Briefing | Porquê o tema No Borders?
Guta Moura Guedes | É um tema crucial para este século. Vamos mantê-lo e trabalhá-lo durante alguns anos. Buckminster Fuller dizia, nos anos 60, que no século XXI não existiriam raças, divisões entre as pessoas, fronteiras. Dizemos todos que trabalhamos e vivemos num mundo global, o que é verdade e que existe como nunca existiu, mas o facto é que construímos, no evoluir da nossa espécie, uma sociedade cheia de barreiras. Sociais, económicas, raciais, simbólicas, tangíveis, espaciais, geográficas, linguísticas…. é só nomeá-las. Pensamos ser fundamental que seja feita uma análise profunda dessas barreiras e que o design seja uma das ferramentas para o seu desmantelamento ou, pelo menos, para a criação de novas superfícies osmóticas, verdadeiramente colaborantes e interativas.
Briefing | Como se vai traduzir na Bienal?
GMG | A Bienal vai acentuar o seu carácter de plataforma de discussão e reflexão e a sua dimensão fortemente internacional e plural. Vai derrubar modelos rígidos de desenvolvimento de conteúdos, inovando em muitas frentes. Os temas das exposições, alguns deles com um carácter político assumido, são todos centrados no tema da fronteira. Tomámos decisões radicais relativamente à comunicação, por exemplo, abandonámos o print, não há agenda, mas sim uma EXD MAG, uma App criada por nós em parceria com dois ateliers mix-media, que vai revolucionar a forma como comunicamos e como os conteúdos podem evoluir dentro de suportes digitais fortemente interativos de impacto mundial. E as Conferências de Lisboa e as Open Talks trazem, como nunca trouxeram, dezenas de interlocutores mundiais a Lisboa, para, em tempo real, falarmos de identidade, comunicação, progresso, contexto, pessoas, empresas.
Briefing | E, aplicado à criatividade, pode dizer-se que não tem fronteiras?
GMG | Na sua essência a criatividade não tem barreiras. O que não quer dizer, num parêntesis breve, que as barreiras não sejam um estímulo à criatividade, podem-no ser, mas são coisas distintas. A criatividade, per si, não pode, não deve, não tem barreiras. Ponto.
Briefing | No que respeita ao design, diria que as marcas o valorizam suficientemente?
GMG | Valorizam cada vez mais. Mas não o suficiente. Por um lado, por vezes veem-no como uma panaceia rápida, tipo make-up, que soluciona tudo, que torna um produto ou serviço mais bonito, mais sedutor e mais vendável. Por outro, quando entendem a sua verdadeira dimensão, esquecem-se que ao introduzir design numa empresa existem muitos mais elementos que têm de ser adicionados. E isso pede tempo, empenho e liderança. Implica uma mudança cultural dentro da própria empresa. Mas, estamos muito melhor do que em 1999, quando fizemos a primeira edição da experimentadesign.
Briefing | E Portugal é inovador neste domínio?
GMG | Portugal pode ser inovador neste domínio. Ainda não o é. Será se o conseguir aplicar a áreas de produção e de desenvolvimento, económico e social, mais inesperadas. E temos tudo para o fazer. Temos património, temos o mar, temos uma indústria com boa capacidade técnica, temos uma rede mundial baseada na língua e uma história grandiosa.
Briefing | Como se propõe a Experimenta contribuir para promover o design nacional?
GMG | De muitas formas. A Bienal tem sido um “ponta de lança”, a partir de agora vamos entrar noutras frentes, cá dentro e lá fora. Não gosto de falar do que ainda não está totalmente fechado e pronto a começar a acontecer. Quando estiver, conversamos de novo!
Photo: 2011 © Pedro Fernandes / ELLE

“No Borders” é o tema da Bienal EXD’13, que começa amanhã. Em entrevista ao Briefing, Guta Moura Guedes, presidente da Experimenta Design, explica como é importante derrubar as barreiras que subsistem na sociedade e como o design pode ajudar.