de ouvidos a escutar e sugerir a correção de uma conjugação verbal de uma letra de uma música. Para providenciar o brainstorm sobre a dúvida se aquela guitarra elétrica soa mesmo bem. Assim como foi a produção executiva do documentário de Buraka Som Sistema. Jamais me tinha imaginado a rever takes madrugada fora com o brilhante realizador João Pedro Moreira, mas aconteceu. Mas no fundo, essas nomeações não alteram em nada o dia a dia de trabalho.

Em 2022, lançou a Arraial, uma agência de consultoria de comunicação cultural. Como tem sido a receção por parte do setor?

Como se diz no Brasil “metemos muita pilha” na Arraial. A assessoria dos artistas Arruada já acontecia há anos, assim como a parceria com festivais como o Cooljazz, ID No Limits, Lisboa Dance Festival, Parkbeat, ou mesmo o que fazemos há oito anos no Teatro Aveirense (Novas Quintas), com uma parceria muito sólida com a direção, em que trabalhamos novos talentos com uma comunicação pensada para o território nacional. Falta percorrer ainda muito terreno, falta o mercado perceber que a Arraial não é a Arruada, e isso cabe-nos a nós explicar com factos, com trabalho.

Quais os planos para a próxima década?

O mundo debateu-se com uma crise totalmente inopinada que foi a pandemia. O setor da cultura, em específico da música, pura e simplesmente não trabalhou. Os criativos conseguiram, mas toda a componente operacional não trabalhou. Isso quer dizer que planos são sempre bem vindos, sonhos também, mas não temos a certeza de resultados. O futuro é debatermo-nos com a redimensão de artistas, a criação de novas carreiras, ou como elevar o patamar a todos os níveis de um Coreto Arruada NOS Alive, que é algo que nos é muito querido na parceria desde 2017 com a Everything Is New. Que nunca seja dito no escritório “isto sempre foi feito assim”, porque os desafios são diários e esse é o melhor plano para a próxima década: mais e melhor.

Simão Raposo

Terça-feira, 23 Janeiro 2024 11:16


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