Opinião

Ainda se lembra? Foi há 25 anos!

Um cenário cinzento ou em tons crus. Um “Telejornal” demasiado preso às agendas institucionais, com um alinhamento clássico, e com constantes suspeitas de instrumentalização politica. Programas de “variedades”, formatos portugueses, apresentadores sem brilho, porque o primado era o conteúdo e não as estrelas.

sexta-feira, 06 outubro 2017 11:44
Ainda se lembra? Foi há 25 anos!

 

Provavelmente, já poucos se lembram, mas era assim. Era assim a televisão há 25 anos. Em rigor, sejamos justos, era assim a televisão há 26 anos, que a RTP começou a ensaiar uma pequena mudança no ano que antecedeu a efetiva abertura do espectro audiovisual à iniciativa privada.

Era um esforço de centenas de profissionais, mas inglório. Por três razões: em primeiro lugar, porque é difícil fazer mover um elefante habituado a antigas rotinas; em segundo lugar, porque os espectadores estavam habituados assim e todos nós somos animais de hábitos; e em terceiro, last but not the least, porque ninguém estava à espera da dimensão da revolução.

Sabia-se que a SIC ia trazer “coisas novas”, ia “fazer diferente”. Não se sabia quão diferente. Ninguém imaginou que de repente os cenários cinzentos com risquinhas passariam às montras coloridas rosa-choque, com relevos e dourados, encomendadas a Tomás Taveira. Ninguém imaginaria que o povo, mesmo o feio, gordo e desdentado, e as suas angústias, sonhos e realidades, chegasse com estrondo ao pequeno ecrã. Ninguém ousaria pensar que as apresentadoras subissem a saia e baixassem o decote e que os jornalistas juntassem à sua curiosidade profissional uma dinâmica até aí inexistente.

A chegada da SIC há 25 anos, e meses mais tarde da TVI, representou um tempo novo na televisão. Uma revolução. Como, anos antes, a TSF, o Público e O Independente tinham significado. A democratização do acesso à informação, a pluralidade opinativa, a emergência de novos poderes, a diversificação do gosto e das propostas de entretenimento fizeram de 1992 uma viragem histórica.

Uma viragem libertadora, com excessos seguramente, mas libertadora. Na SIC foi possível ver uma atriz, Alexandra Lencastre, “Na Cama com...”, a entrevistar figuras públicas. Na SIC foi possível ver talentos desconhecidos de um país que não acreditava em si próprio (“Chuva de Estrelas”). Na SIC foi possível ver reencontros de gente amiga que a vida tinha separado (“Ponto de Encontro”). Na SIC foi possível fazer as pazes (“Perdoa-me”), dar viagens (“Não se esqueça da escova de dentes”), estimular a sedução (“Ai os Homens” ou “Ousadias”). Na SIC foi possível fazer televisão com uma câmara em movimento (“Muita Loco” ou “Buereré”) ou ouvir um apresentador a dizer a palavra “xixi” a cada 30 minutos (João Baião, em “Big Show SIC”).

Emídio Rangel, o homem que inventou a roda televisiva, sabia que só se juntando ao povo conseguiria vencer. E vender sabonetes e Presidentes da República. A História veio dar-lhe razão, mesmo que ele já não tenha tido tempo de o ver, quando, anos depois, a TVI, que usou os mesmos trunfos uma década mais tarde, fez de Marcelo Rebelo de Sousa o que ele é hoje.

Mas a SIC não foi só festa, saltos, e bodo aos pobres. Foi também a televisão da informação fora do estúdio. Da televisão dos diretos, das perguntas difíceis e chatas, dos momentos de tensão. Foi a SIC da tragédia no Aquaparque, do buzinão na ponte, do “Praça Pública”, das perguntas embaraçosas e das respostas esguias. Foi a SIC dos debates polémicos, dos “Casos de Policia”, dos “Donos da Bola”, do “Terça à Noite”.

De lá para cá, muito aconteceu. A TVI cresceu e tornou-se líder, a SIC tenta reinventar-se sem dinheiro e na encruzilhada em que a crise a mergulhou. A RTP, que soube modernizar-se, melhorar a sua oferta e até, em determinado momento, mimetizar os privados, caminhou em duas décadas e meia de ziguezague. Ao sabor da maré e das vontades politicas. Ora pública, ora quase privada. Ora financiada pelo Orçamento do Estado, ora pela Contribuição Audiovisual.

Feitas as contas, e apesar dos pesares, o fim do monopólio da RTP foi o melhor que podia ter acontecido a todos. Ao público, pela maior diversidade de propostas. À indústria, pela dinâmica na produção e na criatividade. E à própria televisão pública, obrigada a soltar-se das suas próprias amarras.

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