Francisco Ferreira: Criar um futuro de esperança

O presidente da Associação ZERO e professor na FCT NOVA, Francisco Ferreira, entende que, atualmente, não há um caminho credível para que o aquecimento global seja limitado aos 1,5°C. E defende que a próxima década será decisiva.

Francisco Ferreira: Criar um futuro de esperança

As alterações climáticas são uma realidade e o mundo já está a mudar e até a acabar como o conhecemos. Secas, mesmo no inverno, inundações, incêndios, escassez de água, ondas de calor, subida do nível do mar e tempestades catastróficas, já se fazem sentir com o atual nível de aquecimento de 1,1°C em relação à era pré-industrial. O caos climático está a causar estragos em vidas e meios de subsistência, saúde e bem-estar humano, infraestruturas e economias, produção de alimentos e cadeias de abastecimento globais.

A década até 2030 é absolutamente decisiva para que o aquecimento possa ser limitado a 1,5°C ou abaixo de 2,0°C. Para se manter dentro do limite de 1,5°C, as emissões globais de gases com efeito de estufa precisam de ser reduzidas em pelo menos 43% até 2030, em comparação com os níveis de 2019, e em pelo menos 60% até 2035. Quanto mais tempo for necessário até que as emissões globais recuem, maiores serão as necessidades de reduções posteriores.

No entanto, não existe neste momento um caminho credível para os 1,5°C e as atuais políticas têm-nos conduzido a uma aproximação dos 3°C, de acordo com a ONU. E sabemos aquilo que é preciso: menos fósseis, mais solar e vento implementados de forma sustentável. Se ultrapassarmos 1,5 graus de aquecimento global, não é literalmente o fim do mundo, mas o mundo parecerá muito diferente. Cada fração de grau conta e precisamos trabalhar muito, independentemente de onde estivermos.

O custo da inação será muito mais elevado de muitas perspetivas diferentes: quer financeira, quer socialmente e também para governos, empresas e famílias. Os impactos climáticos já estão a afetar todos neste planeta, mas de forma desigual. Os impactos climáticos já estão a afetar todos neste planeta, mas não da mesma forma. Mulheres, crianças, povos indígenas, pessoas com deficiências e doenças, populações mais pobres, e grupos mais marginalizados são mais afetados, uma vez que são menos capazes de se preparar antes de uma catástrofe, reagir e reconstruir.

Mas há também boas notícias – há uma série de soluções de adaptação e mitigação que podem trazer múltiplos benefícios de desenvolvimento sustentável, desde o combate à pobreza energética, à preservação dos ecossistemas, à redução da desigualdade de género e à melhoria da segurança alimentar.

A Europa é a segunda maior região historicamente emissora (1850-2019) depois da América do Norte. É cada vez mais claro que o Pacto Ecológico Europeu tem de ser mais ambicioso. Para ser compatível com o Acordo de Paris, a União Europeia deverá atualizar a uma meta de -55% para pelo menos -65% até 2030 em relação a 1990. Os países da UE precisam de refletir objetivos à escala nacional na revisão em curso dos seus Planos Nacionais de Energia e Clima (PNEC).

No caso de Portugal, precisamos de uma muito melhor gestão da procura de energia, com destaque para as medidas que proporcionem efetivamente uma redução nas emissões no transporte rodoviário individual, edifícios mais confortáveis e eficientes e investimentos em fontes de energia renovável aplicados de forma sustentável.

Sexta-feira, 28 Abril 2023 10:34


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