Opinião

Impressão Digital

Impressão DigitalEntre os seus vários sentidos, diz o dicionário que a impressão digital é o acto ou efeito de imprimir, que é uma coisa impressa ou a reprodução, sobre papel, das cristas papilares para identificação pessoal. Complicado? Demasiado, se o objectivo é falar de rádio, esse meio de comunicação social aparentemente simples e pobre que é, afinal, tão rico e complexo. Da mesma forma que as impressões digitais são únicas em cada indivíduo e o identificam de forma imutável, a rádio é a minha impressão digital. Ou parte dela.

sexta, 12 fevereiro 2016 11:17

A maior parte conhece-me por esta paixão da rádio aliada à investigação dos seus contextos e singularidades em ambiente digital. E se, de repente, eu vos dissesse que nada disso é fundamental se não tivermos criatividade para gerar conteúdos de interessante qualidade? Há anos que venho falando no regresso das pessoas à rádio para que esta continue a ter pessoas que a oiçam. A rádio é feita por pessoas, para pessoas, já o afirmei mais do que uma vez. Talvez até já o tenha escrito.

Curiosamente, uma das discussões do semestre deu-se em torno desta questão durante as minhas aulas de Rádio e Multimédia. Numa hierarquia de prioridades, havia quem argumentasse que seria o orçamento a definir a essência de uma estação de rádio, outros debatiam-se pelo formato, enquanto alguns insistiam, assertivamente e esperando confirmação, no público-alvo. Não tenho dúvidas que, sem definirmos as pessoas para as quais queremos comunicar, não comunicamos. Estejamos a falar de sabonetes, da rádio ou de um político, são aqueles a quem nos queremos dirigir que determinam formas e conteúdos. Por vezes – talvez muitas vezes – há uma ideia que se executa e resulta. Sem definições para além da criatividade que lhe está associada. Ou há uma audiência que espera mais daquilo que já conhece. E quando não há?

Damos tiros no escuro, andamos a apalpar e quem investe persegue-nos procurando resultados. Também acontece perseguirmos anunciantes que, na incerteza do retorno, não arriscam. Por isso, a rádio e as pessoas. Porque, quando lhes falamos ao ouvido, elas ouvem. Quando lhes dizemos algo que lhes é relevante, escutam. Quando lhes oferecemos o que lhes importa, esperam que o programa acabe antes de desligarem o aparelho.

As pessoas ouvem rádio para se informarem, distraírem, para serem seduzidas e ficarem na nossa companhia. Na companhia de alguém. Mesmo que seja apenas entre meia dúzia de canções alinhadas e publicidade. O que importa é que esse alguém esteja lá. Que transforme aqueles instantes num universo no qual as palavras ganham luz e cor, as formas dependem de quem as imagina e os sons representam mais do que conseguiremos alguma vez, transmitir.

Não interessa do que se fala, mas como se fala, afirmo-o, esta semana, no programa Em Nome do Ouvinte, na RTP. Porque a rádio faz-se para ser ouvida. Uma rádio feita para nós, que a produzimos, não funciona. Funciona para quem a faz e muito pouco para quem escuta.

Não nos esqueçamos desta missão que é a de comunicar. A rádio comunica. É essa a sua impressão digital. Se até a Volkswagen percebeu que são as pessoas que importam e não a tecnologia, como poderá a rádio, alguma vez, esquecer-se disso?

sexta, 12 fevereiro 2016 14:03

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