A sua voz começou a ecoar pela casa devia ter uns três anos; pelo menos, nas cassetes – “provas do crime mais antigas” – em que aparece a fazê-lo devia ter essa idade. Nuno Saraiva diz que toda a sua família é muito musical, portanto, nos encontros familiares sempre se cantou, até porque o pai “cantava muito bem” – chegou a ficar em terceiro lugar numa Grande Noite do Fado, no Coliseu dos Recreios –, e foi essa naturalidade que o desinibiu. “A minha mãe quis que eu aprendesse piano e colocou-me num professor no início da minha adolescência, mas, entretanto, entrei na curva onde as guitarras me apanharam e o piano despistou-se”, conta.
Mas foi só no liceu, no final dos anos 80, “quando as tribos musicais eram uma afirmação” e escrevia letras de músicas nos intervalos e nos furos das aulas com amigos, que se lembra de ganhar o bichinho. Depois, tudo se encaixou, no início da década de 90. “Era frequente nas turmas de artes haver muita malta com bandas”, e a vontade de se expressar combinada com um melhor domínio da guitarra permitiram que começasse a escrever umas músicas.
O facto de ser o rock surgiu com as guitarras de distorção, que o apanharam na tal curva, “onde a adrenalina está no pico”. Não voltou a largar as cordas. “Acho que tinha de ser assim”, comenta. Não obstante, tem várias inspirações que o ajudaram a crescer; do jazz ao hip-hop, ou ao punk, são tantas que lhe é difícil circunscrever a música que gosta e o influencia. “Acho que a música que nos envolve e emociona, seja em que sentido for, está a deixar marca nas nossas vidas”, defende. Por exemplo, aos 15 anos, quando descobriu o “rock espacial” dos Pixies, o mundo ganhou outra dimensão para Nuno: afinal, aqueles primeiros quatro álbuns são “de outra dimensão e mudaram a face do rock”.
Ao seu lado B, diz despender menos tempo do que devia… Normalmente, na banda têm um ensaio semanal e fazem-no com mais frequência quando há concertos, para preparar o gig. No caso da guitarra, diz que gostava que o dia tivesse mais horas para poder guardar um momento e dar-lhe a atenção que ela merece, porque, “além de ser importante desenferrujar os dedos, é um ótimo antisstress ao fim do dia” – embora, às vezes, lá em casa, nem todos partilhem da sua opinião. Já cantar, só acontece no ensaio e ocasionalmente no duche, “aquele velho cliché”, mas, na sua cabeça, sente que passa muitas horas do dia a cantar.
No final de contas, não se pode dizer que os seus dois lados não se misturam. A música é “fundamental” para a concentração e inspiração do Nuno designer: “Devo agradecer a todos os músicos que compuseram e escreveram as músicas que me acompanham no dia a dia. A melhor recompensa para um músico é saber que alguém se sente motivado pelo seu trabalho; nesse aspeto, seria espetacular que alguém se pudesse motivar ou inspirar pela música que nós fazemos nos Dead Pigeon”. Também as capas de disco “marcantes”, desde o conceito ao grafismo, que, para si, foram reflexo de épocas e culturas urbanas, bem como impulsionadoras de consciências coletivas, se destacam no seu trabalho. “Qualquer pessoa consegue identificar num escaparate as capas da editora de jazz Blue Note, as capas minimalistas dos Bauhaus, Joy Division ou New Order, as capas berrantes do punk, etc.. Essas identidades gráficas também foram um importante contributo para a minha formação enquanto designer e capacidade de perceber que a imagem e a palavra podem mudar o mundo”.

