Briefing | O que motivou a realização dos Bea World 2017 em Portugal?
Ana Fernandes | Há vários anos que a APECATE é parceira dos BeaWorld, integrando o seu órgão consultivo e em algumas edições o júri. Como tal, acompanhamos a evolução ao longo dos anos e a forma como se posicionou como uma referência europeia, mas também internacional.
Acreditamos que este é um evento importante para as empresas que participam pois é um espaço de network, de encontro de potenciais parceiros, que reúne as condições ideias para edificar alianças… não é por acaso que o tema deste ano é “Where Criativity Meets Business”.
Mas percebemos, especialmente com a experiência de Sevilha, que recebeu o evento em 2014 e 2015, que esta era também uma excelente plataforma para o posicionamento do destino. Isto é, a cidade, e o país que recebem os BEA, têm uma oportunidade de excelência de apresentar os atributos do local, perante uma plateia constituída pelas melhores e maiores agências, mas também perante os seus clientes… isto é, os principais decisores de cada evento participa nos BEA.
Se a todos estes ingredientes juntarmos a vontade da APECATE de fortalecer o seu departamento de Congressos e Eventos, e de se afirmar como a associação que efetivamente defende os interesses dos seus associados, mas de toda a Indústria em Portugal, então ficam reunidas as condições ideais.
Não seria justo esquecer neste ponto a política da Secretaria de Estado do Turismo e do Turismo de Portugal, na captação de eventos internacionais, e a forma entusiasta como receberam a nossa proposta, assim como a Cidade do Porto.
Quais as expetativas da APECATE para a edição deste ano dos Bea World?
Ainda sem dados finais, o número de inscrições de eventos para os prémios e de delegados já superou todas as edições anteriores. Estamos no bom caminho no número de participantes. E isso significa um nível de competição muito elevado, que vamos poder assistir ao longo do dia 16 de novembro na Alfândega. Acreditem que são sessões muito inspiradoras, pois as agências revelam alguns dos “bastidores” dos eventos e para além da criatividade e execução estarão em avaliação critérios relacionados com a eficácia e os objetivos cumpridos… e essa é uma reflexão que nem sempre é efetuada na programação de um evento…
Destaco o programa de dia 17, também na Alfândega, dedicado à reflexão do futuro dos eventos, e ao novo paradigma na sua análise… não é por acaso que os BEA se denominam o Festival da “Live Communication”. O paradigma está a mudar e é necessário dar atenção a novas abordagens no campo da neurociência, da comunicação, dos Milleniums, da tecnologia… e de que forma isso influencia os eventos à escala local e global….Haverá espaço para conversas one to one, assim como as refeições também serão dinamizadas por experts internacionais.
O objetivo é que todo o Festival seja um espaço de conhecimento e reflexão. A Gala será o momento alto, não só para os premiados, mas para toda a equipa de parceiros que está a preparar um espetáculo de elevado nível no Teatro Rivoli.
Destaque ainda para todo o programa social, que irá permitir aos delegados ir ao encontro do Porto: Palácio da Bolsa, Terminal de Cruzeiros, Ateneu Comercial, visitas às Caves de Vinho do Porto em Vila Nova de Gaia, e um programa de descoberta do Porto elaborado por algumas empresas de animação turísticas, nossas associadas, complementam o programa.
Para nós, é ainda importante a capacidade que estes eventos têm para gerar futuros profissionais, pelo que é com orgulho que integramos os alunos da Escola de Turismo do Porto em várias funções de acolhimento, orientação, guia e mesmo gastronómicas.
Em que consistiu a participação da APECATE na organização?
A APECATE é o parceiro local. Isto significa assegurar todas as condições logísticas e operacionais. Negociar os patrocínios e apoios locais e nacionais. Somos ainda responsáveis pela comunicação em Portugal. Isto significa uma responsabilidade muito grande para APECATE que iniciou este projeto, orçamentado em 400 mil euros, com apenas o apoio do Fundo de Captação do Turismo de Portugal. O apoio da EDP permitiu consolidar alguma liquidez ao evento, mas contávamos com outros apoios financeiros de algumas outras instituições privadas e públicas, mas até ao momento não se concretizaram.
De resto, estamos agradecidos aos muitos parceiros que se associaram (e alguns ainda continuam a aderir) apoiando com serviços fundamentais à efetiva concretização do evento.
Tal significa que todos estes parceiros estarão em contacto direto com os delegados dos BEA mostrando na prática os serviços que prestam, trocando contactos e posicionando-se para futuros eventos em Portugal, mas não só….
E é neste investimento de futuro que acreditamos os BEA são uma aposta ganha, apesar de ainda não equilibrada financeiramente.
É a primeira edição do evento a nível mundial. É uma responsabilidade acrescida?
Sim. Pela primeira vez foram abertas inscrições a eventos de agências de fora da Europa.
Os Bea World atingiram um nível de sucesso na Europa, reconhecimento pela indústria e capacidade de alavancar os projetos e agências vencedoras que o alargamento ao resto do mundo aconteceu naturalmente, mas também por pressão das agências internacionais. Por outro lado, é também a afirmação desta indústria ao nível global. As maiores agências têm escritórios nos vários continentes, e desta forma é mais clara a candidatura a concurso, isto é, não tem de passar pelo escritório europeu, se este não esteve envolvido no projeto.
No entanto, este alargamento traz alguns riscos, pois a competição também se torna mais exigente e a escala maior, não é de descurar que os budgets que são trabalhados diferem exponencialmente se falarmos de Portugal ou da Europa Central, mas essa diferença aumenta quando comparada com os Estados Unidos, Dubai ou China. O que temos que ter em atenção é afinar as categorias de forma a que continue a ser comparável os critérios de avaliação, e continue a dar-se maior preponderância à Eficácia do evento, em detrimento de budget, estrutura e/ou grandiosidade.
Para Portugal, não poderia ter ocorrido em melhor altura. Esta mudança fez com que o detentor do evento – ADC Group, efetuasse uma campanha global tendo como referência Portugal, e o Porto em particular. Apesar de este ser o primeiro ano, os resultados já estão à vista, e a afirmação do destino, também passará pelas provas que der no decorrer do evento.
Há cinco eventos portugueses na shortlist. O que distingue Portugal na realização de eventos?
Criatividade! Capacidade de trabalhar com orçamentos muito mais baixos que as nossas congéneres europeias, sem descurar a qualidade do que é apresentado! Capacidade de reinventar novos produtos, novas finalidades para projetos ou realidades já existentes.
O facto de cada vez mais valorizarmos atributos endógenos, tem feitos com que nos destaquemos… se falarmos da Nazaré, do Douro, são apenas alguns exemplos de como características tão nossas, têm feito tanto pelos nossos eventos… (até parece que demoramos a descobrir o tínhamos em casa).
E acredito que vivemos uma nova realidade no que respeita à criação de eventos, que se relaciona com o novo ecossistema de rede, partilha e start ups… está definitivamente a influenciar a nossa indústria com novas soluções, novas tecnologias, novos serviços, também no campo dos eventos.
Qual a importância da realização destes eventos em Portugal?
Ao contrário da maior parte das atividades económicas que conseguem contabilizar o seu contributo para a economia do País, os eventos, por várias circunstâncias ainda não conseguem ter essa contabilidade afinada…. como é natural os seus números estão incluídos nos números do Turismo. Mas na realidade quanto valem isolados? Quantas pessoas empregam? Qual o seu contributo para a economia local e nacional? Qual o efeito que a sazonalidade tem….
São perguntas ainda sem resposta, apesar de estar a ser preparado entre a APECATE, o Turismo de Portugal e a Secretaria de Estado do Turismo um conjunto de medidas que irá culminar no Registo das Empresas de Eventos. A partir desse momento essa importância estará quantificada.
Mas uma coisa sabemos! O sucesso de cada evento efetuado em Portugal é um chamariz para o próximo… e esta é uma área em crescendo.
Quem são os países que competem com Portugal para a realização de eventos corporativos?
Espanha é uma das concorrentes principais, mas todos os países do mediterrâneo são sempre opções em alternativa a Portugal.
Claramente Portugal está na moda, por um lado todos os fatores próprios, como as pessoas, a história, o clima, o investimento crescente em novos equipamentos e hotelaria…e tem apresentado índices de atratividades crescentes. As questões de segurança e estabilidade são importantes fatores de decisão na escolha do destino, e neste capítulo Portugal tem conseguido apresentar-se como um dos Países com melhores garantias.
Portugal beneficia assim de questões políticas como as de Barcelona, ou de atos de terrorismo, que tornaram mais inseguros destinos como a Turquia, a Tunísia ou o Centro da Europa.
Como pode Portugal ser mais competitivo de modo a receber mais eventos?
Portugal tem definitivamente de se apresentar como um todo, com alternativas às que Lisboa apresenta. Diversificar oportunidades por outras áreas do País, posicionando o Norte, Centro, Alentejo, Algarve e Ilhas como potenciais recetores de eventos, e para cada uma destas regiões ir afinando área de especialização que permitam diferenciarem-se não só nacionalmente, mas sobretudo internacionalmente.
Mas para isso os agentes, públicos e privados, têm de trabalhar de forma coesa. Não se pode promover o Norte de forma diferente conforme seja a entidade A ou B a efetuar essa promoção, assim como não se podem construir equipamentos sem que estes trabalhem em rede com a restante oferta. Não faz sentido ter equipamentos com capacidade para congressos de milhares, se não existe capacidade hoteleira na região para em conjunto albergar os participantes, ou acessibilidades.
Também é necessário perceber, que quando um evento se deslocaliza procura algo inovador… e nesse campo é necessário abrir os espaços, em especial os públicos, para experiências diferentes das que estão padronizadas… e para tal é necessário ainda alguma abertura de espírito.
As questões da mobilidade, do ordenamento do território são outras das questões que a APECATE tem apontado como fatores chave para o sucesso desta captação… e sobre o ordenamento ainda muito há a ser normalizado, se pretendemos que muitos destes eventos ocorram em contacto com a natureza e no espaço público, naturalmente bandeiras de atração.
Mas estamos no bom caminho, e creio que os agentes estão atentos e começam a perceber que quando uns ganham, ganhamos todos (mesmo que não seja no imediato).

