O ouvinte. Quem?!

O ouvinte. Quem?!Já fiz esta referência várias vezes mas considero sempre importante repetir porque, para além do programa, transmitido na rádio pública, não quero que esta coluna seja considerada uma tribuna alternativa da Provedora do Ouvinte. Porque não o é.

Ontem de manhã, enquanto ouvia a Antena 1, surpreendi-me com uma afirmação, curiosa, de um dos novos comentadores deste canal. Rui Cardoso Martins, escritor, jornalista e guionista, veio integrar um painel de outros colaboradores – historiadores, editores, jornalistas – para, juntos, desfiarem o Fio da Meada e substituir um espaço de opinião anteriormente ocupado por personalidades ligadas à política partidária no nosso país, o Conselho Superior.

Penso que a rádio, mais do que os restantes meios de comunicação social, tem uma responsabilidade ao nível do debate político-partidário, social, científico, económico, educativo, da saúde e restantes grandes temas da nossa sociedade, mas tenho dúvidas que os partidos com maior representação política possam (ou devam) ter um espaço de opinião diário na rádio. Seja qual for a rádio. Porque os temas que essas personalidades abordam terão sempre uma perspectiva ideológica definida e, muito provavelmente, partidária, que outros indivíduos, mesmo que se lhes conheçam as opiniões políticas ou as preferências partidárias, à partida não terão. Por isso, tenho ouvido este Fio à Meada que estreou esta semana na Antena 1. E faço-o não apenas por ser Provedora. Escuto pela curiosidade que o mesmo me provoca.

Ontem, quando António Macedo introduziu o Fio à Meada, fez referência à palavra “ouvintes” e ao facto de, como ele, também Rui Cardoso Martins não gostar desta palavra porque lhe soa a broa. Broa de Avintes, seguramente. Ainda que não partilhe da implicância, lembrei-me, contudo, de outra questão. Rui Cardoso Martins afirmou que a palavra “ouvintes” não faz justiça a quem ouve rádio, que pensa e reage a vários tempos. Sem dúvida. E, entre outras coisas, referiu ainda que o “antigo éter da rádio pode ser agora diferido sem dificuldades”. Pois é.

Então, quem é esse, o ouvinte?

O ouvinte é aquele que ouve, ou que faz parte de um auditório.

Como se chama, hoje, ao que ouve e utiliza?

Há tempos, por falta de melhor designação, chamei-lhe “e-ouvinte”, uma espécie de ouvinte electrónico que interagia com a rádio num contexto que não se limitava à escuta de rádio.

Neste quadro, a rádio seria, como é, uma companhia para o dia-a-dia, o meio de comunicação social que nos ajuda a estruturar as rotinas (sabemos que estamos atrasados quando ouvimos uma rubrica e ainda não chegamos a meio do percurso para o trabalho), garantir informação, notícias e entretenimento ao longo do dia. Isto é o exemplo típico da rádio a fazer parte da nossa vida. Mas, se pensarmos que a rádio pode ser um elemento que a constitui (a nossa vida), então teremos outro tipo de comportamento, do que ouve e utiliza, quando se coloca em relação com a rádio através dos sites de redes sociais, escutando a rádio através da internet, imerso nessa espécie de comunidade que se pode constituir em torno da rádio, na sua extensão para o Facebook e outros domínios sociais, numa conversação de e para a rádio.

O mais comum será, na verdade, o tal “e-ouvinte”, pessoas como nós que combinam o éter com o online de acordo com a sua conveniência, da mesma forma que combinam a rádio com outras formas de áudio (podcasts, por exemplo) em múltiplas plataformas de interacção, criando a sua própria dieta mediática. Serão, apenas, ouvintes?

Quinta-feira, 15 Outubro 2015 10:36


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