O Design a sair do convencional

Começou com um projeto de divulgação do design português e rapidamente se transformou num estúdio independente. Falamos do MUSA.

O Design a sair do convencional

Áudio by IA

Estava-se em 2003 quando Raquel Viana, Paulo Lima e Ricardo Alexandre, à data designers em “grandes” agências de design, em resultado de “algum descontentamento e desmotivação”, resolvem juntar-se para criar o projeto MUSA. O objetivo era divulgar internacionalmente o design português, mas, conta Raquel Viana, “o projeto ganhou asas rapidamente e, em consequência do muito trabalho desenvolvido, projeção e notoriedade, surge com naturalidade o estúdio, em 2006”. “Sabíamos bem o que queríamos e o que não queríamos, fruto dos muitos anos passados em grandes estruturas”, diz Paulo Lima, adiantando que começaram a surgir pedidos por parte de clientes de diversas áreas que se identificavam com o trabalho. Começa, então, um percurso de quase 17 anos, focado na tentativa constante de superar a oferta criativa aliada à vertente humana no relacionamento personalizado com o cliente/parceiro. Uma fórmula que, comenta Ricardo Alexandre, se mostrou “eficaz e que, por certo, irá pautar o futuro do MUSA”.

Com um leque diversificado de clientes, que vão desde a arquitetura à área financeira, passando por moda, imobiliário ou restauração, este estúdio independente desenvolve projetos que envolvem criação de marca, implementação em campanhas, websites, packaging, editorial, social media, entre outras valências de comunicação. Tentando sempre “sair do convencional”.

Uma das grandes mais-valias, aponta Raquel Viana, é a “relação de proximidade e confiança” com os clientes. Outra é o facto de não existirem hierarquias definidas dentro do MUSA. “Ajuda a estabelecer uma relação direta com os clientes e, assim, chegarmos mais facilmente ao pretendido, criando-se laços mais estreitos e duradouros. Esta proximidade é muito reconhecida pelos nossos clientes, não havendo a dispersão de comunicação e distanciamento como acontece quando há vários intervenientes envolvidos no processo criativo (account, diretor criativo, designer, produtor).” As soluções são, pois, integradas e “eficazes”, comenta Paulo Lima, reconhecendo que o design nacional está, tal como o internacional, “bastante saudável” em termos da diversidade de oferta, quantidade, qualidade e exposição global. Sente, porém, que houve uma “crescente desvalorização” do trabalho criativo e dos honorários, o que atribui à “elevada oferta e ao menor engrandecimento do trabalho por parte dos próprios designers ou mesmo às soluções “premade/ non-custom” disponíveis no mercado”. Por outro lado, afirma, o mercado nacional mudou, fecharam muitas das grandes agências com estruturas mais pesadas, dando lugar a estúdios de pequena e média dimensão, “aumentando a oferta e melhorando a qualidade do design em Portugal”. Mas, sendo um mercado “relativamente pequeno”, defende que as grandes empresas devem tomar “consciência da qualidade da oferta do design nacional aquando da escolha de parceiros para criação de estratégias de comunicação”.

Foi, aliás, devido a esta reduzida dimensão que o MUSA teve de apostar no mercado internacional. “Atualmente, podemos trabalhar para qualquer parte do mundo, e aí achamos que os estúdios portugueses têm grandes mais-valias, pois desenvolvemos um bom trabalho e com valores concorrenciais”, observa Raquel Viana, dando conta de que o estúdio tem, atualmente, vários clientes internacionais e “a tendência será aumentar cada vez mais”.

Para este ano, o desejo, esse, é o de sempre: continuar a desenvolver os projetos “com a mesma motivação e intensidade” com que tem feito até agora. A difícil conjuntura económica não assusta os três fundadores, até porque já passaram por algumas ao longo do percurso. “O facto de não termos uma grande estrutura, aliado a uma gestão adequada, dá-nos a liberdade de conseguimos passar estas crises mais facilmente”, diz Paulo Lima. “A área criativa é uma das áreas em que se sente rapidamente os efeitos de uma crise. Os clientes deixam de investir, os pequenos negócios surgem com mais dificuldade, os grandes negócios deixam de investir tanto orçamento em marketing. O mercado adapta-se, no entanto, e a experiência de outras crises financeiras mostrou-nos isso mesmo.”

Com o vigésimo aniversário a aproximar-se a passos largos, a ambição é manter a mesma “qualidade e exigência”. E celebrar? Claro, talvez aproveitando a oportunidade para voltar às raízes e revisitar o projeto do livro que esteve na génese do conceito do estúdio.

Sofia Dutra

Terça-feira, 19 Dezembro 2023 09:59


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