Mipcom dominado pela inovação digital

Diogo Queiroz de AndradeO Mipcom é tradicionalmente dominado pela televisão como entidade dominante e omnipresente da indústria da distração.

Em regra, o circo de Cannes regula-se por uma ou outra novidade técnica (3D, HD4k, etc.) e por fervilhantes negócios de compra e venda de formatos televisivos que dão origem a fenómenos globais (do Big Brother ao Ídolos, passando por títulos como o Shark Tank).

E é sempre um local bom para tomar o pulso às novidades que vão entreter no ano seguinte. Mas mesmo aqui já se assume que o enfoque deixou de ser a tv enquanto indústria e passou a ser o multimedia digital.

Os pontos altos deste ano foram três: a conferência do responsável da Amazon para a produção multimedia – que produz, testa e exibe conteúdos à escala global e os distribui diretamente aos consumidores através da sua plataforma; a conversa do responsável do facebook para as parcerias de conteúdos digitais; a discussão sobre ‘audience engagement’, que incluiu representantes da AlJazeera e da CNN, mas também do Facebook e do BuzzFeed.

O mercado concentra naturalmente atenções em quem inova, como o Netflix que produziu e distribuiu de uma vez só a série ‘House of Cards’, estimulando o novo comportamento de “Binge Viewing” (que consiste em consumir uma série em poucos dias, em vez de esperar semanalmente pelo lançamento dos episódios). Ou os Amazon Studios, que produzem programas-piloto de dez séries e os disponibilizam ao mesmo tempo em vinte mercados diferentes, deixando ao consumidor o poder de decidir sobre quais querem ver produzidas. Todas estas ações escapam ao controlo dos distribuidores tradicionais. E isso significa que é audiência (e publicidade) que lhes escapa também. De ano para ano, a televisão está a perder relevo e quota de mercado nesta ‘indústria distrativa’ e já há quem compare o atual momento das tvs à crise dos jornais na viragem do século.

Claro que, em termos de negócio, o predomínio se mantém claramente do lado da tv. Mas a inovação e o serviço ao cliente estão cada vez mais do lado das plataformas digitais, como os sites que agregam conteúdos de informação e entretenimento e os principais nomes na área das redes sociais.

Isto são excelentes notícias para os consumidores e para os produtores de conteúdos. Os primeiros porque cada vez mais acedem a mais conteúdos de forma mais barata, e os segundos porque têm cada vez mais plataformas interessadas em comprar e agregar conteúdos. Mas são objetivamente más notícias para os canais tradicionais, e péssimas para os distribuidores como as empresas de cabo.

Assim, o que fica claro desta edição do Mipcom é que o modelo tradicional de tv está em risco acelerado de degradação. Os alertas estão aí e alguns profissionais já mostram claros sinais de preocupação, mas a indústria ainda não começou ativamente à procura de soluções.

Quinta-feira, 10 Outubro 2013 09:50


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