Estão a passar grande parte do seu tempo de consumo de media sem contactar com conteúdo mediático no seu sentido tradicional, para consumirem aquilo que, efectivamente, lhes interessa. Seja um vídeo que encontraram no YouTube, produzido por pessoas, como elas, que atinge um milhão de visualizações, ou o trailer do filme que estreia na próxima semana. Pode até ser o trailer do filme que ainda não estreou e que, por acaso do destino, está disponível numa rede P2P, na versão que é (supostamente) apenas disponível para os críticos.
A maioria ignora a mensagem que surge em rodapé, informando que o filme não é para circulação e, simplesmente, disfruta a história. Não vou falar de pirataria e das suas consequências, mas vou concluir que os formatos genéricos, de grande apelo, dos conteúdos mediáticos de massas (ou para massas), têm os dias contados e, são já, apenas uma pequena parte da dieta mediática de muitos de nós. Cada vez mais. O que menos preocupa este consumidor de media, é o “onde”, privilegiando o conteúdo. É aqui que a economia digital mostra a sua força, disponibilizando ao consumidor (simultaneamente aos meios de comunicação social) as ferramentas que lhe permitem encontrar esse conteúdo.
Ao longo dos últimos anos, o YouTube tem sido um bom exemplo (ou antes uma fonte?) da mudança na cultura do entretenimento, desenvolvendo-se fora (mas também paralelamente) do ecosistema industrial da televisão e do cinema, com as produtoras, distribuidoras e canais a utilizarem o YouTube na mesma lógica de distribuição de um para muitos que sustentou, durante décadas, a indústria do entretenimento audiovisual.
A diferença do YouTube são as pessoas. O carisma, a criatividade, o humor daqueles que conseguem partilhar parte da sua vida (ou recriar uma outra vida) através de canais virtuais que chegam a ter milhares de subscritores, provavelmente mais leais a estes do que aos canais tradicionais. Porquê? Simplesmente porque desta forma se eliminou o efeito ecrã. Os que estão do lado de lá, são pessoas como as que estão do lado de cá. As que estão do lado de lá transformaram a estética e a narrativa do audiovisual. E as que estão do lado de cá, os espectadores, sentem, desta forma, que fazem parte da vida dos que estão do lado de lá. Não sentem que gostariam de ser como eles. Não aspiram a ter a vida que vêm representada. Sentem que fazem parte dessa mesma vida.
Isso, muda tudo.
Investigadora e Coordenadora da Unidade de Ciências da Comunicação no ISCSP
(Declaração de interesses: Paula Cordeiro é actualmente a provedora do ouvinte na rádio pública. Escreve na qualidade de investigadora na área da rádio)
Este artigo não foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.
Fonte: Briefing

