Au revoir Libé

Diogo Queiroz de Andrade, Consultor de Media, Produtor de Conteúdos e Jornalista O Libération é fiel à sua natureza e não resiste a comprometer o próprio futuro.
Tem sido penoso acompanhar a queda de um título que já foi em tempos uma referência da imprensa europeia. O Libération, jornal cuja história se confunde com a esquerda libertária francesa, vive uma crise profunda e tem um problema insolúvel de identidade: uma redação de extrema-esquerda com uma administração comprometida com o mercado livre.

O processo já culminou no afastamento do diretor, tendo o mais recente episódio começado na recusa em trabalhar um dia inteiro. É difícil perceber em que medida é que uma greve de toda a redação durante 24 horas pode ajudar um jornal em crise. Mas, não satisfeitos com isso, os jornalistas decidiram afrontar a administração com uma machete. No domingo, a capa trazia escrito um original “Nous sommes un journal”.

Os jornalistas do Libération acharam que a notícia mais importante do dimanche francês era o seu próprio umbigo, mandando às trufas os princípios do bom jornalismo. Resolveram denunciar o plano da administração para levar o título até ao século XXI diversificando fontes de investimento, multiplicando a colocação de conteúdos e abrindo o jornal aos parisienses. A coisa, está bem de ver, caiu mal numa redação pouco habituada a estas coisas de gestão moderna que obriga um jornal a ter leitores.

A verdade é que o ‘Libé’ é um título original, fundado sob a égide maoísta de Satre e onde em tempos todos os funcionários ganhavam o salário mínimo. Só em 1991 começou a aceitar publicidade paga, mas isso não foi suficiente para o salvar da crise generalizada das últimas duas décadas. Tem acumulado perdas todos os anos e o útimo exercício custou um milhão de euros, mas ainda assim os jornalistas acham que a culpa não é deles.

Podem dizer o que quiserem, a verdade é que um jornal sem leitores não é um jornal. E a manchete de domingo apenas lembrou que o Libé ficou parado no tempo enquanto a sociedade avançou. A cada dia que passa o título perde relevância. Se os jornalistas se recusam a admitir mudanças, o destino é fácil de prever – quando o ‘Libé’ for encerrado, todos irão para casa remoer os incríveis tempos que viveram sem sequer os compreender.

Sexta-feira, 14 Fevereiro 2014 10:15


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