Opinião

O mercado dos ultra-nichos

O mercado dos ultra-nichos

"O potencial de activação da marca - para tantas outras marcas - tem ligação à música. A música está em todo o lado e desde sempre", escreve a investigadora Paula Cordeiro, num artigo de opinião sobre marcas e música, mas também rádio.
"Há nichos de mercado. E, depois, há a música

terça, 16 julho 2013 12:12


Para alguns, a música é apenas isso. Música. Para ouvir. Para tocar na rádio, para dançar nos bares e discotecas, para fazer companhia em casa ou no carro.

 


Para outros, a música é muito mais...

Há pouco tempo, as marcas também descobriram a música. Ou terá sido a música, enquanto indústria, a descobrir as marcas? Adiante.

Passaram a usar-se canções aparentemente desconhecidas na publicidade que, por isso mesmo, não passaram despercebidas aos ouvidos mais atentos. Em pouco tempo, chegaram à rádio e aos eventos musicais. Nos festivais de música, há sempre a surpresa, ao percebermos que bandas ou artistas são, apenas, nossos desconhecidos. Ou seja, a revelação acontece ao vivo, com aqueles que pensávamos estarem ainda a crescer, a movimentarem já multidões que gritam, aplaudem e cantam as canções do álbum. São bandas de culto, sem que a maioria de nós disso se tenha apercebido. E a audiência canta, em uníssono, todas aquelas para além do single de apresentação, isto é, a música que foi banda sonora do anúncio na TV ou que incessantemente tocou na rádio. Só por isso, a música, no seu todo, é um fenómeno especial. Por incrível que pareça, são mais os conhecem todas as canções dos álbuns. Sim, álbuns, essa coisa que pensávamos caída em desuso desde que o P2P dominou o acesso à música ou desde que o iTunes se assumiu como a maior loja virtual de música. Na verdade, a minoria hoje corresponde aos que consomem música apenas pela rádio ou TV.

No Optimus Alive, que terminou este domingo, Of Monsters and Man, Blaya, Alt J ou Steve Aoki são exemplos daqueles que, em muito pouco tempo, granjearam fãs em Portugal. Muito para lá dos tops de vendas (também das recomendações do Deezer ou Spotify), Of Monsters and Man, por exemplo, com uma sonoridade semelhante aos Mumford and Sons - os quais o ano passado também encheram o espaço -, ainda que pareçam ser outsiders entre os cabeças de cartaz, optam por um familiar folk-rock que parece ser o que está a dar por agora, e mexem com a audiência a ponto das marcas lhes darem atenção. Ou será antes o contrário?

Do que me recordo, Mumford and Sons não tocava na rádio antes de arrasar no palco Optimus, em 2012. E Of Monsters and Man também não serão os favoritos do público radiofónico. Mas as suas canções foram cantadas em uníssono. Isso deve querer dizer qualquer coisa.


Portanto, o fenómeno começa "ao contrário", isto é, ao contrário do que nos habituámos a analisar: da internet para os meios tradicionais, e não daí para a web, como há alguns (poucos) anos.


Que as cervejeiras se tinham ligado ao universo musical já todos sabíamos. Que as operadoras de telecomunicações até passaram a ter estações de rádio, também. Que procuram estender o seu modelo de negócio ao negócio da música, igualmente. O que ainda não sabíamos é que o potencial de activação da marca - para tantas outras marcas - tem ligação à música. A música está em todo o lado e desde sempre. A sua amplificação, com a explosão dos suportes, revolucionou a forma como consumimos a música. A sua expansão, perante a diversidade de sistemas de distribuição contribuiu também para a sua própria agonia, perante as alterações à criação ou produção. Acima de tudo, face à sua distribuição e consumo, ditando o fim do modelo de negócio que, durante décadas, sustentou a indústria discográfica. É então que a música encontra outros caminhos de forma paralela ao esgotamento dos formatos, ao cansaço e descrédito da audiência perante a publicidade. As marcas, nos festivais de Verão, vão ao encontro de uma certa predisposição do público, num momento de lazer e diversão que favorece a sua integração no estilo de vida de cada um. O público está lá. Não há dúvida. Contudo, vai para ouvir música. Não nos esqueçamos disso".

 

Paula Cordeiro
Investigadora e Coordenadora da Unidade de Ciências da Comunicação no ISCSP
(Declaração de interesses: Paula Cordeiro é actualmente a provedora do ouvinte na rádio pública. Escreve na qualidade de investigadora na área da rádio)
Este artigo não foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico
Fonte: Briefing

quarta, 17 julho 2013 10:42

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