A opinião de… Sofia Vieira

“Conteúdos on-demand e redes sociais crescem, mas estão longe de ameaçar a reputação dos media tradicionais”. Esta é a visão da diretora de Insights & Strategy da Havas Media Network.

A opinião de... Sofia Vieira

Ao longo dos últimos anos temos vindo a falar bastante do empoderamento do consumidor e de como cada um de nós tem, cada vez mais, a capacidade de escolher e filtrar os conteúdos que consome e em que momentos. A proliferação de serviços de vídeo streaming, bem como o aparecimento de novas redes sociais, por exemplo, são movimentos a que temos de estar atentos, procurando entender o seu impacto sobre a forma como os consumidores se relacionam com os media.

A mais recente edição do estudo Meaningful Media, realizado pela Havas Media Network, dá conta de um padrão de relação com os meios onde os canais digitais têm vindo a ganhar proeminência, destacando-se o papel transversal a todas as faixas etárias dos motores de busca e das redes sociais. Por outro lado, afirma-se uma divisão geracional, mais evidente na faixa dos 15-24 anos, onde a fragmentação é maior, bem como a relevância do consumo on-demand.

Efetivamente, junto dos mais novos o streaming de música é mais importante que a rádio e o Youtube é mais importante que os canais de TV abertos, para citar um exemplo. Porém, quando lhes perguntamos quais são os meios de comunicação em que mais confiam, os media tradicionais (ou mass media) continuam a destacar-se (e nisto todas as faixas etárias são unânimes). Acontece que a descoberta de coisas novas, ou o entretenimento ditam muitas vezes os seus hábitos de consumo. E apesar de serem mais avessos à publicidade (com esta a suscitar elevados níveis de incómodo), acreditam que esta é fundamental para a existência de conteúdos de qualidade.

Parece que estamos a assistir a um duelo entre credibilidade e conveniência, em que a última está a ganhar. Mas, o que é que isso significa para os media tradicionais?

A importância transversal do consumo de conteúdo de revistas ou jornais via redes socias ou feeds de notícias vem reforçar o papel da conveniência perante uma aceleração do ritmo de vida e a necessidade de estarmos sempre ligados e a fazer várias coisas ao mesmo tempo. Veja-se o exemplo do 2nd screening e de como os dados do GWI nos dão conta que este é muito prevalente, sobretudo junto dos mais jovens.

Por outro lado, os meios tradicionais têm um papel importantíssimo, sobretudo a TV, enquanto motores de cobertura alargada à qual acresce uma perceção de credibilidade, mas têm vindo a perder terreno no papel que desempenham em termos de entretenimento, com o streaming ou consumo on-demand a ganhar terreno.

E o entretenimento é o 2º maior driver de indispensabilidade e, em algumas gerações (as mais velhas), é mesmo o principal motor de relevância.

Mas, mesmo perante a perspetiva de avanço dos canais digitais e on-demand, sobretudo à medida que as faixas etárias mais jovens ganham maior peso no público dos media, verificamos que os meios tradicionais continuam a marcar a sua posição no ranking de relevância, como podemos ver pela rádio, por exemplo, que tem vindo a reinventar-se para acompanhar as tendências do mercado e corresponder às preferências dos consumidores.

Com os consumidores a abraçarem, cada vez mais, a conveniência, o acesso instantâneo e a personalização, os conteúdos on-demand têm vindo a impactar o panorama dos meios. Efetivamente, os grupos de consumidores mais jovens já os colocam num nível de relevância elevados, considerando-os fontes incontornáveis de entretenimento, seja streaming de vídeo ou música.

No entanto, são evidentes as divergências entre faixas etárias, com os canais de televisão abertos e a rádio a ganhar relevância enquanto fonte de entretenimento nas idades acima dos 45.

Em última análise, estes insights lançam luz sobre as complexidades que moldarão o futuro dos media em Portugal. À medida que nos adaptamos a essas mudanças, é imperativo que as estratégias e abordagens dos meios de comunicação evoluam para captar a atenção e o respeito de uma audiência cada vez mais diversificada e polarizada nos seus interesses.

Sofia Vieira, diretora de Insights & Strategy da Havas Media Network

Segunda-feira, 04 Março 2024 12:29


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