MEO Kalorama, o festival que quer ser sustentável e inclusivo

O MEO Kalorama, que regressa com a segunda edição ao Parque da Bela Vista, em Lisboa, entre 31 de agosto e 2 de setembro, junta cultura e sustentabilidade, e pretende ser uma opção diferenciadora e inclusiva entre a oferta existente. Em entrevista à Briefing, a diretora de Comunicação da Last Tour Portugal e do festival, Andreia Criner, antecipa algumas novidades para este ano, como um quarto palco, e o que espera das marcas com quem trabalha. Já a diretora de Sustentabilidade, Dora Palma, fala sobre o impacto e a recetividade das medidas adotadas na edição anterior e o que vai ser feito em 2023.

MEO Kalorama, o festival que quer ser 100% sustentável

Briefing | O que distingue o MEO Kalorama dos outros festivais? Qual a marca que quer deixar no panorama do setor em Portugal?

Andreia Criner | O MEO Kalorama é um festival de música, arte e sustentabilidade, valores que pretende que não se esgotem nos três dias do festival, tornando-o num ponto de partida para a criação de uma comunidade. Desejamos que as pessoas se juntem ao longo desses três dias para se divertirem e partilharem experiências e emoções, mas que depois se mantenham conectadas, enriquecendo as suas vidas e quotidiano, como ilustram os sete episódios “We Are MEO Kalorama”, que podem ser vistos nas redes sociais oficias do festival.

Estamos a trabalhar para que os três dias do MEO Kalorama sejam o main event agregador de uma comunidade que se relaciona ao longo de todo o ano, independentemente do local em que as pessoas vivam, da sua cultura, trabalho, identidade de género ou perfil socioeconómico. A tecnologia atual permite este estreitar de laços, e um dos passos mais importantes dados pelo festival nesse sentido foi no investimento da sua presença no metaverso: graças ao seu naming sponsor MEO, é o primeiro festival nacional a estar no metaverso e a ter realizado uma conferência de imprensa nesta plataforma, com perto de 50 jornalistas a marcarem presença, entre os quais vários meios internacionais. Acreditamos que futuras evoluções tecnológicas permitirão reforçar os vínculos entre a comunidade, assim como a sua interação e o envolvimento cada vez mais ativos com o festival. 

Quais são as principais diferenças em relação à primeira edição? Que novidades se podem esperar?

Depois de uma edição de estreia com uma programação musical, primeiro pilar do MEO Kalorama, distribuída por três palcos, em 2023 é acrescentado um quarto palco, o Panorama, dedicado à melhor música eletrónica, que será, diariamente, o primeiro a entrar em funcionamento e o último a fechar. O projeto de arte, segundo pilar do evento, será mais ambicioso e levará o público a iniciar a sua experiência ainda antes de chegar ao recinto. Em breve, será revelada a curadoria do projeto e os artistas que, este ano, terão a seu cargo as instalações de arte que revestirão não apenas os palcos, mas estarão também distribuídas pelo recinto. O terceiro e último pilar do festival, a sustentabilidade, integra as áreas sociais, ambientais e económicas alinhadas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Depois dos resultados de 2022, este ano o evento reforça a sua estratégia, como explicado pela nossa diretora da área, Dora Palma, nesta mesma entrevista.

Uma nota especial sobre a inclusão no MEO Kalorama, que está bem patente na programação, apresentando um cartaz composto por 40% de artistas femininas ou bandas que integram ou são lideradas por mulheres, com representatividade LGBTQI+, além de 16 artistas nacionais, entre os quais quatro locais, do bairro de Chelas, em Lisboa, que desfilam sob o nome coletivo de Chelas é o Sítio.

O que procuram nas marcas que se associam ao festival?

Se, na primeira edição, a dinâmica partiu naturalmente do festival, no sentido de procurar as marcas com maior fit com o seu posicionamento e valores, neste segundo ano sentiu-se já um fluxo nos dois sentidos, havendo cada vez mais marcas a contactarem a Last Tour Portugal, promotor do MEO Kalorama, para avaliarem oportunidades de ativação alinhadas com os pilares do festival: música, arte e sustentabilidade.

Foi estabelecido um número máximo de marcas, 12, cujo posicionamento, produtos e serviços acrescentem valor ao festival e à experiência do público, sem que depois, durante o evento, exista competição pela atenção através do ruído sonoro e visual. É muito estimulante trabalhar com parceiros que entendem o festival e nele veem um veículo estratégico para a comunicação dos seus produtos e serviços, numa época de profundas alterações e desafios trazidos por consumidores cada vez mais informados, exigentes e cujo escrutínio permanente e voz ativa nas redes sociais obrigam o festival e as marcas a fazerem cada vez mais e melhor. É com estas marcas que o MEO Kalorama deseja trabalhar e construir relações a longo prazo.

Sendo a sustentabilidade um dos pilares do evento, qual é a política do MEO Kalorama?

Dora Palma | A nossa política é centrada em três compromissos principais: minimização e controlo dos nossos impactes ambientais, envolvimento ativo da e com a comunidade, e inclusão. Para cada um destes três temas, definimos metas específicas e implementamos ações dedicadas a fim de alcançarmos estas metas, como um plano de gestão de resíduos com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, em parceria com a Valorsul, que começa na montagem e termina na desmontagem e que inclui: a correta separação de resíduos; o incentivo à redução de plástico, através da instalação de mais bebedouros para refill das garrafas de água, numa parceria com a EPAL, e de aguadeiros a distribuir água pelo parque, principalmente nas frentes de palcos; e a doação de materiais no final do evento.

Em 2022, reutilizámos materiais com a comunidade, contratámos mais de 100 artistas de Chelas, empregámos mais de 200 moradores da comunidade e doámos bilhetes para promover o acesso à cultura. Criámos, também, espaços para pessoas com mobilidade condicionada, espaços na frente de palco para pessoas surdas, acessos dedicados e WC não binários; e fizemos campanhas para o acolhimento da diferença, e formação da nossa equipa e das forças de segurança privada e pública sobre como lidar com a diferença. Este ano mantemos o compromisso de fazer mais e melhor. 

Como é que algumas medidas, como os WC sem género e o refill de garrafas reutilizáveis, foram recebidas pelos festivaleiros?

O nosso público mostrou ser muito responsável e preocupado com estas questões. Quando, numa formação da APPDI – Associação Portuguesa para a Diversidade e Inclusão, nos apercebemos que existem pessoas que, por não se identificarem com nenhum dos géneros, não usavam os WC dos espaços, tornou-se óbvio que tínhamos de fazer alguma coisa. Houve algum receio inicial de um possível conservadorismo, de como é que iria ser a reação do nosso público, sendo que a nossa maior preocupação estava relacionada com a segurança, e, por isso, montámos uma operação que permitisse trazer tranquilidade aos utilizadores de WC e rapidamente percebemos que todos aderiram muito bem.
O refill é uma realidade já presente na vida do público português e, para incentivar e facilitar, instalámos mais bebedouros no parque além dos que já existem. Este ano vamos ter a novidade de ter mochileiros por entre o público, principalmente nas frentes de palco, numa parceria com a EPAL, para que mais pessoas possam fazer o refill e permitindo que as garrafas de água compradas no recinto possam assim ser reutilizadas. De realçar que estas garrafas são feitas de material 100% reciclado, possível de reciclar no fim de vida, têm a característica singular de ter inscrição em braille e um rótulo muito reduzido, tornando esta garrafa única no mercado em termos de características de sustentabilidade.
Este tipo de iniciativas traduzem o nosso real compromisso com a sustentabilidade, soluções relativamente simples de concretizar sem grande esforço e que trazem grande impacto. Por vezes, dedicamos o nosso esforço a pensar em ações grandiosas que exigem muito investimento e dedicação, quando existem soluções simples que podem fazer toda a diferença, como por exemplo, o espaço para pessoas surdas. O facto de reservarmos um espaço na frente de palco apenas para pessoas surdas poderem sentir a vibração da música, termos uma equipa de acolhimento na entrada do evento e nos espaços de mobilidade condicionada, ou, junto com a APERCIM, empregarmos jovens com deficiências no catering do staff e artistas são pequenos gestos que se traduzem em grandes impactes.   

De que forma o MEO Kalorama pode inspirar os outros a serem mais sustentáveis?

É muito importante que haja um compromisso de todos para que a sustentabilidade seja uma forma de vida cada vez mais presente na nossa sociedade. As novas gerações trazem já muito incutida esta visão de mundo e de forma de estar, exigem mais das marcas e das empresas, por isso é importante que os festivais e todo o mercado de entretenimento esteja muito alinhado com o que se passa no mundo e que assuma a responsabilidade de ser um mobilizador e influenciador de massas. O MEO Kalorama, assumindo a sua responsabilidade, tem previstas várias campanhas ambientais, em parceria com a Quercus e a Valorsul, mas não só… A APPDI vai apoiar-nos nas mensagens sobre inclusão e diversidade; a DICAD – Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências na sensibilização para comportamentos de risco, junto com a ANEBE, que trará uma mensagem mais focada na proibição de disponibilização de álcool a menores; e a Associação Portuguesa Contra o Cancro na campanha de sensibilização sobre o HPV. Todas estas parcerias transmitem mensagens importantes e, associadas às iniciativas da operação do evento, refletem o nosso compromisso. É desta forma que tentamos influenciar outros, através do nosso exemplo.

Simão Raposo

Quinta-feira, 03 Agosto 2023 12:47


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