Demos Unfollow à Beta Collective e conversámos com a mente criativa desta iniciativa

Parece um pedido descabido, mas leu bem. “Unfollow Us” é a mais recente iniciativa “corajosa” da agência criativa luso-brasileira Beta Collective, fundada em setembro de 2021. O CEO, Bernardo Tavares, falou com a Briefing sobre o projeto e as expectativas que tem para o futuro.

Demos Unfollow à Beta Collective e falámos com a mente criativa desta iniciativa

Briefing | Como é que nasceu a Beta Collective?

Bernardo Tavares | A Beta Collective nasceu da vontade de ter sempre ideias criativas e do inconformismo de ver grandes ideias morrerem por diversos problemas estruturais de qualquer agência e da relação dela com seus clientes.

Num momento em que eu precisava de juntar dinheiro e que estava um bocado inseguro em relação ao tipo de ideias que iria produzir nos próximos anos, comecei a fazer alguns projetos freelancers nos tempos livres, para agências do Brasil, que rapidamente percebi que só dariam dinheiro. Felizmente, surgiu um convite de um antigo cliente para realizar um projeto para a Cerveza Patagonia. Naquele momento eu vi mais do que uma luz no fim do túnel, vi um parque de diversões no fim do túnel.

Naquele momento era só eu e um diretor de Arte. O sucesso foi meteórico, e, de repente, por conta de inscrições em festivais e divulgação de PR, vi-me pressionado a criar o nome da empresa, pensar no que ela seria, criar um site, identidade visual e pensar como fazer isto acontecer, estando noutro país e ainda a trabalhar na Havas.

Foi uma loucura, mas eu encarei-o como um projeto freelancer. Ia aproveitando as horas do almoço, as noites e madrugadas para trabalhar, e, neste caso, o fuso-horário ajudou. Além disso, sempre fui transparente com meu superior na Havas, o Paulo Pinto.

Que valor é que vai trazer ao mercado?

Queremos continuar pequenos, como destacamos nesta campanha “Unfollow Us”. Isto faz com que nos consigamos concentrar nos poucos, porém promissores projetos, que possam render boas ideias e no fim trazer um valor claro: ideias que inspiram e dão orgulho.

A nossa maior forma de divulgação são as ideias na rua, nas notícias, nas redes sociais. Por isso, não podemos perder tempo com ideias que não levem a lugar algum. O cliente investe o dinheiro dele, nós investimos o nosso tempo e a nossa vida. Esta é a responsabilidade e o peso que eu carrego nas costas. Quando tudo dá certo, quem fez parte beneficia-se, seja cliente ou criativos. Até quem não fez parte também se beneficia.

Durante algum tempo, eu tive de usar exemplos de ideias que eu fiz ao longo da carreira, para transmitir segurança aos clientes de que eu sabia como fazer aquela ideia maluca acontecer, mas em pouco tempo passei a usar as próprias ideias da Beta como exemplo.

Um dos desafios que tivemos de ultrapassar foi o de provar aos clientes que há situações tidas como impossíveis que seriam possíveis de se concretizar. Era preciso mostrar, tal como muitos portugueses fizeram ao longo da história e ainda o estão a fazer na publicidade, que é possível. Alguns exemplos de quem o fez em Portugal são: a FCB Lisboa ao ganhar um Grand Prix em Cannes; a STG faz todos os anos; a Dentsu com a campanha para a Amnistia; o Escritório, no passado; a BBDO com o Smarteffect e a Havas com as Raparigas da Bola; a BAR Ogilvy mais recentemente; a Uzina tem feito constantemente, assim como a Leo, durante muitos anos.

Como é que os criativos freelancers têm reagido à Beta Collective em Portugal?

As nossas equipas são montadas a cada projeto e são compostas por profissionais, além dos que são freelancer. Estes são bem-vindos, obviamente, mas, tal como aconteceu comigo no início da Beta, o trabalho é algo complementar.

A reação entre os criativos portugueses é bem menor do que entre os brasileiros, o que é natural, uma vez que já produzimos oito ideias no Brasil e apenas uma em Portugal para a Guaraná. Por isso, leva mais tempo a causar uma reação maior, mas há muitos talentos portugueses que me mandam mensagens há algum tempo. Tem sido empolgante ver isto.

Ainda estou a tentar encontrar a melhor forma para selecionar as pessoas ideais para cada projeto. Levamos em consideração muitos parâmetros, como a diversidade, a experiência, o estilo criativo, o perfil do briefing e da marca, a agilidade, o entusiasmo, entre muitos outros, que são avaliados a cada novo briefing. Costumo dizer que o meu trabalho criativo começa na elaboração da equipa ideal, o que é algo muito diferente da dinâmica em agência, que tem sempre uma equipa fixa. Já tivemos projetos em que a equipa criativa envolveu um diretor de Arte, uma filósofa, uma psicóloga e dois realizadores, por exemplo.

Do portefólio, que campanha destaca e porquê?

Todas as campanhas se destacam, porque na Beta só fazemos projetos especiais, que trazem resultados em termos de PR ou premiações. Mas, se tiver de escolher apenas uma, diria a loja “Na volta a gente compra”, criada para o will bank, neste último Natal, em São Paulo. É a ideia mais completa que temos e a que deve conquistar mais prémios, se tudo sair como planeamos. A ideia em si envolveu uma grande produção: conseguimos resgatar mais de 300 artigos raros, que marcaram a infância das crianças brasileiras nos anos 80 e 90, e trouxemos estes itens para a loja, que produzimos inteiramente do zero, na estação de metro, da região onde as pessoas vão fazer compras de Natal, em São Paulo. Lá, os adultos que foram traumatizados por esta frase na infância, puderam curar esta ferida, retirando um destes artigos que tanto fizeram falta quando eram crianças.

De que forma é que o pedido “Unfollow Us” segue uma tendência de ação corajosa?

Toda a gente pede para que o sigam, em todas as redes sociais. É o famoso “deixe o seu like e ative o sininho”. A lógica é querem mais e mais seguidores. Portanto, pedir que deixem de seguir não deixa de ter um certo risco. Há sempre o risco de que o público realmente adira a isto, por isso, não deixa de ser um ato de coragem. Claro, que, no nosso caso, o risco era muito menor, porque somos pequenos e espero que assim continue.

Como é que essa ideia está a ser recebida pela comunidade dos criativos?

É uma ideia pequena, portanto a reação é proporcional. Ainda assim, posso dizer que tirou alguns risos e comentários. Os risos dão para ver até nas reações do LinkedIn, que teve mais risos do que o normal. Já os comentários estão a chegar por mensagens privadas, grupos de WhatsApp e algumas pessoas que vêm comentar: “A Beta tá jogando solto, tá bonito de ver”.

Quais as perspetivas para o futuro do coletivo?

Continuar a remar contra a maré, contra as fórmulas criativas, as ideias de prateleira, os FOOH, e ganhar o nosso primeiro Leão. Mais cedo ou mais tarde isso irá acontecer. Até lá, vamos colocando ideias que ganham outros festivais e que dão orgulho de fazer.

Uma possibilidade de futuro também é abrir um escritório na praia, na areia mesmo, para poder surfar mais e marcar reuniões só nos períodos sem onda. Se algum cliente que estiver a ler isto quiser ser o sponsor, é só mandar um e-mail para bernardo@wearebetacollective.com

Ah! E continuar pequeno. Não importa se são uma, duas ou oito ideias por ano. A intenção é que continuem a ser poucas e boas. Outra possibilidade de futuro é realizar parcerias com agências portuguesas, como esta que fizemos com a Adagietto. Estamos abertos a parcerias com quem estiver no mesmo clima.

Mariana Paulo

Segunda-feira, 05 Fevereiro 2024 11:55


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