Opinião

Storytelling linear

Olhamos para o telemóvel mais de 150 vezes por dia. Passamos o dia a fazer scroll no telemóvel. O scroll entrou nas nossas vidas e dá-nos prazer. É por isso que os conteúdos têm que deixar de ser desenhados para o olho ou para o cérebro, mas para o responsável pelo scroll: o dedo. Quem o defende é Mario García (@DrMarioRGarcia), o homem por detrás da transformação de design e digital do The Wall Street Journal ou do The Washington Post que esteve recentemente em Portugal no 70th World News Media Congress.

terça-feira, 07 agosto 2018 11:06
Storytelling linear

 

Para que fique claro: este é um artigo sobre design, webdesign, organização de informação, gestão de conteúdos e comunicação multiplataforma. É um artigo que resume algumas ideias-chave da revolução de conteúdos de media defendida por García, mas perfeitamente adaptáveis aos conteúdos pensados para o mundo digital.

Nas aulas de García – consultor de media, especialista em storytelling para telemóveis e professor na Columbia University School of Journalism – os alunos começam por pensar os conteúdos para os telemóveis. Para isso cortam papeis do tamanho do ecrã do telemóvel, colam-nos uns aos outros de forma sequencial, simulando ao vivo e em papel o scroll feito pelo utilizador no dispositivo móvel. Os resultados são uns lençóis de papel enormes com blocos de conteúdos escritos intercalados por post-it. Cada post-it identifica a necessidade de quebrar a escrita com outro tipo de conteúdo: vídeo, fotografia, citação, subtítulo, ilustração, infografia, um espaço “saiba mais” e muitos outros tipos de quebras. O professor não tem dúvidas: “Se a história funciona no telemóvel vai funcionar melhor no tablet e no computador”.

Para que o processo criativo comece pelo ecrã mais pequeno é necessário pensar a sequência dos diferentes conteúdos como se fosse um filme de cinema ou, no caso de longas reportagens, pensar como se fossem episódios de séries televisivas. Trata-se de analisar, ao detalhe, a fluidez da narrativa com as quebras visuais. Mario García aconselha os alunos a lerem livros sobre realização cinematográfica para que aprendam os métodos utilizados pelos realizadores de cinema.

Para além do jornalista, o professor enaltece dois profissionais das redações: o webdesigner e o gestor de conteúdos. A redação exímia da história por parte do jornalista mantém-se incontornável, mas o webdesigner acumula agora a função de visual storyteller. Segundo García, na atual revolução digital dos media as competências do webdesigner resumem-se a uma combinação 3+1: storytelling – saber como contar histórias; tecnologias – dominar as ferramentas que permitem as quebras complementares à leitura e a forma apelativa de as integrar do início ao fim da peça; marketing – como vender e promover a história faz parte do processo mais do que nunca; e o design – em último lugar por ser um dado adquirido.

Depois de criada é o gestor de conteúdos que decide como vai a história fluir ao longo no dia – ou dos dias – nas diferentes plataformas. É quem define as horas de disponibilização da história online e quando, porquê e que tipo de informação é partilhada nas diferentes redes sociais.

A versão impressa deixou de ser protagonista, mas Mario García não concorda com o abandono desta plataforma. Numa lógica multiplataforma, García acredita que é basilar perceber o contributo do papel para a marca global do media, encontrando o local certo para todos os formatos. Como elemento de união entre papel e digital aponta os designing cards, marcas visuais criadas para ajudar o leitor a distinguir as diferentes tipologias de informação que o media fornece sejam artigos de opinião, entrevistas, especiais, citações ou outros. Depois de funcionarem bem online, porque não replicá-las no papel? As ilustrações são outro exemplo: muitas não funcionam no online e são muito impactantes no papel.

Tirar partido das sinergias entre o papel e o digital, crossmedia e transmedia storytelling são as tendências apontadas por García para o consumo de media que estamos a vivemos. Na era em que criamos conteúdos para multiplataforma - telemóvel, tablet, computador, papel, relógio ou mesmo Google glass – a relevância da narrativa continua a ser a chave do sucesso. Escrevê-la como se fosse uma história pessoal carregada de conteúdos emocionais é uma mais-valia a não descurar. Para García os que melhor estão a responder ao desafio do digital são: The Washington Post, The New York Times e Axios.

Não posso deixar de afirmar, sem rodeios, que em Portugal já encontramos bons exemplos da maior parte destas ideias-chave aplicada aos media. Porém, falta-nos dar o passo seguinte e repensar a forma como disponibilizamos os conteúdos nos websites, blogs, publicações digitais ou redes sociais. A fórmula “olho+cérebro+dedo” é de certeza um caminho a explorar na comunicação corporativa, de produto, de serviços e de tantas outras áreas. Como diria García “You must keep the finger happy”.

Ana Marreiros, communication manager no BCSD Portugal – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável

 

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