Opinião

O senhor João e a rádio

 O senhor João e a rádio"O sr. João, que tinha o hábito enraizado de ouvir rádio, nunca pensou como seria o seu mundo sem a rádio". Até que, um dia, os filhos lhe ofereceram um tablet. Este é o ponto de partida do artigo de opinião que a investigadora Paula Cordeiro escreve para o Briefing.

quarta-feira, 04 setembro 2013 12:04

"O sr. João, que tinha o hábito enraizado de ouvir rádio, nunca pensou como seria o seu mundo sem a rádio. Ouvia rádio diariamente e por várias horas. Pela manhã, ao acordar, no carro, enquanto conduzia, ou no trabalho, ao longo do dia. À noite, optava pela televisão e raramente ouvia rádio. Um dia, os filhos ofereceram-lhe um tablet. Como escreveu um dia Fernando Pessoa, "primeiro estranha-se e depois entranha-se". As suas noites passaram a estar intimamente ligadas a esse pequeno ecrã, através do qual navegava por sítios que desconhecia, descobria coisas que não imaginava existirem e percebeu que havia muito mais, para além do que a rádio que conhecia lhe dava.

À noite, continuou a ter a televisão ligada. Aprendeu a comentar o que via na televisão, primeiro com os filhos e depois com um leque alargado de pessoas que não conhece - nem se prevê que venha a conhecer - em redes sociais online. E foi também aí que descobriu uma coisa chamada podcast, para ouvir programas que antes não conhecia - em boa verdade, que não se escutam na estação de rádio que sempre teve sintonizada -, apreciar novos radialistas - ainda que na verdade não estejam associados a nenhuma estação de rádio, mas o sr. João não sabe disso -. Mais importante, para ouvir outras músicas, que foi encontrando nas partilhas de todos aqueles com quem passou a partilhar as suas noites. Ao seu mural, chegavam links do YouTube, do Soundcloud, do MixCloud, do Last FM, do Spotify e de tantos outros sistemas em tudo semelhantes as estes: música a pedido, gratuitamente e à descrição. Um novo mundo, paralelo à rádio que conhecia.

Algum tempo depois, antes de começar as férias, sentia-se estranhamente cansado e desmotivado. No emprego a crise mudou as rotinas. Estás cansado, diziam. Precisas de férias, comentavam. Dias antes de partir para férias, olhou para o auto-rádio e fez zapping. Nada lhe agradava. Ao chegar ao estacionamento do edifício onde morava, deu duas voltas antes de encontrar o seu lugar. Cansaço, pensou.

No dia seguinte, a mesma rotina. Acordar, ligar a rádio. Sair, entrar no carro, a rádio a tocar. Chegar ao emprego, ligar o computador, carregar no player do website da sua rádio preferida. Sair, regressar a casa, com a rádio por companhia. No horizonte, o sol forte, a pedir praia. O sr. João não foi à praia.

No dia seguinte, fez as malas e rumou às desejadas férias. No carro, desligou a rádio. A mulher, companheira de tantos e tantos anos, estranhou. Ele sabia que iria perguntar e, antes que o fizesse, disse: apetecia-me ouvir música. Que pena não ter uma daquelas coisas que se ligam ao carro. No caso, um leitor de MP3, com entrada USB. O carro não tinha USB. Encostou na primeira bomba de gasolina que encontrou. Saiu do carro, abriu a bagageira. A mulher gritou, do banco da frente: "tens aqui água!". "Não é isso...", respondeu-lhe. "As sandes estão no saco térmico". Ele pensou simplesmente que não queria sandes, sequer água. E calou-se.

Tirou o tablet. Aumentou o som até ao nível da quase distorção e pediu à mulher para o levar no colo. Ligou o carro. E seguiu, ouvindo simplesmente, música".

 

Paula Cordeiro

Investigadora e Coordenadora da Unidade de Ciências da Comunicação no ISCSP

(Declaração de interesses: Paula Cordeiro é actualmente a provedora do ouvinte na rádio pública. Escreve na qualidade de investigadora na área da rádio)

Este artigo não foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.

Fonte: Briefing

sexta-feira, 27 setembro 2013 14:11

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