Opinião

3D – Data Driven Decisions

No atual limiar da nossa existência humana, em que circunstâncias mantemos o domínio completo da nossa tomada de decisão, livre, autónoma e independente? Ou, na verdade, nunca o foi, enquanto tal, verdadeiramente? Até que ponto, a aplicabilidade trendy and sexy, da expressão ‘Data Driven Decisions’ é, unicamente, uma evolução, no plano digital, de uma realidade já existente, ainda que analógica ou verdadeiramente humana?

segunda-feira, 28 janeiro 2019 09:38
3D – Data Driven Decisions

 

Retiremos extratos do diário de vida do António:

 Sábado

O sol está intenso. A luz brilha, como sempre, em Lisboa. Aproveitou o dia para, finalmente, visitar o Museu da Presidência da República com a família. E, os jardins do palácio, excecionalmente abertos para o público. Antes, passará pelo CCB para visitar a nova exposição. Aproveitando o sol, as ruas estão pejadas de gente.

Ainda que em segurança, portugueses e estrangeiros acotovelam-se comodamente e com elegância pelas ruas. Subitamente, barreiras de polícia municipal ou de social stewards’ são colocadas. Alegadamente, excesso de visitantes. Tais barreias orientam-no para a zona ribeirinha. Aproveita a promoção disponível e a pouca afluência e passa o resto do dia no Museu de Arte Popular e por umas renovadas selfies na Torre de Belém. Quem decidiu?

 Segunda-feira

No seu posto de trabalho, numa empresa de referência em serviço de apoio ao cliente, recebe um novo contato: “Precisamos, com urgência, de um novo laptop aqui na empresa”, lê, no e-mail que acaba de abrir. Identifica o cliente no seu sistema de apoio à decisão comercial – as preferências conhecidas e a disponibilidade no inventário existente.

No ecrã, de súbito, surge uma sugestão: “Propor um novo modelo “KRT35D2. Que o cliente ainda não conhece. De que você ainda não ouviu falar. Que terá uma taxa de satisfação estimada de 92%, com uma margem de erro de 5%. Seguindo a sugestão, propõe. Seguindo a sua proposta, o cliente aceita.  Quem decidiu?

 Quinta-feira.

É o aniversário da sua filha. Uns maravilhosos seis anos. Ali mesmo, ao pé de casa, está o restaurante de sempre. Aquele onde já celebrou muitas conquistas familiares. De que os seus pais sempre gostaram. Que a sua mulher adora.

Durante o dia, no seu telemóvel, pesquisa aquele presente’. E, entre as suas pesquisas, repete-se à saciedade, um novo espaço de restauração – altamente recomendável por famílias nos mais diversos sítios da internet especialidade. Ao investigar, é-lhe oferecido um voucher especial de desconto por ser novo cliente ‘25%, diz!’. E, subitamente, recebe uma chamada – ‘Verificamos que está interessado em fazer uma reserva com o nosso restaurante!, dizem do outro lado. ‘Posso ajudar? Quem decidiu?

Crescemos na ambição de o nosso comportamento decorrer, exclusivamente, da nossa vontade. Entendendo-se vontade, como expressão efetiva decorrente de uma decisão tomada cognitivamente. E, de algum modo, convivemos bem com a ideia que a nossa decisão possa ser influenciada pelo meio ou pelos outros, de algum modo. Mas, sempre, convictos, que a última palavra, nos coube.

Quando pensamos em ‘data driven decisions’, podemos utilizar tal pensamento conciliador das nossas aflições – decidimos nós, mas mais informados – data driven – mais esclarecidos. Na verdade, quando o reflexo prático é o de agirmos de outro modo que não aquele que efetivamente tínhamos decidido, o que daí decorre não é outros terem decidido por mim?’ E, se assim for, que ‘outros’ são esses?

E, até que ponto, alguma vez, na história da humanidade, fomos nós, alguma vez, a decidir?

Nuno Nogueira, VP Marketing & Comunicação da Rebis Consulting

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