Quem confunde a crise dos jornais com a crise do jornalismo ou está muito distraído ou não quer perceber o que se passa. Felizmente, os sinais vindos de mercados mais maduros são muito claros. Ainda esta noite foi anunciado que se prepara um novo projeto jornalístico global baseado na internet e que está a contratar agressivamente – incluindo aquele que é atualmente o nome mais famoso (e útil) do mercado editorial, Glen Greenwald. Este projeto promete ser revolucionário pela dimensão do investimento, pela qualidade do jornalismo e pelo impacto global. O site ainda não tem nome conhecido, mas tem financiador: Pierre Omidyar, um franco-iraniano-americano que é o fundador do Ebay e uma das 50 maiores fortunas dos EUA.
A isto junta-se a recente compra do Washington Post por Jeff Bezos da Amazon, outra fortuna americana feita na internet. É dinheiro da internet a apostar em informação de qualidade feita a partir da internet. E não se fica por aqui. A The New Republic foi comprada por um dos co-fundadores do Facebook. O Quartz, que se assume como a Economist do século XXI, tem apenas um ano mas já está à beira do break-even graças um modelo de negócio surpreendentemente eficaz e rentável. O Huffington Post tem praticamente o mesmo tráfego do Twitter e não para de lançar edições um pouco por todo o mundo (a mais recente no Brasil). O Business Insider acaba de juntar 18 milhões para investir em ‘long-form journalism’, o mesmo caminho que está a seguir o BuzzFeed, depois de anunciar um valor recorde de tráfego na ordem dos 85 milhões de visitantes. Já agora, para fechar o ciclo, convém esclarecer que o exclusivo da saída de Greenwald do Guardian foi dado… pelo BuzzFeed (e só depois desenvolvido pela Reuters).
Ao mesmo tempo, os representantes mais sólidos da herança jornalística em papel adaptam-se com relativa facilidade aos novos tempos. O Financial Times anunciou que vai virar definitivamente a redação para o online, mantendo apenas alguns jornalistas concentrados na edição em papel. O The New York Times continua o esforço de consolidação da marca com o relançamento do seu título internacional e com a aposta redobrada nos modelos de negócio online.
Depois disto, olhar para o panorama jornalístico português é como ver uma emissão televisiva a preto e branco. Não há um projeto jornalístico relevante que tome a internet como prioridade no seu modelo de negócio. O peso de estruturas pensadas para outros tempos continuam a obrigar os jornais a arrastar-se quando se deviam estar a reinventar. A classe jornalística queixa-se mas pouco faz para aprender novas linguagens e assumir a responsabilidade de dar aos leitores o que estes necessitam da forma que querem. O cérebro de gestores, diretores e jornalistas continua a partir do papel e a copiar estratégias para o digital, em vez de o assumirem como prioridade. Começa a ser óbvio que existe muito espaço no digital para projetos jornalísticos credíveis que dominem a linguagem do meio onde já estão os leitores e está cada vez mais a publicidade.

O mundo dos media digitais é visto a partir de Portugal com estranheza e incompreensão. Pode o jornalismo ser um bom negócio? É óbvio que sim, e o novo media que vai nascer é apenas um dos exemplos.