Opinião

O poder da música é também o poder da rádio

O poder da música é também o poder da rádio

Sharing killed the radio star, ou a ideia de que é, para mim, triste pensar que já não preciso da rádio para ouvir música, e ficar feliz por perceber que há uma certa ironia nesta afirmação...

quarta, 03 julho 2013 11:29

 


...especialmente porque a música nova (quase) não está na rádio. Ou se está, remete-nos invariavelmente para o mesmo universo musical, de géneros e estilos, ao ponto de, para quem percebe um bocadinho disto de fazer rádio e conhece bem géneros, estilos, bandas e artistas, adivinhar que aquela pequena pérola que acabou de descobrir dentro de pouco tempo estará a tocar numa determinada estação de rádio. E, não falhar na previsão dá um sentimento de petulância que não é bom para a condição de ouvinte de rádio.


O mais (ou menos, pelo seu significado) interessante é verificarmos que as recomendações de alguns serviços online de música (como Last FM, ou Deezer, ou Spotify, para enunciar alguns dos mais conhecidos) são muito equivalentes ao que se escuta nas rádios pop. Designação que utilizo para tentar enquadrar não só as que são mais populares, por terem maiores índices de audiência, como outras que, ainda que com resultados mais humildes, seguem uma orientação de programação musical semelhante, orientada para os sucessos da música comercial.

Curiosamente, o lado mais comercial da música está (não terá estado sempre?) também ele recheado de bandas e artistas apenas indirectamente conotados com uma vertente mais pop ou comercial cujos singles servem para chamar à atenção e dar a conhecer a banda ou o artista. Porque quando exploramos os discos, encontramos uma abordagem musical muito diferente daquela que havíamos escutado na rádio.


E assim se compõe, também, a página de temas mais ouvidos ou, mesmo a selecção de sites de música online como o Deezer, ou a top lists do Spotify, que ultimamente tenho explorado. No primeiro caso, optar pelos temas mais ouvidos é aceder a um mix de canções que, muito dificilmente conseguiríamos encontrar na mesma estação de rádio. Mas é também, depois da página web passar a segundo plano para a continuação das actividades, reconhecer as canções que antes ouvimos nas tais estações de maior audiência. Penso que, afinal, as pessoas querem, de facto, ouvir aquilo que já conhecem. E questiono-me onde terão, então, escutado todas as outras (duas ou três) canções que não estão a tocar na rádio, para concluir que, nisto de encontrar a playlist ideal, deve imperar o bom senso e, portanto, a fórmula mágica não existe.


Até que ponto estará o sistema de recomendações, temas mais ouvidos e selecção Deezer a influenciar a música que toca na rádio? E vice-versa? Quem influencia o quê?


À partida, não diria que Smells Like Teen Spirit dos Nirvana ocuparia o 55º lugar de uma selecção destas, entre Imagine Dragons e The Doups. Como também me deixa curiosa o facto de Denis ter 5 temas do seu Twist and Bend nesta lista dos temas mais ouvidos. Curiosa, por ser um álbum de estreia, por não o ter ouvido (ainda) nas estações de rádio de maior audiência e por estarem vários temas do seu disco de estreia nesta lista, quando bandas ou artistas que têm, de facto, uma presença massiva na comunicação social - porque as suas canções são temas de anúncios publicitários; fazem parte dos cartazes de festivais de verão e tocam nas estações de rádio de maior audiência - estão com menor destaque na lista dos temas mais ouvidos do Deezer.

Estranho? No mínimo, porque não há como provar que o universo de utilizadores deste serviço tem gostos dissonantes da maioria, sendo a maioria representada por uma relação directa com a Top Lists do Spotify, a lista de temas no top da estação de rádio com maior audiência no país ou o top do iTunes em Portugal. Não sei se será estranho, ou apenas reflexo da primeira parceria entre o Deezer e a Universal Music Portugal que disponibilizou, em exclusivo e durante uma semana, o álbum de Denis, Twist and Bend. Levou-me, por isso mesmo, a reflectir sobre este processo de influências que considerava serem mútuas. Serão?

 

Paula Cordeiro

Investigadora e Coordenadora da Unidade de Ciências da Comunicação no ISCSP
(Declaração de interesses: Paula Cordeiro é actualmente a provedora do ouvinte na rádio pública. Escreve na qualidade de investigadora na área da rádio)

Este artigo não foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico

Fonte: Briefing

 

quarta, 03 julho 2013 13:52

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