Opinião

Muito modernos, quase falidos

A comunicação contemporânea baseia-se num conjunto de ligações e inter-relações estruturadas através de um espaço comum de conexão: a internet, esse paradigma alternativo, lugar de brincadeiras inconsequentes, propaganda política e outros contextos de práticas comuns nos quais também os meios de comunicação social se inserem, investindo sem grande retorno.

segunda, 17 setembro 2018 11:01
Muito modernos, quase falidos

 

A transição do meio analógico para o meio digital desenvolveu um conjunto de alterações ao nível da comunicação e da própria sociedade, fruto do desenvolvimento tecnológico, com o aparecimento da web e o surgimento de meios de comunicação estritamente online. Há duas décadas que assistimos à indústria da comunicação social no seu ponto de inflexão, obrigando as organizações mediáticas à inovação, redução de custos e adaptação aos padrões de consumo dos consumidores, sem que consigam encontrar uma forma de rentabilizar o investimento adicional, porque, efectivamente, isto de estar em rede e na rede é muito bonito, mas custa dinheiro. O primeiro tiro no pé aconteceu no dia em que alguém decidiu vender uma página de jornal oferecendo um banner em complemento. Se é “grátesss” (arrastando a expressão da palavra) não tem grande valor… E assim continuamos, à procura do valor do online.

Os padrões de produção e consumo estão em rápida e constante evolução, ao mesmo tempo que cresce a oferta e diversificação de conteúdos, a par com uma lógica de utilização da internet gratuita e da consulta de conteúdos também sem pagar. A estrutura da comunicação contemporânea é complexa e paradoxal, pela forma multifacetada das relações que estabelece entre o digital e o analógico cruzando, igualmente, o contexto online e offline. É, sobretudo, dependente de uma infra-estrutura de interacção e circulação de informação que se configura enquanto plataforma digital e aplicações móveis.

Os grandes negócios do século XXI são os criadores e os principais agentes deste sistema, garantindo a sua estrutura e contribuindo para o seu desenvolvimento: Google, Facebook, Apple são exemplos de plataformas cujo negócio é o de juntar produtores e consumidores, baseando as suas relações em trocas de informação, bem como na interacção que proporcionam, numa cadeia de valor que é a sua maior vantagem competitiva. Os dispositivos, principalmente smartphones, e os seus sistemas operativos são mais do que o produto, assumindo-se, também, como principal serviço para aceder à principal plataforma de interacção e informação, recorrendo a aplicações móveis cuja estrutura gera valor para ambos os lados: acesso, interacção e informação para o utilizador; retorno financeiro para o seu criador.

É esta a principal característica de um novo modelo de comunicação e negócio, com diversos níveis de envolvimento, entre os que detêm a plataforma, controlando a sua rentabilidade e os direitos de autor, os que fornecem o acesso a este interface para produtores e consumidores de conteúdos. As organizações mediáticas situam-se no lugar de produtores, procurando acompanhar as tendências definidas por estas organizações, tornando-se em motores de informação, produzindo e distribuindo conteúdos através dos seus diferentes canais, principalmente os media sociais digitais, correspondentes às plataformas que interferem directamente no seu modelo de negócio.

Se, por um lado, o jornalismo digital pode representar uma diminuição dos custos de operacionalidade, por outro, verifica-se que esta diversificação representa um acréscimo de custos, pela necessidade de contratação de profissionais qualificados e especializados na concepção, criação e produção de formatos multimédia e interactivos. Por outras palavras, está tudo lixado porque não controlamos a plataforma da qual dependemos, o que, em última análise, faz dos media estruturas muito modernas, mas tecnicamente (quase) falidas.

 

Paula Cordeiro, investigadora

 

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

bt nl

Assinatura Mensal
Edição MensalE-paper

Facebriefing

Melhores Briefing