Sharing economy: romântica ou disruptiva? O Rui responde

Rui VenturaA sharing economy constitui o lado mais romântico do consumo. Mas será que não há quem se aproveite para, simplesmente, disfarçar o lado sharky dos seus negócios? Ou será mesmo uma tendência disruptiva que vai obrigar as empresas e os legisladores a reagir? São questões em debate no Congresso Nacional do Marketing, no próximo dia 31. E que o presidente da Associação Portuguesa dos Profissionais do Marketing (APPM), Rui Ventura, antecipa, em entrevista à Briefing, media partner do evento.

Briefing | Porquê o duelo sharing economy vs sharking economy para tema?

Rui Ventura | O conceito criativo centrou-se na diferença fonética subtil que separa as palavras sharing e sharking, e fizemo-lo como uma provocação. Porque um dos pontos que queremos discutir no congresso é exatamente a componentes ética, social, tributiva e legal que as mudanças mais disruptivas da sharing economy estão a provocar. Queremos ainda questionar se o real interesse das empresas da sharing economy são a partilha e o acesso a recursos, ou, pelo contrário, se têm uma visão mais tradicional, capitalista, mais sharky e utilizam o romantismo da partilha para montarem os seus negócios de uma forma mais barata, mais simples e com menos obrigações legais.

Briefing | Até que ponto a economia colaborativa é uma tendência? É só moda ou veio para ficar?

RV | O fenómeno da sharing economy ou da on-demand economy é um fenómeno que veio para ficar e que se está a estender a todas as áreas da nossa sociedade. É exatamente este desenvolvimento e os desafios futuros e as implicações que este novo modelo traz junto às empresas, aos profissionais de marketing e à sociedade que queremos abordar. Hoje vivemos um período único da história mundial, em que a tecnologia, aliada à criatividade e à disrupção nos negócios, joga um papel fundamental na rapidez com que as mudanças são apresentadas e executadas. Queremos ainda ligar o tema ao fenómeno das startups, das aceleradoras e da nova geração de empresas e profissionais de marketing – são eles os verdadeiros agentes de mudança.

Briefing | Qual é a realidade nacional nesta matéria?

RV | A realidade nacional é equiparável aos países de vanguarda, temos excelentes exemplos de startups portuguesas que abraçaram os princípios da sharing economy para criar os seus projetos. A Zaask na área da contratação de serviços e pequenas tarefas, a Seedrs na área do crowdfunding, a Chic by Choice na área da moda ou a Uniplaces na área do alojamento jovem. Estes quatro exemplos irão estar em destaque no Congresso Nacional de Marketing e mostram bem a nossa capacidade de criar negócios na economia da partilha, com capacidade de ser escaláveis e internacionais.

Briefing | Que desafios coloca este modelo às empresas? Obriga-as a reformatarem-se?

RV | Sim. Obriga-as a repensar os seus modelos de negócio. E na realidade nenhuma área empresarial está a “salvo” da disrupção da economia da partilha. Por isso é importante olharmos para os exemplos de outras áreas de negócio para que antecipadamente se possam fazer diagnósticos e, caso existam áreas potencialmente disruptivas, tomar a liderança dessa mudança e assumir uma posição única. Um exemplo muito recente desta forma de pensar à frente é a BMW, que recentemente criou e lançou o projeto DriveNow apoiado nos princípios da sharing economy e aplicando-o ao negócio da venda e utilização dos seus automóveis. Muitas vezes, estes processos disruptivos obrigam as empresas a mudanças extremas, para as quais não estão preparadas.

Briefing | E ao marketing? Obriga a uma recreação?

RV | Naturalmente que o marketing, sendo uma área estratégica das empresas, é um dos promotores desta mudança e naturalmente que os marketeers têm de entender os mecanismos da economia da partilha, os drivers sociais, psicológicos e económicos e adequar as ferramentas e as plataformas de comunicação para ir ao encontro desta nova realidade, que passa pelo poder coletivo dos consumidores, pelo crowdsourcing, pelo P2P.

Briefing | Mas o marketing não é mais sharky?

RV | O marketing é, por definição, uma área sharky. Que trabalha para seduzir o consumidor, para construir e promover as marcas, que fomenta a venda/aquisição, que promove a maximização dos serviços prestados. Por existir esta visão tão pragmática e comercial é que achámos interessante pôr em discussão o aparente lado mais romântico do consumo, com os exemplos da sharing economy.

Briefing | E os consumidores, de que modo são impactados por esta tendência?

RV | Os consumidores são os principais beneficiados por esta nova realidade. Por um lado, assistimos a uma ampliação da escolha, em todas as áreas de produtos e serviços, e isso é sempre benéfico; por outro lado, os principais motores da economia da partilha centram-se na ideia de que os consumidores podem também ganhar rendimentos disponibilizando os seus bens, o seu tempo, a sua tecnologia ou o seu talento para os momentos em que são necessários esses serviços. Por isso é que, para além de falarmos de economia da partilha, falamos também na on-demand economy.

Briefing | Como lidar com os constrangimentos éticos e legais?

RV | Este é, para mim, o tema mais interessante e que merece mais reflexão, porque a velocidade extrema da implantação dos modelos da economia colaborativa é diametralmente oposta ao ritmo lento das instituições, do poder regulador, dos legisladores e até das empresas instaladas, e naturalmente que estas diferenças de ritmo provocam grandes clivagens, tumultos sociais e económicos, que afetam algumas classes profissionais e algumas indústrias. Veja-se, num passado mais distante, o que sucedeu com os serviços físicos de correio com a proliferação das redes informáticas e a democratização do e-mail e dos telefones móveis. Veja-se, num passado mais recente, o que a desmaterialização da tecnologia fez à industria da música, da fotografia ou do vídeo e, mais recentemente, os confrontos entre taxistas e Uber ou as batalhas legais que a indústria hoteleira tem movido à Airbnb. O Hegel teorizou sobre a repetição da História e, de facto, existe um padrão no progresso e na mudança. O mesmo implica ruturas, implica desconforto e este momento que estamos a viver não é diferente de milhares de outros momentos históricos evolutivos.

fs@briefing.pt

Terça-feira, 24 Maio 2016 11:32


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