Opinião

A produtividade foi boa. Mas, e a criatividade?

Quando recentemente perguntaram a um embaixador japonês qual era a sua opinião sobre a revolução francesa, ele respondeu, depois de uma breve reflexão, que ainda não era possível fazer um balanço concreto porque ainda só tinham passado 200 anos. 

quinta-feira, 02 julho 2020 10:15
A produtividade foi boa. Mas, e a criatividade?

 

Mesmo que a história não seja exatamente assim, deveria permitir refrear o excitamento generalizado que as vantagens do teletrabalho parecem agora trazer para todos nós.

Entre todas as mudanças que esta pandemia despoletou, o teletrabalho é a que mais rapidamente se implantou.

Uma tendência que parece ter vindo para ficar e que terá influência na vida de milhões de pessoas, empresas e países por esse mundo fora.

Grandes marcas como a Google, o Facebook, ou a Associated Press já afirmaram que os colaboradores só voltam ao escritório no início de 2021. Por cá, e no momento em que escrevo, os meses de setembro e outubro serão os de regresso, coincidindo com o início do ano escolar. Medidas que parecem acertadas em função dos últimos acontecimentos. Os empresários que acabam de investir em grandes centros de escritórios devem estar a pensar que terão cometido um grande erro estratégico. Em todo o mundo há empresas a libertar espaço e a vender edifícios inteiros. O metro quadrado no centro das grandes cidades irá baixar e muitas pessoas poderão voltar a viver mais perto do centro. Resta saber se querem, ou se, com o teletrabalho, vão preferir morar na praia ou no interior.

Mas se, à primeira vista, o teletrabalho parece ter mais vantagens do que desvantagens, há consequências que são imprevisíveis e podem não ser tão boas assim.

As fronteiras entre países vão esbater-se e dar lugar às telefronteiras. Se é possível contratar alguém que trabalha a partir da Ericeira ou de Bragança, também será possível contratar quem trabalha a partir da Índia, do Brasil ou da Moldávia. O preço por hora vai baixar muito (o que que, numa primeira fase, até poderá beneficiar os trabalhadores portugueses, que têm um salário inferior à média europeia), mas, depois, virá também a insegurança social. Os benefícios e direitos das sociedades mais organizadas serão postos em causa e poderão colapsar sem o pagamento de impostos e de segurança social por parte de teletrabalhadores que estarão a milhares de quilómetros de distância. 

Apesar de todos estes temas serem relevantes, como fundador e diretor criativo de três empresas que dependem da criatividade, este é o tema que mais me preocupa. Quais serão as consequências na criatividade deste isolamento social e profissional? Nas minhas redes sociais, abundam as opiniões de criativos que enaltecem as vantagens incontornáveis do teletrabalho, mesmo para a criatividade. 

Picasso trabalhava sozinho no seu atelier e foi um dos mais criativos pintores da Humanidade. Será que não podemos obter os mesmos resultados?

Uma das empresas que aprofundou esta questão foi a IBM, que, em 2017, realizou uma experiência com os seus colaboradores em regime de teletrabalho. Em causa estava a avaliação da criatividade e a capacidade de inovar trabalhando desta forma isolada. A experiência foi abandonada porque se concluiu que a criatividade era insuficiente e nenhuma ideia realmente inovadora tinha surgido nesses muitos meses que durou a experiência.

Todos sabemos que a socialização é essencial para o ser humano. A máquina do café é dos locais mais estimulantes para a criatividade profissional. É ali muitas vezes que se encontram novas soluções e respostas para velhos desafios. A espontaneidade, a comunicação não verbal, o humor, a partilha de problemas, a coesão social, dependem destas interações diárias que a distância e a tecnologia não conseguem colmatar. A NOSSA é uma agência reconhecida por ter uma forte cultura interna, criada pelos seus líderes e que é reforçada a cada interação. Não será possível ter uma boa cultura interna se as pessoas estiverem todas a trabalhar externamente. Mesmo a progressão das carreiras torna-se mais difícil em teletrabalho. Quem gosta de assumir a liderança, de resolver problemas gerais ou fazer mais do que lhe é pedido, encontra no teletrabalho muitos obstáculos à sua realização e valorização profissional.

É unânime que a carga de trabalho tem aumentado, que o número de reuniões cresceu 35% e que já não conseguimos separar as horas de trabalho, das horas da família. Mas também é verdade que o equilíbrio que se consegue entre a vida pessoal e a profissional é uma vantagem que deve ser avaliada e confrontada com o isolamento profissional a que voluntariamente todos nos sujeitámos. 

Obviamente que quem leu até aqui já percebeu que não morro de amores pelo teletrabalho. Talvez por o meu casamento ter começado num romance de escritório, coisa que dificilmente poderá acontecer nesta nova forma de trabalhar.

E se por agora nos queixamos de que os smartphones são maus para as relações pessoais, em breve vamos perceber que o teletrabalho será ainda pior. A solução estará num modelo híbrido, mas esse tema ficará para outro dia porque agora vou acabar de ver uma série na Netflix.

 

Nuno Cardoso, fundador e diretor criativo da NOSSA

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quinta-feira, 02 julho 2020 12:59

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